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Misericórdia como forma da humanidade

Imagem O bom samaritano (det.) | John Mosiman | D.R.

Misericórdia como forma da humanidade

Motivadas mais por uma espiritualmente inexplicável dureza de coração do que pela leitura dos Santos Evangelhos, há pessoas que consideram que são mais as razões de divergência entre a espiritualidade e a filosofia e, anteriormente, o que há de mais espiritualmente grandioso na tradição helénica pré-filosófica e a tradição cristã. Não pensamos que assim seja. Uma das categorias em que há uma grande aproximação e mesmo convergência espiritual entre estas duas tradições é precisamente a tradição que se refere à misericórdia, o grande ato configurador do que é próprio da humanidade, por oposição à bestialidade, da pessoa, por oposição às bestas.

Este termo fundamental, humanamente fundamental, não apenas do ponto de vista ético e político, mas, radicalmente, do ponto de vista ontológico e, no seio da ontologia, antropológico, isto é, que diz respeito à ontologia própria da pessoa, do ser humano, bem como o ato a que se refere, têm larga ilustração na literatura helénica, âmbito em que desempenham um papel não apenas relevante, mas e fundamentalmente, matricial e estruturante, pois representam precisamente o ponto nodal de mudança cósmica e cosmológica do mundo ancestral, anteriormente submetido a uma lógica mecânica de ação-reação, sem possibilidade de inflexão arbitral humana oposta à necessidade do movimento inexorável de isso que a se chamava destino, para um novo mundo, em que o ser humano pode dizer não a tal mecanicidade, assim aniquilando o que era a base metafísica do velho e caduco mundo em que não era possível o ato de misericórdia.

A descoberta humana da misericórdia, tenha ela sido passível de registo historiográfico de modos vários ou não, é o momento em que a humanidade deixa de ser apenas mais uma forma bestial de animalidade, submetida às dinâmicas e cineses inexoráveis próprias da natureza em si mesma bruta – a que erradamente damos o equívoco título de «leis da natureza» –, para passar a ser a algo capaz de distanciação e consequente independência relativamente a tais condicionantes.

Há não apenas uma ambiguidade, mas uma equivocidade profunda no uso concomitante moderno e contemporâneo do termo «lei» quer para as regras que humanamente deveriam reger o comportamento das pessoas, individual ou coletivamente consideradas, quer para isso que são os princípios de regularidade do funcionamento da natureza universal restante. O seu uso antigo e medieval em concomitância justificava-se porque, com as habituais diferenças culturais, os dois âmbitos eram supostamente dependentes de uma qualquer forma de transcendência que os criava, produzia, governava. Este governo era feito universalmente através de leis que, tendo a mesma origem absoluta e funcionando genericamente do mesmo modo, poderiam assumir o mesmo estatuto.

Assim, para um cristão antigo ou medieval, tanto eram leis isso que governava o curso dos astros quanto os onze mandamentos relativos à vida humana: mesmo criador, mesmo governador, mesma absoluta autoridade. Ora, o panorama moderno e contemporâneo é diverso: as leis que governam os seres humanos reclamam-se como humanamente positivas, isto é, postas pelos seres humanos para os seres humanos. Os princípios cósmicos são absolutamente independentes dos seres humanos e, assim, não-positivos, no sentido aqui pertinente. Apenas no âmbito de algumas religiões que também detêm poder político e consequente poder jurídico, o velho sistema funciona. Mas a ciência ocidentalmente tipificada dos tempos modernos e contemporâneos não aceita tal formulação sincrética por a considerar irracional. Assim, o uso do termo «lei» é inapelavelmente equívoco.

Ainda que a independência humana relativamente às condicionantes que transcendem a pessoa não seja total, no que é, é um absoluto. A dependência é um absoluto: se se depende não há qualquer forma de independência possível. Assim os escravos. Mas, se se é independente, pode-se sempre exercer tal independência em seu absoluto, anulando qualquer relação com isso que ameaça tal dependência. Por exemplo, alguém que se recusa a ser escravo, pode, em última análise, auto-aniquilarse como forma de exercer a sua independência. Este será o momento em que o seu dono perderá a ilusão de ser o seu dono.

No absoluto de independência, reside, por exemplo, a possibilidade e realidade da resposta negativa de Cristo às tentações diabólicas, a não-aceitação da sua situação de condenação à escravatura por parte dos judeus e outros durante a época nazi, que não se submeteram e pagaram tal insubmissão com a vida, ou a ação do Ulisses que diz não à possibilidade da vida eterna junto da perfeita realidade feminina – Calypso – que não era o seu perfeito amor – Penélope. O mais é escravatura e é, tristemente, o grosso da história da humanidade.

A misericórdia transcende sempre toda e qualquer dinâmica ou cinese, isto é, todo e qualquer movimento de inexorabilidade consequencial ou causal. Se tal não ocorresse, não haveria misericórdia, mas outra coisa qualquer, perfeitamente integrada no movimento inercial da comum natureza. É a misericórdia e apenas a misericórdia que permite ao ser humano transcender tal movimento inercial transcendental a tudo, menos precisamente ao ser que humano se tornou quando, pela primeira vez, usou de misericórdia. Tal movimento é a possibilidade do mal em concretização. Esta afirmação tem consequências gravíssimas, pois o que põe como tese coincide com a verdadeira humanização.

Um potencial ser humano que não use de misericórdia nunca saberá se pode realmente ser diferente de um ser que tem de necessariamente obedecer aos três princípios físicos fundamentais conhecidos como «Leis de Newton». Um conjunto de bolas de bilhar posto a mover-se em condições teóricas perfeitas, seguirá sempre o caminho traçado pelo movimento inicial. A sua imensa combinatória possível não elimina a necessidade de que tal aconteça. (1)

Um potencial ser humano que assim funcione é indistinguível de uma tal bola de bilhar, por mais insuportável que tal seja de pensar. É exatamente a possibilidade de se subtrair a tal condição que faz do ser humano propriamente um ser humano. Sem esta capacidade e sem a sua atualização concreta, não há ser humano real, apenas potencial.

Podemos, assim, dizer que é esta possibilidade que metafisicamente funda a humanidade como forma e é a sua passagem a ato que funda a humanidade como realidade.

Como o ato de misericórdia é o ato que supremamente aniquila a dinâmica e a cinese inercial do movimento ético e político humano, pois, quando posto, imediatamente anula tal potencialidade e movimento, podemos (e devemos) dizer que a misericórdia é o ato fundador da humanidade.

Tal não só não é surpreendente, como, para um cristão, é evidente, pois toda a narrativa da incarnação e vida e morte e ressurreição de Cristo é padrão de obra de misericórdia: o homem por excelência prototípica para o cristão é o misericordioso Cristo, melhor, Cristo como a incarnação da misericórdia, Cristo como a misericórdia em ato.

Mas esta evidência, nesta tradição, é muito mais antiga e remonta ao momento cairótico mais recuado e de que tudo o mais depende em termos absolutos, o próprio momento da criação. Esta não pode ser entendida na sua plenitude dignamente divina se não for pensada como não apenas um ato de misericórdia de Deus, mas como o ato de misericórdia de Deus. A criação é o paradigma do ato de misericórdia, pois a criação é a outorga absoluta do ser, que é, ontologicamente, o bem possível e real a partir dessa mesma possibilidade, de tudo, absolutamente de tudo, o que é criado, submetido ao movimento.

É este ato que define, então, o que é a misericórdia em termos judaico-cristãos. Pensa-se que não tem paralelo, mas seria injusto para com o Platão da metafísica – ontológica, não ética – do Bem não se fazer notar que, ainda que de uma forma impessoal, há nesta sua intuição, uma remissão para um movimento híper-cósmico, fundador do cosmo, que é dado imageticamente na forma de uma esplendorosa irradiação outorgadora de ser e de luz, do absoluto do ser e do absoluto da inteligência que, para nós, dá o ser na forma interior do sentido, do que é o «logos».

Se não se pode falar de um Deus pessoal que dá ser a partir de si, pode-se falar de uma estrutura – de um ponto absoluto de irradiação, mais precisamente – cuja realidade consiste em dar ser. Mas, precisamente, no lugar lógico da sua obra em que um sentido profundamente misericordioso final surge, no «mito de Er», do «Livro X» da Politeia, fala-se literalmente de um «theos», de um deus que não tem responsabilidade culposa pelas escolhas que os homens fazem. Mas termina a obra afirmando que a humanidade chegará a bom porto.

Assim, dizer “ser humano” e dizer «esse que pratica a misericórdia» é o mesmo. É é-o formalmente, não na forma externa da aparência literária, mas na forma interior que ergue a essência das realidades e permite, no seio do movimento, a construção da sua substância própria.

O paralelo entre estas tradições, dada a essência do tema em estudo, tem de estar sempre presente como instrumento de compreensão do que está em causa na questão da misericórdia e seu tratamento ao longo da nossa cultura. Mas não estamos aqui a fazer historiografia, antes filosofia, que, no cerne da sua atividade, não se refere ao tempo, mas à essência do que no tempo transcorre. E as grandes intuições são sempre contemporâneas, precisamente porque se referem ao que ao tempo escapa, às grandes formas eternas que constituem o eixo estrutural da realidade, como sempre o ato espiritual de uma humanidade que pensava livremente intuiu.

Faz, assim todo o sentido que o Papa Francisco diga que Cristo é o rosto da misericórdia do Pai, (2) pois, Cristo, como o corolário de toda a ação misericordiosa, deve ser como tal recordado e manifestado como proposta de isso que unicamente pode levar a humanidade a bom porto, pois é isso que cria a humanidade em cada um de seus membros, nascidos potenciais seres humanos, mas condenados a um retrocesso à bestialidade se não forem capazes do exercício da misericórdia.

 

(1) O chamado acaso ou a possibilidade de estabelecimento de movimento caótico é uma deriva epistemológica do facto de se ter anulado o sentido de uma mente infinita em ato, Deus, que pudesse acompanhar todo o imenso pormenor do movimento. Mas, teoricamente, para uma mente infinita, a afirmação que avançámos é válida.

(2) Na citação exata: «Jesus é o rosto da misericórdia do Pai.», PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus: O rosto da misericórdia. Bula da proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Prior Velho, Paulinas Editora, 2015, p. 5.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 07.09.2016

 

 
Imagem O bom samaritano (det.) | John Mosiman | D.R.
A descoberta humana da misericórdia é o momento em que a humanidade deixa de ser apenas mais uma forma bestial de animalidade, submetida às dinâmicas e cineses inexoráveis próprias da natureza em si mesma bruta – a que erradamente damos o equívoco título de «leis da natureza» –, para passar a ser a algo capaz de distanciação e consequente independência relativamente a tais condicionantes
A misericórdia transcende sempre toda e qualquer dinâmica ou cinese, isto é, todo e qualquer movimento de inexorabilidade consequencial ou causal. Se tal não ocorresse, não haveria misericórdia, mas outra coisa qualquer, perfeitamente integrada no movimento inercial da comum natureza
Um potencial ser humano que assim funcione é indistinguível de uma tal bola de bilhar, por mais insuportável que tal seja de pensar. É exatamente a possibilidade de se subtrair a tal condição que faz do ser humano propriamente um ser humano. Sem esta capacidade e sem a sua atualização concreta, não há ser humano real, apenas potencial
A criação é o paradigma do ato de misericórdia, pois a criação é a outorga absoluta do ser, que é, ontologicamente, o bem possível e real a partir dessa mesma possibilidade, de tudo, absolutamente de tudo, o que é criado, submetido ao movimento
Dizer “ser humano” e dizer «esse que pratica a misericórdia» é o mesmo. É é-o formalmente, não na forma externa da aparência literária, mas na forma interior que ergue a essência das realidades e permite, no seio do movimento, a construção da sua substância própria
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