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Cinema: “Não deixeis cair em tentação”

Através do itinerário de um jovem em processo de cura para desintoxicação numa casa fundada e gerida por católicos, “Não deixeis cair em tentação”, com estreia anunciada para Portugal a 18 de outubro, é um filme que questiona a confiança e a fé.

Num tempo em que os meios de comunicação tem a tendência de mencionar a religião apenas para falar de violência, radicalismo, pedofilia e escândalos financeiros, é impressionante ver um filme que interroga de maneira tão sincera a fé e o trabalho dos crentes que se dão inteiramente à sua missão.

Entra-se em “La prière” (“A oração”, título original) com Thomas, jovem de rosto quase angelical. Marca de golpe, olhos para baixo, fechado sobre si mesmo, está a caminho de um centro de desintoxicação, lugar cortado do mundo, isolado numa paisagem de alta montanha.

Criada por católicos, a instituição é gerida por educadores leigos, com uma disciplina rígida em relação aos toxicodependentes: trabalho para ocupar o corpo, oração para ocupar o espírito e família para ocupar o coração. Os adultos, educadores, padres, religiosos ou vizinhos, são bem-vindos. A oração, como o respeito pelas regras da casa, é obrigatória. Mas não a fé, que se concretiza ou não.

Todas as personagens, à exceção de uma, secundária, são interpretadas por atores desconhecidos, o que evita ao espetador associar um rosto a uma história mediática ou profissional.



Não saberemos nada sobre Thomas, muito pouco sobre os outros, o que os levou até lá, excetuando emocionantes e breves "confissões" diante da câmara. Cada uma das personagens existe apenas no ecrã nesse momento, mas existe verdadeiramente e incarna uma humanidade em sofrimento que procura salvar-se



Para o realizador, Cédric Kahn, esta opção reforça o lado verídico do filme, a sua intensidade, mesmo se a ficção é plenamente convocada. A escolha permite também criar um verdadeiro grupo, uma plena comunhão (a temática católica está no coração do filme).

As orações e cantos são integralmente proferidas e entoadas pelos próprios atores. A importância do grupo é essencial para construir o filme, tal como o é para os pacientes do centro.

Com efeito, é a pertença ao grupo e a qualidade dos laços de amizade que permite a um indivíduo destruído voltar a erguer-se. E o filme é conseguido em parte por transmitir a força do grupo, ao passo que poucos pacientes são verdadeiramente identificáveis.

“Não deixeis cair em tentação” é uma câmara fechada no espaço imenso das montanhas e do céu, onde os corpos estão sempre em movimento, para libertar a cabeça dos seus venenos. Câmara fechada onde o tempo decorre sem pontos de referência, a não ser os tempos de oração e o ritmo das estações: a neve no Inverno e o seu silêncio suave; o sol no Inverno que aquece os corpos.

Câmara fechada também, naturalmente, para Thomas, no início do seu caminho, como para os outros toxicodependentes, que lutam contra a carência e têm de resistir às pulsões e à cólera. Câmara fechada que para alguns se transformará, para alguns, em refúgio demasiado confortável para que desperte o desejo de o abandonar.



O cineasta consegue um filme impressionante porque fala da fé religiosa fora dos clichés habituais, porque cada uma das personagens existe com dignidade.



Não saberemos nada sobre Thomas, muito pouco sobre os outros, o que os levou até lá, excetuando emocionantes e breves "confissões" diante da câmara. Cada uma das personagens existe apenas no ecrã nesse momento, mas existe verdadeiramente e incarna uma humanidade em sofrimento que procura salvar-se.

A encenação apoia-se muito no jogo dos atores e o prémio de interpretação masculina recebido por Anthony Bajon no Festival de Cinema de Berlim em 2018 é plenamente merecido. Fechado, solar, revoltado, quebrado, levantado, o seu corpo exprime uma paleta de sentimentos.

Cédric Kahn aborda a questão da fé em condições extremas, onde ela é antes de tudo uma mecânica de oração, um constrangimento diário, uma regra de vida que tenta reconstruir indivíduos destruídos.

O verdadeiro milagre é o olhar de Thomas que se levanta, é essa confiança em si finalmente reencontrada, o desejo de sair do casulo protetor do centro. É uma fé que duvida mas liberta.

A encenação está à altura desse mistério, privilegiando as elipses, a intensidade dos quadros e a delicadeza da luz sobre os rostos. O cineasta consegue um filme impressionante porque fala da fé religiosa fora dos clichés habituais, porque cada uma das personagens existe com dignidade.

Surpreendente até ao fim, “Não deixeis cair em tentação” é um filme que tem alento: insufla delicadeza num universo quase prisional, insufla graça na mecânica corporal da oração e insufla redenção numa vida estilhaçada.








 

Magali Van Reeth
in Signis
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "La prière" | D.R.
Publicado em 17.09.2018

 

Título: Não deixeis cair em tentação
Realização: Cédric Kahn
Interpretação: Anthony Bajon, Damien Chapelle, Àlex Brendemühl, Louise Grinberg, Hanna Schygulla, Magne-Håvard Brekke, Davide Campagna, Maïté Maillé
Género: Drama
Origem / Ano: França / 2018
Duração: 107 min.
Estreia prevista em Portugal: 18.10.2018

 

 
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