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Mudos e incapazes de dizer o Evangelho

Estamos todos convencidos de que a crise mais considerável e determinante para o futuro das comunidades cristãs é a que diz respeito à transmissão da fé (…). Os dados fornecidos por várias análises dizem que sobretudo a geração das pessoas com 40 e 50 anos é incapaz de transmitir o Evangelho, a memória de Jesus Cristo e – digamo-la com clareza – a esperança cristã aos seus filhos, aos “millennials” mergulhados numa juventude privada de orientações, que todavia procuram e anseiam por encontrar razões e sentido à sua vida.

Interroguemo-nos, portanto, sobre a transmissão da fé aqui e agora. É preciso, antes de mais, afirmar que a transmissão é um dever, uma tarefa do cristão, porque responde a uma exigência expressa também nas Escrituras: «Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração. Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar» (Deuteronómio 6, 6-7). E mais adiante, no mesmo livro, a palavra de Deus atesta: «Quando, amanhã, os teus filhos te perguntarem que regras, leis e preceitos são estes que o Senhor, nosso Deus, vos impôs, dirás, então, aos teus filhos: “Éramos escravos do faraó, no Egito, e o Senhor tirou-nos do Egito com mão forte”» (6, 20-21).

Estas palavras, que estão no coração da fé dos judeus e, obviamente, da nossa fé em Jesus Cristo, comprovam que a transmissão é um necessário ensinamento intergeracional, de pai para filho, como que uma transfusão de memória para criar um horizonte comum de fé e de esperança, comunicação de uma experiência que pode construir uma comunidade no tempo, uma comunhão diacrónica [ao longo do tempo] do povo de Deus.



A par da dimensão do “dever” coloca-se também a do desejo de fazer participar outros, a geração vindoura, na boa notícia que “salvou” a nossa vida. A transmissão baseia-se na convicção de que aquilo que é essencial para nós pode sê-lo também para os outros. Dever e desejo convergem na composição da responsabilidade da transmissão



Nessa tarefa, a “narração”, forma bíblica da enunciação da fé, desempenha um papel privilegiado. Talvez a atual crise da transmissão se deva igualmente à incapacidade de narrar, de fazer memória, de renovar uma mensagem, de prestar atenção ao que nos precedeu, porque todas as energias parecem esgotar-se no instante fugaz, num presente que não sabe de onde é originado e é incapaz de projetar-se no futuro.

Não podemos também esquecer que no Novo Testamento a necessidade da transmissão é manifestada como possibilidade de laço entre as gerações. Paulo afirma várias vezes nas suas cartas: «Transmito-vos aquilo que recebi». O apóstolo está consciente não só da necessária continuidade da fé entre antiga e nova aliança, entre Jesus Cristo e a Igreja, mas também de que ao transmitir gera-se para a fé, age-se de maneira a operar uma inclusão no povo em aliança com Deus. Por isso a transmissão é um dever que permite habitar a Terra e estar na história, conservando e renovando a aliança com Deus, tornando-nos testemunhas da sua ação de misericórdia e de salvação em favor de toda a humanidade.

Mas a par da dimensão do “dever” coloca-se também a do desejo de fazer participar outros, a geração vindoura, na boa notícia que “salvou” a nossa vida. A transmissão baseia-se na convicção de que aquilo que é essencial para nós pode sê-lo também para os outros. Dever e desejo convergem na composição da responsabilidade da transmissão. Quem recebeu o Evangelho sente no Evangelho o apelo a transmiti-lo. A este respeito há uma nota do intelectual francês Régis Debray que me parece muito significativa: «Transmitimos para que aquilo que vivemos, acreditamos e pensamos não morra connosco». Palavras que deveriam intrigar-nos profundamente, impelindo-nos a meditar no facto de que a transmissão é chamada a confrontar-se com a não-transmissão, a qual é fim, morte da nossa fé e da nossa esperança.



Nós que, por experiência vivida e pela idade fomos constituídos como geração dos “transportadores”, temos a convicção de que a nossa fé é salvação para as nossas vidas? Acreditamos que Jesus Cristo é o tesouro descoberto num encontro, por quem deixámos e esquecemos tudo o resto, a fim de o seguir, colocando a nossa fé nele?



Precisamente por isto, coloquemo-nos a pergunta: há um futuro para o cristianismo? Se as novas gerações são tão indiferentes à fé, que será da esperança cristã? Ressoa de maneira dramática a interrogação de Jesus: «Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a Terra?» (Lucas 18, 8). E prosseguindo o raciocínio, emerge a pergunta decisiva: nós que, por experiência vivida e pela idade fomos constituídos como geração dos “transportadores”, temos a convicção de que a nossa fé é salvação para as nossas vidas? Acreditamos que Jesus Cristo é o tesouro descoberto num encontro, por quem deixámos e esquecemos tudo o resto, a fim de o seguir, colocando a nossa fé nele, o salvador das nossas vidas e o vencedor sobre as nossas mortes?

A transmissão deve transportar uma experiência e uma vivência no tempo, através das gerações, deve dar-lhe uma continuidade, um futuro. A transmissão pretende impedir que a fé seja uma vivência momentânea, fazendo-a, ao contrário, tornar-se história pessoal e do povo. Só com a transmissão a fé é subtraída ao uso individualista, para transformar-se em experiência comum, participada, eclesial, comunitária: a transmissão quer arrancar a fé ao momentâneo, ao episódico, para lhe conferir-lhe duração, continuidade, comunidade.

Perante esta crise da transmissão, somos hoje muitas vezes tentados pela impaciência e pela angústia, que induzem a procurar precipitadamente “caminhos de salvação”, caminhos de saída da crise, recorrendo a formas de comunicação dominantes, ou seja, à hipercomunicação que mascara o facto de que hoje deixou de se transmitir. Informa-se, comunica-se, multiplicam-se as palavras, levanta-se o tom de voz; fazendo assim, porém, não se transmite, porque a boa notícia, o Evangelho, só é transmissível com a presença de testemunhas. Dito de maneira mais simples: transmite-se por quem, só ao ser visto, apresenta traços evangélicos na sua pessoa, no seu estar perante Deus e no meio dos homens e mulheres do nosso tempo.



Trata-se de trabalhar para que aconteça o encontro com Jesus Cristo, o Cristo acreditado e testemunhado pelos Evangelhos e pelas suas testemunhas na história: não um Cristo projeção dos desejos e dos projetos humanos, mas aquele que é interpretação do Pai. A operação é laboriosa e requer cortar muitas imagens e expressões que impedem ao homem e à mulher de hoje reconhecer o amor que vence a morte



Transmitir a fé não significa fazer proselitismo nem aumentar o número dos pertencentes à comunidade, nem agir com a segurança de um método que se quer eficaz como antídoto para o medo de desaparecer: estas pretensas formas de transmissão são inadmissíveis.

Por fim, o cristão não pode esquecer que a transmissão da fé exige-lhe preparar tudo para que ela posa ocorrer sem obstáculos e fazê-lo com empenho e convicção, sabendo, todavia, que o sujeito da transmissão da fé é sempre o Espírito Santo, é poder do Evangelho de Jesus Cristo.

A Igreja (…) é chamada sobretudo a interrogar-se sobre a transmissão da fé, reencontrando a essencialidade da mensagem cristã, na humildade de uma escuta da humanidade de hoje, e não mais numa postura “magistral”, porque ninguém pode realizar a obra da transmissão se não se colocar primeiramente à escuta.

Reencontrar o essencial da fé significa operar uma simplificação urgente do anúncio cristão, concentrar-se no essencial do Evangelho, dar o primado absoluto ao amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado. Trata-se de trabalhar para que aconteça o encontro com Jesus Cristo, o Cristo acreditado e testemunhado pelos Evangelhos e pelas suas testemunhas na história: não um Cristo projeção dos desejos e projetos humanos, mas aquele que é interpretação do Pai. A operação é laboriosa e requer cortar muitas imagens e expressões que impedem o homem e a mulher de hoje reconhecer o amor que vence a morte. Isto permitirá aceder àquela fé em Jesus Cristo que nos pode conduzir, na força do Espírito Santo que habita em cada ser humano, a reconhecer Deus e a fazer parte da comunidade, a Igreja corpo de Cristo.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Emrah_Avci/Bigstock.com
Publicado em 27.08.2018

 

 
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