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Música, bálsamo sem idade

Imagem Georgette ao piano (det.) | René Magritte | 1923 | Galeria Isy Brachot, Bruxelas, Bélgica | D.R.

Música, bálsamo sem idade

A música faz bem. Sabiam-no os antigos, que tinham codificado os efeitos, verdadeiros ou presumidos, da música sobre o ser humano na sua unidade de corpo e espírito; demonstram-no sempre novos estudos, que evidenciam os benefícios da prática musical sob muitíssimos aspetos (neurológicos, motores, cognitivos, relacionais). Sabe-o, de maneira mais ou menos explícita, quem experimentou o deleite e a serenidade, a alegria e a capacidade de unir que a música pode oferecer a quem a cria, a quem a escuta, a quem a executa.

Recentemente, um estudo realizado na Austrália trouxe à luz um aspeto até agora esquecido da música, revelando como, em geral, nunca é demasiado tarde na vida para começar a tocar um instrumento musical, como também a prática musical pode melhorar notavelmente a qualidade de vida na terceira idade.

Jennifer MacRitchie, professora de Perceção da Música e Cognição no Instituto Marcs da Universidade Western Sydney, realizou esse estudo inovador, valendo-se da própria dupla formação no plano musical e na área da engenharia, em particular utilizando a tecnologia "motion capture" para esturar os movimentos do corpo na execução musical.

Como é que se aproximou do seu objeto de investigação?
As minhas investigações anteriores tinham examinado os movimentos dos dedos de alguns pianistas experientes durante as suas interpretações, notando que esses movimentos eram caracterizados por uma extrema precisão espacial e temporal. Observando que as mesmas características se encontravam também entre os músicos amadores, embora não ao mesmo nível, e que tais aptidões se podiam muitas vezes transferir para outras atividades realizadas com as mãos (como digitar num teclado de computador), fui conduzida a perguntar-me se a capacidade de tocar o piano poderia ajudar as pessoas idosas. Os idosos experimentam, muitas vezes, um declínio nas aptidões quotidianas, como escrever, cortar alimentos, lavar-se os vestir-se. Pretendo verificar se, através da aprendizagem do piano, algumas das aptidões aprendidas se poderiam transferir para uma melhor execução de tais atividades quotidianas, ajudando os anciãos a manter a autossuficiência.

Qual é a idade certa para começar a tocar? Não deveria ser o mais cedo possível?
Sim, alguns estudos sugerem que se a instrução musical de uma criança começa antes da idade crítica dos sete anos obter-se-ão os benefícios máximos. Todavia, nem sempre se acrescenta que se se perdeu a ocasião quando se é jovem, isso não significa que não possam existir benefícios de tocar um instrumento se se começa aos 70 anos.

Mas por que motivos um idoso se deve deparar com o desafio complexo de começar a tocar?
O cérebro que envelhece é plástico. Isto significa que pode sempre aprender coisas novas; a idade é só um número. Se se inicia uma atividade nova, especialmente uma que, como o fazer música, envolve um grande número de aptidões, põe-se em exercício o cérebro e isso ajuda a conter o declínio que vivemos com a idade. Há um grande número de recursos que podem ajudar os idosos: há tutoriais na internet e as partituras das canções famosas estão cada vez mais disponíveis. Pode adquirir-se um instrumento com um custo reduzido ou alugá-lo.

Os idosos admitem muitas vezes que gostariam de ter aprendido música; quando é que esta mágoa se transforma em ação? Há muita necessidade de encorajamento do exterior?
Quando as pessoas ouvem falar da nossa investigação, essa é muitas vezes a primeira coisa que dizem: «Quis sempre tocar guitarra, ou piano, mas não tive a possibilidade». Demasiadas vezes as pessoas consideram que estão perante uma oportunidade perdida e acreditam que nunca mais vão poder começar. A nossa investigação é importante por mostrar que nunca é excessivamente tarde.

Como é que esta investigação foi realizada?
De momento estamos a estudar um grupo de adultos com mais de 65 anos, em Sidney, que não têm experiência musical anterior e estão a aprender a tocar piano, com lições de grupo de uma hora durante um período entre seis a 12 semanas. Medindo aspetos da sua aptidão motora através de testes estandardizados e exercícios visuais e motores no computador, estamos em condições de monitorizar como as suas aptidões motoras se desenvolvem nesse período.

Quais são os resultados mais interessantes e inesperados?
A investigação ainda está a decorrer mas os participantes que completaram o curso de piano dizem-se muito surpreendidos por quanto conseguiram aprender e de como isso lhes deu satisfação.

A prática musical por parte dos idosos é útil "só" sobre o plano orgânico e cognitivo ou tens outros efeitos positivos observáveis?
O conceito de formação permanente e a investigação que examina os resultados de várias atividades de aprendizagem na terceira idade mostram que os idosos podem experimentar benefícios quer do ponto de vista social (fazer novos amigos, partilhar algo com os outros), quer do pessoal (satisfação por ter atingido um objetivo e ter adquirido novas aptidões). Seria belíssimo se a terceira idade deixasse de ser vista como o declínio final de um presumível auge da maturidade, mas como um novo ato da vida que abre novas oportunidades. Devemos dar aos idosos a possibilidade de se desenvolverem de formas que nunca antes tinham imaginado. Atividades como cantar no coro ou tocar piano podem oferecer essa possibilidade: quer se seja autossuficiente ou se esteja numa casa de repouso, o terceiro ato da vida deveria ser musical.

 

Chiara Bertoglio
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 21.07.2016

 

 
Imagem Georgette ao piano (det.) | René Magritte | 1923 | Galeria Isy Brachot, Bruxelas, Bélgica | D.R.
Alguns estudos sugerem que se a instrução musical de uma criança começa antes da idade crítica dos sete anos obter-se-ão os benefícios máximos. Todavia, nem sempre se acrescenta que se se perdeu a ocasião quando se é jovem, isso não significa que não possam existir benefícios de tocar um instrumento se se começa aos 70 anos
Seria belíssimo se a terceira idade deixasse de ser vista como o declínio final de um presumível auge da maturidade, mas como um novo ato da vida que abre novas oportunidades. Devemos dar aos idosos a possibilidade de se desenvolverem de formas que nunca antes tinham imaginado
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