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Não é que tenhamos pouco tempo, mas desperdiçamo-lo muito

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Não é que tenhamos pouco tempo, mas desperdiçamo-lo muito

O "De brevitate vitae" ("Sobre a brevidade da vida"), de Séneca (4 a.C. - 65 d.C.) é uma longa representação daqueles que usam mal o tempo, e o objetivo do autor consiste mais em denunciar todas as formas através das quais a vida pode ser estragada do que em deter-se sobre a única forma de ela dar fruto.

«Não é que tenhamos pouco tempo», escreve Séneca, «mas desperdiçamo-lo muito». Peritos em desperdiçar o tempo são os "atarefados", ou seja, aqueles que não têm um minuto livre porque atulham de coisas fúteis as horas do seu dia.

Em primeiro lugar, Séneca enumera aqueles «que não se ocupam de coisa nenhuma a não ser o vinho e o prazer: ninguém é mais torpemente atarefado». E os cabelos brancos e as rugas não indicam que se viveu muito tempo: demonstram apenas que se existiu muito tempo.

De um marinheiro que depois de ter saído do porto, uma cruel tempestade levou aqui e ali e o conduziu em círculo através das vicissitudes dos ventos soprados em direções díspares» não se dirá que navegou muito: simplesmente, que «muito foi sacudido».

A vida divide-se em três tempos: «O que foi, o que é e o que será». Destes, adverte o filósofo, aquilo que vivemos no presente é breve, o que viveremos é dúbio, o que vivemos no passado é certo. Aos atarefados «diz respeito apenas o tempo presente, que é demasiado breve para ser capturado, e mesmo este é subtraído àqueles distraídos em muitas ocupações».

Ao contrário, uma mente segura e tranquila percorre com facilidade toda a própria vida, porque a sabedoria estóica de Séneca ensina que «o viver precisa de ser aprendido toda a vida, e durante toda a vida é preciso aprender a morrer».

Não são poupados sequer os eruditos. Séneca estigmatiza polémicas que ainda são de hoje: «Se primeiro foi escrita a "Ilíada" ou a "Odisseia", se além disso são do mesmo autor, e outras coisas deste género, se as guardas para ti não trazem qualquer bem à tua consciência que permanece em silêncio, se as exibes não parecerás mais douto, mas mais entediante».

São verdadeiramente livres aqueles que têm tempo para a filosofia, «esses só vivem»: acrescentam aos seus anos aqueles dos grandes do passado, e podem dialogar com Zénon, Pitágoras, Demócrito, Aristóteles e Teofrasto.

«É muito breve e atormentada a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente, temem o futuro: quando chegarem ao fim, compreenderão tarde, desgraçados, que estiveram atarefados tanto tempo enquanto não faziam nada.»

Séneca, como é sabido, foi precetor de Nero, mas poucos anos depois o imperador começou a odiá-lo, acusando-o de ter participado numa conjura contra ele, e propôs-lhe o suicídio como única via de saída.

O filósofo, por isso, rodeado dos discípulos e dos amigos, fez-se cortar as veias dos pulsos, mas o sangue fluía lentamente, e por isso fez-se cortar também as veias das pernas. Ainda não sendo suficiente, fez-se conduzir a um banho de tal maneira quente que, provavelmente, morreu sufocado pelos vapores. Conta-o Tácito, talvez adaptando a Séneca a narrativa platónica da morte austera de Sócrates, como fez para a morte de outros ilustres suicidas.

Do estoicismo de Séneca permanece a alta advertência sobre o bom uso do tempo que nos é dado a viver. Para dizer como S. Paulo, trata-se de «aproveitar o tempo, pois os dias são maus» (Efésios 5, 16).

Para uma conclusão "soft", confiamo-nos a um dos 511 conselhos de H. Jackson Brown Jr. para se ser feliz: «Não digas que não tens tempo suficiente. Tens exatamente o mesmo número de horas por dia que foram dadas a Pasteur, Miguel Ângelo, Madre Teresa, Leonardo da Vinci, Thomas Jefferson e Albert Einstein».

 

Cesare Cavalleri
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 14.09.2016

 

 
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«É muito breve e atormentada a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente, temem o futuro: quando chegarem ao fim, compreenderão tarde, desgraçados, que estiveram atarefados tanto tempo enquanto não faziam nada»
Do estoicismo de Séneca permanece a alta advertência sobre o bom uso do tempo que nos é dado a viver. Para dizer como S. Paulo, trata-se de «aproveitar o tempo, pois os dias são maus»
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