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Leitura: "Não se mata em nome de Deus!"

Leitura: "Não se mata em nome de Deus!"

Imagem Capa | D.R.

O assassínio do padre Jacques Hamel por dois jihadistas, a 26 de julho de 2016, em França, enquanto celebrava a missa, está no centro do livro "Não se mata em nome de Deus!", de Jan De Volder, recentemente publicado pela Paulinas Editora.

"Uma manhã fatídica", "Sacerdote do Concílio", "Pároco de periferia", "Fiel até ao seu derradeiro suspiro" e "Uma emoção planetária" são os capítulos deste livro, que é prefaciado pelo fundador da Comunidade de Sant'Egidio, o historiador e ex-ministro italiano Andrea Riccardi, texto que apresentamos seguidamente.

 

Prefácio
Andrea Riccardi
In "Não se mata em nome de Deus!"

O que é que poderia levar o padre Jacques Hamel a sair do anonimato senão a sua morte violenta perto de Rouen, no interior de uma igreja e durante a missa, a 26 de julho de 2016? Mas poderemos limitar-nos a este acontecimento e ao seu anúncio sem nos interrogarmos quem ele foi?

Universitário, especialista em Cristianismo Contemporâneo, o belga Jan de Volder, abalado pela notícia de um sacerdote morto aos pés do altar, começou logo a informar-se sobre o homem e a sua vida. Nas páginas que se seguem, ele reconstrói com precisão as suas origens, o seu percurso, os seus compromissos bem como as reações que o seu fim trágico suscitou em França e no mundo. Esboça o quadro vivo de uma história vulgar, a biografia de um padre, que não é banal, mas bem singular.



Ao lermos este livro, também vemos que a vida deste sacerdote da diocese de Rouen é em si mesma significativa, mesmo tendo ocorrido longe dos projetores, tendo sido uma vida humilde, vivida no terreno, nas periferias



A qualidade da pesquisa e da escrita que De Volder manifesta, repletas de paixão tanto pelo facto religioso como pela coisa pública, levam-nos a evocar, no nosso espírito, os versos de um poeta chinês. Nos anos 1930, na prisão, Ai Qing interrogava-se sobre quem saberia recolher «as lágrimas dos sacrificados/ que sofreram todas as dores», antes de formular a esperança de que a recordação de sofrimentos tão grandes não se perca «se uma destas lágrimas puder ser recolhida». Estes mesmos versos que nós quisemos inscrever em epígrafe no nosso livro "Ils sont morts pour leur foi", que reconstitui a longa e dolorosa crónica dos novos mártires do século XX.

É exatamente isso que Jan de Volder faz aqui. Ele consegue que o assassínio do padre Hamel não seja uma mera notícia entre outras notícias – por mais terrível que ela tenha sido. Ele recolhe as «lágrimas» não só de uma morte, mas também de toda uma vida. Se o padre Jacques pereceu assim, foi porque teve uma existência sacerdotal generosa e a continuou até uma idade avançada, oitenta e cinco anos, sem se aposentar, sem pôr um fim ao seu serviço. Ao lermos este livro, também vemos que a vida deste sacerdote da diocese de Rouen é em si mesma significativa, mesmo tendo ocorrido longe dos projetores, tendo sido uma vida humilde, vivida no terreno, nas periferias, para realizar a missão a que se tinha consagrado desde a sua juventude e que fora ratificada na sua ordenação em 1958.

Sim, esta história não é banal. Um sacerdote viver para o seu povo e para o Evangelho, acreditar na liturgia ao ponto de a celebrar para um pequeno número de pessoas, mas com toda a fé e dignidade requeridas, é tudo menos banal. Em França, na Europa ocidental, a contracorrente é muitas vezes uma história, tanto mais que os sacerdotes se tornam cada vez mais raros e que a Igreja encontra aqui matéria para interrogações. Na verdade, foi sobre um padre de origem congolesa que recaiu a responsabilidade da paróquia de que o padre Hamel foi, durante vários anos, o pároco. Contudo, o seu caso não tem que ver apenas com uma «categoria socioprofissional» prestes a desaparecer, muito ao jeito das profissões de outrora que a sociedade moderna e pós-moderna dispensa de boa vontade. A sua Igreja também não é uma realidade em vias de extinção. É uma coisa bem diferente. A Igreja de França, certamente minoritária num país laico, por vezes criticada internamente pelos tradicionalistas, como acontece no seio da Cúria Romana, é tudo menos uma sobrevivência insignificante. É uma realidade pobre em recursos e em influência política, mas não em significado, e até mesmo para os franceses de outras sensibilidades.



Meditar sobre a constância da sua trajetória entre os homens e tentar compreender a esperança que o habitava: são estas as razões que justificam uma biografia do padre Jacques Hamel



Apercebemo-nos disso no momento da morte de Jacques Hamel. Vimos como a França inteira, a começar pelo Presidente da República, François Hollande, se juntou e uniu em torno da Igreja e da figura deste padre. Apercebemo-nos disso nas palavras do arcebispo de Rouen, Monsenhor Lebrun, o bispo do padre Jacques, nas do cardeal Vingt-Trois, que celebrou o ofício em me mó ria do sacerdote assassinado em Notre-Dame, nas de tantos outros responsáveis católicos, e sentimos então uma força espiritual e humana perante a provação deste drama bem como uma lucidez inquebrantável na leitura deste ato de terror, que o foi não só para os católicos, mas igualmente para todos os franceses.

Ora, o padre Jacques Hamel é plenamente um filho desta Igreja de França, que foi o horizonte da sua vida. Viveu nela as diferentes épocas, do período pré-conciliar até hoje, passando pelo Vaticano II. Também atravessou tudo o que formou a França recente. Estas duas histórias conjugadas marcaram-no profundamente – e mostrá-lo não é mérito menor da presente obra.

Uma vida assim, repetimos, não é em nada banal. Perante as transformações da sociedade francesa destes últimos decénios, ela é a de um homem que nunca deixou de representar uma referência cristã para uma multidão: junto dos operários dos Trinta Gloriosos Anos que viram o seu mundo desestabilizado, junto dos imigrantes e dos muçulmanos que chegaram massivamente desde então e, sem qualquer dúvida, junto dos simples fiéis e de outros cidadãos anónimos que não puderam fazer ouvir as suas vozes, mas que, com ele, conheceram esta transição. Ele encarnou, em nome do Evangelho, uma maneira de viver com os outros, diferente, que tem o seu próprio valor, sempre em prol do bem público. Meditar sobre a constância da sua trajetória entre os homens e tentar compreender a esperança que o habitava: são estas as razões que justificam uma biografia do padre Jacques Hamel.



O século XX terá sido o século dos mártires, como João Paulo II o entendeu, o tempo dos totalitarismos assassinos contra os quais a presença cristã terá sido um escudo ao mesmo tempo sólido e frágil, impedindo o seu domínio da sociedade e das consciências



Os sacerdotes sabem morrer é o título que, por sua vez, o P. Primo Mazzolari quis dar a uma pequena obra da sua lavra. Este padre italiano, nascido em 1890 e falecido em 1959, foi alvo do ostracismo da hierarquia, antes de receber, perto do fim da sua vida, a bênção do papa João XXIII. Tinha idealizado o seu livro como uma via-sacra dedicada ao P. Umberto Pessina, morto pelos franco-atiradores comunistas, em 1946, em Reggio Emilia, bem como a muitos outros eclesiásticos que caíram durante aqueles «anos sombrios». Como verdadeiro sacerdote que ele próprio era, Mazzolari via na morte violenta a chave da vida sacerdotal, e não uma questão de circunstâncias, fossem elas uma forma ou outra de terror. Daí o subtítulo que deu ao seu memorial: A via-sacra continua. O seu livro foi publicado em 1958, o ano da ordenação do padre Hamel.

Esta via-sacra não está concluída. O século XX terá sido o século dos mártires, como João Paulo II o entendeu, o tempo dos totalitarismos assassinos contra os quais a presença cristã terá sido um escudo ao mesmo tempo sólido e frágil, impedindo o seu domínio da sociedade e das consciências. Mas a história do martírio não acabou com o século passado. Ela continua. E mesmo aqui, na Europa.

Com sensibilidade, Jan De Volder apreendeu o valor histórico e emblemático da história do humilde padre de Saint-Étienne-du-Rouvray. Não esperou anos para nos entregar um texto sapiencial. Com este livro, contribui para que a emoção suscitada por esta morte não passe, mas se torne memória. Memória para os cristãos. Mas também memória para os franceses e os europeus. Para que todos sejam conscientes do que vale uma vida vivida para os outros e inseparável da paixão pelo bem comum.

Os mártires podem ser recuperados para gritar vingança. Aconteceu no passado, acontece e acontecerá ainda. Mas podem sê-lo também, de uma forma mais controlada, para reclamar medidas de segurança, principalmente contra os «mundos» em risco, multiplicando sempre cada vez mais os muros. Não ouvimos estas reivindicações da parte da Igreja de França. Isso não teria sido coerente com a herança do padre Jacques. Se havia uma estratégia por detrás do atentado terrorista de 26 de julho de 2016, era efetivamente a de suscitar o espectro de uma guerra de religiões: o Islão contra o Cristianismo. Mas, na esteira do Vaticano II, a Igreja Católica recusou cair nessa armadilha, não obstante alguns dos seus fiéis cederem à tentação, se não do conflito, pelo menos da muralha. A Igreja do padre Jacques, de João Paulo II e do papa Francisco continua a acreditar na arte de vivermos juntos em paz e no respeito mútuo, que nasce do diálogo quotidiano.



No domingo que se seguiu à sua morte, os muçulmanos, em França, e um pouco por toda a Europa, tomaram a iniciativa de assistir à missa, facto inédito que prova o quanto os anos de diálogo constante não foram totalmente inúteis



Depois do terrível atentado de 11 de setembro de 2001, que estremeceu as nossas consciências ao ponto de se ter imposto a fórmula «Nós somos todos americanos», João Paulo II não cedeu às pressões daqueles que requeriam a sua bênção para desencadear uma guerra de religiões contra o terrorismo islâmico, ou seja, contra o Islão. Ele convidou os católicos, em concertação com os muçulmanos, a fazerem um jejum no último domingo do Ramadão do ano 2001. Depois, no início de 2002, convocou os responsáveis das religiões mundiais para Assis a fim de rezarem pela paz, para que o mundo seja libertado da guerra e do terrorismo.

Hoje, o assassínio do padre Jacques, um dos «sacerdotes que sabem morrer», ao mesmo tempo que levou a sublinhar a dignidade dos seus últimos instantes, fez abalar as nossas consciências. No domingo que se seguiu à sua morte, os muçulmanos, em França, e um pouco por toda a Europa, tomaram a iniciativa de assistir à missa, facto inédito que prova o quanto os anos de diálogo constante não foram totalmente inúteis. Em Assis, a 20 de setembro de 2016, o papa Francisco celebrou, com as grandes figuras confessionais vindas do mundo inteiro, o trigésimo aniversário da oração inter-religiosa pela paz querida pelo papa Wojtyła. A história não se repete, continua. E fala de forma profética à nossa época complexa, para não dizer confusa.

Aliás, cada mártir constitui uma profecia evangélica. Uma profecia paga com a própria vida. Toda a vida vivida junto do altar é uma vida oferecida aos outros, exposta a qualquer um. Não aconteceu assim com o padre Jacques? Ele mesmo, pouco antes do verão, tinha feito um pedido aos seus paroquianos: «Rezemos por aqueles que mais precisam, pela paz, por uma melhor vida em conjunto. Este será ainda o Ano da Misericórdia.» Através não apenas da sua morte, mas de toda a sua vida, compreendemos que não eram só palavras, mas uma aspiração profunda, vivida no quotidiano, nos recantos de um mundo periférico.



 

Publicado em 02.01.2017

 

Título: Não se mata em nome de Deus! - A vida e o assassínio do Padre Jacques Hamel
Autor: Jan De Volder
Editora: Paulinas
Páginas: 120
Preço: 10,00 €
ISBN: 978-989-673-550-0

 

 
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