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Na arte, ciência e espiritualidade, a luz é «revelação» e «epifania»

Como jovem que cresceu na Baviera rural na década de 1930, muito da vida de Joseph Ratzinger girava em torno da Igreja e do seu calendário litúrgico. Nascido no Sábado Santo de 1927, era especialmente sensível ao uso da luz nos rituais da Semana Santa, acima de todos a grande Vigília Pascal.

Veja-se como Ratzinger recordava essa celebração na igreja de Aschau am Inn, uma das várias pequenas e médias cidades da Baviera onde passou a infância:

«Durante a Semana Santa, cortinas negras cobriam as janelas da igreja, de modo que, mesmo durante o dia, todo o espaço estava preenchido por uma misteriosa escuridão. Quando o pastor cantava as palavras «Cristo ressuscitou!», as cortinas caíam de repente e o espaço era inundado por luz radiante. Era o retrato mais impressionante da ressurreição do Senhor que eu podia conceber».

A interação da luz e da escuridão durante a Semana Santa, tão apreciada pelo jovem Ratzinger e gerações de outros católicos ao longo do tempo e do espaço, inspirou uma conferência que decorreu esta segunda e terça-feira na Universidade Gregoriana, em Roma.

Intitulado “Doce é a Luz: Luz, experiência de Deus na história”, o encontro reuniu cientistas, filósofos, poetas, artistas, teólogos e outros especialistas na oportuna aproximação ao período mais sagrado do calendário cristão.



É tão importante o papel da luz na Vigília Pascal que há uma disputa entre os liturgistas sobre quando, precisamente, se devem acender as luzes na igreja



O padre jesuíta Andrea Dall'Asta, diretor da Galeria San Fedele, em Milão, e titular de um doutoramento em estética filosófica, descreveu o uso da luz nos trabalhos de artistas como Caravaggio - o mestre reconhecido do chiaroscuro”, a interação do claro e escuro - e Johannes Vermeer.

Por exemplo, Dall'Asta afirmou que no "Chamamento de S. Mateus", de Caravaggio, completado em torno do ano 1600, «a luz não é apenas uma estratégia retórica, mas significa uma nova ordem espiritual e teológica. Aponta para um momento de escolha, de recusa ou obediência, um "sim" ou um "não"».

Na "Rapariga com brinco de pérola", de Vermeer, pintado em 1665, Dall'Asta sustentou que a luz é usada para apresentar «uma cena simples da vida comum capturada na sua extraordinária beleza e densidade, elevando-a ao nível do absoluto».

Em ambos os casos, argumentou, a luz é usada para transmitir significado teológico e espiritual, muito além do seu efeito estético.

Ironicamente, Dall'Asta estava mais confiante no significado artístico da luz do que o padre jesuíta Gabriele Gionti, astrónomo italiano especializado em cosmologia e física quântica para o Observatório do Vaticano, em relação à explicação da natureza física da luz: «Para ser sincero, prefiro que alguém mo explique».



Não mais do que na Vigília Pascal a luz é projetada para ser para o olhar católico o que foi para Vermeer no século XVII



Na sua intervenção, Gionti atravessou várias fases históricas na evolução da compreensão científica da luz, chegando ao que denominou de «modelo atual», derivado da mecânica quântica, segundo o qual a luz é, simultaneamente, composta de partículas e ondas.

Ao longo do percurso, Gionti observou que vários avanços importantes na ciência da luz vieram de investigadores cristãos, incluindo o padre jesuíta italiano Angelo Specchi, do século XIX, considerado o fundador da astrofísica moderna e cujos estudos sobre as qualidades espectrais da luz foram conduzidos em parte pelo seu fascínio por eclipses e manchas solares, que examinou no observatório jesuíta do Colégio Romano, em Roma.

A ciência não consegue decifrar hoje plenamente a natureza da luz; o que se pode dizer é o seguinte: «Alguns fenómenos físicos podem ser melhor explicados assumindo que a luz é constituída por ondas, outros por luz constituídas por partículas, o que significa fotões». Por outras palavras, Gionti parecia sugerir que ainda há espaço abundante para o mistério.

Para os católicos, a Páscoa é quando o mistério e o poder da luz são mais visíveis, especialmente na missa da Vigília Pascal. O missal romano, que recolhe as orações e instruções para várias formas do culto católico, descreve-a como a «mãe de todas as vigílias» (segundo o “Sermão 209”, de Santo Agostinho) e diz que é a maior e mais nobre de todas as solenidades.

De acordo com as regras litúrgicas da Igreja, a Vigília deve ter lugar depois escurecer, no Sábado Santo. As fontes das águas abençoadas nas igrejas são drenadas, todas as luzes são apagadas e o sacrário deve estar vazio.


Na luz, «todo o ser humano torna-se nobre, torna-se uma obra de poesia, e pequenos gestos tornam-se universais, transcendentes e eternos»



A primeira parte da vigília, chamada de Lucernário, é dedicada à luz como símbolo e manifestação da ressurreição de Cristo. Começa diante da porta da igreja com o acendimento do fogo que vai iluminar o círio pascal.

Essa vela é depois preparada com a incisão de duas hastes, uma vertical, outra horizontal (cruz), das letras alfa e ómega, primeira e última do alfabeto grego, e dos quatro algarismos do ano corrente.

Depois de ter gravado a cruz e os outros símbolos, o presidente pode colocar no círio cinco grãos de incenso, em forma de cruz, e a seguir acende-o do lume novo, dizendo: «A luz de Cristo gloriosamente ressuscitado nos dissipe as trevas do coração e do espírito».

O círio é seguidamente levado em procissão pela igreja, ainda às escuras, por um diácono (ou outro ministro), que a ergue em três momentos, cantando «a Luz de Cristo», a que a assembleia responde «graças a Deus».

É tão importante o papel da luz na Vigília Pascal que há uma disputa entre os liturgistas sobre quando, precisamente, se devem acender as luzes na igreja. O facto de existir essa discussão ilustra a centralidade da interação entre escuridão e luz.

Não mais do que na Vigília Pascal a luz é projetada para ser para o olhar católico o que foi para Vermeer no século XVII, segundo as palavras de Dall’Asta.

«A luz não é apenas um instrumento que ilumina um canto obscuro, mas é uma presença, é uma revelação, é uma epifania», afirmou. «Nela, todo o ser humano torna-se nobre, torna-se uma obra de poesia, e pequenos gestos tornam-se universais, transcendentes e eternos.»


Imagem "Rapariga com brinco de pérola" (det.) | Vermeer | C. 1665

 

John L. Allen Jr.
In Crux
Trad. / edição: SNPC
Imagem: "A vocação de S. Mateus" (det.) | Caravaggio | C. 1600
Publicado em 06.03.2018

 

 
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