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Morreu José Rodrigues, escultor de «um canto de louvor e um hino à fé e à beleza na Igreja e no mundo»

Imagem José Rodrigues | 2009 | © Nelson Garrido/Público

Morreu José Rodrigues, escultor de «um canto de louvor e um hino à fé e à beleza na Igreja e no mundo»

O escultor José Rodrigues, autor de várias obras sacras, como a "Pietà" da catedral de Bragança-Miranda, morreu este sábado, aos 79 anos, num hospital do Porto, onde estava internado há cerca de uma semana, anuncia o Jornal de Notícias.

«[José Rodrigues] dizia-me recentemente que a arte serve para nos aproximarmos de Deus; tenho-me lembrado dele e sobretudo das palavras de Simone Weil, quando diz que a beleza é a ratoeira com a qual mais frequentemente Deus captura as almas dos buscadores», afirmou o bispo de Bragança-Miranda ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, em agosto de 2012, por ocasião da apresentação da "Pietà".

«José Rodrigues é um buscador, está já com uma avançada idade, e este é um canto de louvor e um hino à fé e à beleza na Igreja e no mundo», sublinhava D. José Cordeiro sobre a imagem da mãe de Jesus com o filho morto nos braços.

O prelado explicou que «depois de algum tempo de relação com o mestre José Rodrigues nasceu a ideia de ele deixar uma marca na catedral de Bragança»: «Pensámos numa “Pietà” e ao longo dos últimos nove meses ele concebeu uma obra belíssima, em bronze».

«Foi a partir da relação, conhecimento mútuo e estima recíproca com José Rodrigues que nasceu a amizade, e nasceu também esta vontade de, em conjunto, seguirmos o caminho da busca da beleza enquanto itinerário de encontro com Deus», assinalou.

O prelado mostrou-se convencido de que a obra iria «sem dúvida marcar não apenas a catedral de Bragança mas também a arte contemporânea»: «Eu atrevo-me a dizer que será uma obra-prima do mestre José Rodrigues».

Na ocasião foi também inaugurado um conjunto de sete vitrais alusivos às sete últimas palavras de Cristo na cruz, igualmente da autoria do escultor, que enriqueceram a mais recente catedral portuguesa, dedicada em 2001.

«Tal como eu, [José Rodrigues] nasceu em Angola mas a sua família é de Alfândega da Fé, e daí nasceu a relação de diálogo entre a fé e a cultura, entre a fé e a razão», acrescentou D. José Cordeiro.

O artista também criou um desenho representativo do bispo enquanto «servidor da esperança», que doou à diocese transmontana, para que dele vendesse cópias, com o objetivo de ajudar a pagar os custos da "Pietà".

A escultura foi acompanhada de um poema inédito de José Tolentino Mendonça:

«Carregas a nossa humanidade até ao fundo do teu colo
As cidades íngremes por onde passamos, as sirenes empastadas de alarme, 
O peso do corpo anoitecido

Não há árvore do horto de Deus que ao alto mais pura se eleve
Mas é doloroso trabalho o do amor em que inteira brilhas
Ó Mãe indefesa como um fogo

Passas por nós devagar as mãos protetoras 
E o tempo desse amor transparente e íntimo 
torna brandas as tempestades em que nos consumámos

Chovemos no teu regaço a nudez dos nossos sonhos
tatuados a cinza trémula e a vazio
Mas degrau a degrau, cambaleantes subimos
Quando inclinas para nós o manto, espaço da visão aberta

Consola-nos o abraço do teu silêncio em flor
E a canção do teu sorriso nos reergue

O milagre se faz ver no fruto do teu ventre
Em ti começa a palavra prometida e plena
Por isso festejamos a roda do teu colo».

José Rodrigues foi o autor das obras integradas na exposição "Tocar as coisas da memória - Aproximação ao sagrado", exibida desde 2008 em várias cidades portuguesas.  

A mostra apresentava aos visitantes uma imagem da polifonia artística de José Rodrigues, desde pequenas peças, como “Pietàs”, até ao báculo de D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima.

A crucifixão, o calvário, presenças ao pé da cruz, várias cenas bíblicas, «imagens de S. Francisco contemplativas e densas como árvores da natureza que ele amou», como escrevia o jornal Voz Portucalense, imagens da anunciação e da Senhora do Ó, «concentradas e meditativas», faziam parte da exposição.

Acompanhava a mostra um catálogo, elaborado a partir de textos de autores como Nuno Higino, Arnaldo Pinho, João Ribeiro, Carlos Magno, José Luandino Vieira, Castro Guedes, entre outros.

«Para mim a questão religiosa passa muito pela relação que fui tendo e tenho com pessoas ligadas à religião», dizia José Rodrigues em entrevista a Nuno Higino, comissário da exposição.

Sobre os Cristos então patentes (o primeiro resultou de uma encomenda de D. Armindo Coelho, que foi bispo de Viana e do Porto, para o seminário de Viana), referia que recordavam realidades e sofrimentos humanos, e por isso muitos deles eram mutilados.

Em novembro de 2014 o centro regional da "Cidade Invicta" da Universidade Católica Portuguesa dedicou uma sessão a José Rodrigues, encerrando o ciclo "Porto culto do século XX".

Nascido em Luanda no ano de 1936, José Rodrigues estudou na Faculdade de Belas Artes, no Porto, cidade que acolhe o "seu" Cubo na Praça da Ribeira, local nobre e emblemático do centro histórico.

Desenhador e gravador, cofundou e presidiu à Cooperativa de Ensino Artístico Árvore, que, desde 1963, é considerada uma referência cultural da "Invicta", tendo também sido um dos iniciadores da Bienal Internacional de Cerveira, instituída em 1978.

Fez ilustração para livros de escritores e poetas, como Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Vasco Graça Moura e Albano Martins, produziu cerâmica e medalhística, executando centenas de medalhas, e realizou cenografias em Espanha e Portugal.

Desenhou o cenário da cerimónia de classificação do Porto como Património da Humanidade, em 1996.

Comprou e restaurou uma antiga chapelaria, localizada na Rua da Fábrica Social, em Santo Ildefonso, no Porto, espaço que usava como ateliê e que converteu na Fundação José Rodrigues, que remonta a fevereiro de 2009.

 

ImagemPietà | José Rodrigues | © Diocese de Bragança-Miranda

 

Rui Jorge Martins
Dados biográficos: Universidade do Porto
Publicado em 10.09.2016

 

 
Imagem José Rodrigues | 2009 | © Nelson Garrido/Público
«Tal como eu, [José Rodrigues] nasceu em Angola mas a sua família é de Alfândega da Fé, e daí nasceu a relação de diálogo entre a fé e a cultura, entre a fé e a razão»
José Rodrigues foi também o autor das obras integradas na exposição "Tocar as coisas da memória - Aproximação ao sagrado", exibida desde 2008 em várias cidades portuguesas
Em novembro de 2014 o centro regional da "Cidade Invicta" da Universidade Católica Portuguesa dedicou uma sessão a José Rodrigues, encerrando o ciclo "Porto culto do século XX"
Desenhador e gravador, cofundou e presidiu à Cooperativa de Ensino Artístico Árvore que, desde 1963, é uma referência cultural da "Invicta", tendo também sido um dos iniciadores da Bienal Internacional de Cerveira
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