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Museus do Vaticano acolhem debate "Para que serve a arte?"

Imagem "Transfiguração" (det.) | Rafael | Museus do Vaticano

Museus do Vaticano acolhem debate "Para que serve a arte?"

Por iniciativa de Anna Somers Cocks, responsável pelo "The Art Newspaper",  e de Umberto Allemandi, editor de "Il Giornale dell'Arte", a pergunta foi colocada a alguns intelectuais e profissionais, em alguns dos maiores museus do mundo, atraindo sempre vasta atenção do público e da crítica. O "para que serve a arte?" foi protagonista de dias memoráveis entre outubro de 2015 e maio deste ano, no Museu Britânico, em Londres, no Hermitage de S. Petersburgo, no MOMA de Nova Iorque. Na tarde desta quinta-feira, 6 de outubro, o espaço anfitrião será a Sala de Rafael da Pinacoteca do Vaticano, o lugar mais eminente dos Museus do papa. Mas como funcionam, o que são as jornadas "What is art for?"?

São organizadas como um processo. No centro está a arte, a arte dos nossos dias. Qual é a sua função social? O que diz às mulheres e aos homens de hoje? A arte contemporânea consegue ainda emocionar, envolver, surpreender, sobretudo persuadir? Em definitivo - esta é a pergunta das perguntas - é preciso ainda fazer arte, colecionar arte, discutir arte sob o céu da modernidade?

Como em todo o processo há testemunhas que falarão de diversos ângulos críticos e profissionais em favor da arte, e haverá um juiz que orientará e vigiará o debate e que emitirá, no fim, o seu veredito.

Os convidados chamados a testemunhar não são profissionais da arte (galeristas ou diretores de museus), mas homens e mulheres que observam a arte do ponto de vista, por assim dizer, "leigo". No caso do encontro no Vaticano serão Carlo Mayer, industrial e musicólgo, Carlo Ossola, filólogo do "Collège de France", Paola Santarelli, empresária e colecionadorea, e Gian Antonio Stella, jornalista. O papel de juiz cabe ao magistrado Francesco Messineo.

Referimos que o encontro decorrerá na Sala de Rafael. Estar neste espaço significa estar rodeado de obras-primas absolutas da arte universal, junto da "Transfiguração" e da "Senhora de Foligno", rodeado de tapeçarias com histórias dos santos Pedro e Paulo, de quem Rafael forneceu os desenhos e que custaram ao Papa Leão X sessenta mil ducados de ouro, e que hoje valerão um pouco mais de trezentos milhões de euros.

Será sugestivo falar de arte contemporânea na Sala de Rafael porque devemos perguntar-nos o que era a arte para quem encomendava aquelas obras-primas. Para Leão X, que quis as tapeçarias para a Capela Sistina, para o cardeal Giuliano de Medici, que comissionou a Rafael o quadro talvez mais belo do mundo, com Cristo que resplandece como o sol do meio-dia sobre a obra em negro, quase pré-Caravaggio, das mulheres e dos homens que se agitam desesperados em busca de uma salvação que só o Transfigurado pode dar.

Para aqueles adjudicadores, a arte era espanto e emoção, era tornar visível a história, o milagre, o prodígio, era prazer dos sentidos, era admiração pelos recursos artísticos que conseguem tornar o tecido mimético da pintura e o pôr do sol por trás do monte Tabor da "Transfiguração" mais verdadeiro do que qualquer pôr do sol que aos olhos humanos em vida seja dado a ver. Naturalmente, para aqueles homens a arte era também orgulho da função, de classe, era o modo de afirmar um primado.

Passaram só cinco séculos do tempo em que aquelas obras-primas foram realizadas. Para que serve a arte, Leão X e Giuliano de Medici sabiam-no, como o sabia Rafael. Hoje esta certeza já não existe. A obra de arte deixou de ter um estatuto definido, as linguagem expressivas decompuseram-se, fragmentaram-se, contaminaram-se. Fazer arte, colecionar arte, estudar arte significa procurar, na terra desolada da contemporaneidade, no clamor do mercado e nas seduções das modas que incessantemente nos varrem, as pepitas de ouro da qualidade e da originalidade artística.

É empresa difícil, paciente, delicada, mas a quem crê que a arte não está efetivamente morta e pode ainda dar às mulheres e ao homens de hoje emoções verdadeiras e verdadeira beleza, os encontros felizes não podem faltar.

 

Antonio Paolucci
Diretor dos Museus do Vaticano
In "L'Osservatore Romano", 5.10.2016
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 05.10.2016

 

 
Imagem "Transfiguração" (det.) | Rafael | Museus do Vaticano
Para aqueles adjudicadores, a arte era espanto e emoção, era tornar visível a história, o milagre, o prodígio, era prazer dos sentidos, era admiração pelos recursos artísticos que conseguem tornar o tecido mimético da pintura e o pôr do sol por trás do monte Tabor da "Transfiguração" mais verdadeiro do que qualquer pôr do sol que aos olhos humanos em vida seja dado a ver
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