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Migratórios

Imagem Miles Lau | 2012 | | D.R.

Migratórios

Todos os anos, com a descida das temperaturas, milhares de aves atravessam livremente as fronteiras dos países do norte à procura das condições climatéricas favoráveis à sobrevivência e à procriação. É um espetáculo simplesmente extraordinário. Um mistério que ainda hoje fascina os cientistas incapazes de encontrar as respostas para tão maravilhoso fenómeno. Uma odisseia que inspirou escritores como a nobel sueca, Selma Lagerlöf, na tão encantadora história «A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia».

As aves que todos os anos riscam os céus superando todas as adversidades são herdeiras de uma sabedoria antiga, um conhecimento interno que lhes permite ir mais longe. Vêm nas modulações da natureza, nos rios e nos montes, nos lagos e nos bosques, sinais indicadores de um destino que desejam alcançar. Intuem os campos magnéticos, apercebem-se dos pontos cardeais e avançam determinadas até chegar à «terra prometida», percorrendo centenas de quilómetros, durante dias a fio, enfrentando tempestades, o frio e a fome, sujeitas aos ataques de outras espécies. Mantêm-se em grupo porque sem a orientação e o suporte das mais velhas a morte é uma certeza.

Com toda a razão Jesus convidou os seus discípulos a contemplar as aves do céu - «nem semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?» (Mt 6,26). A natureza fala de Deus e oferece-nos as pistas para nos mantermos em pleno voo durante muito tempo.

As inquietações mais profundas, gravadas no nosso coração, fazem do homem um ser migratório. O homem tem ânsia de novas terras, de lugares sagrados, de territórios por descobrir, ambientes onde possa realizar o sonho antigo de um mundo melhor. E Deus deu-nos a bússola, dotou-nos de inteligência para ir mais longe. Está ao nosso alcance voar livremente, superando todas as tempestades até encontrar a terra prometida.

Neste longo percurso, é fácil perder-se por alguma vereda escura ou confundir um sinal com a meta. É fácil deter-se num recanto ou entreter-se em algum lugar mais abrigado. Ceder à tentação de desdenhar das orientações das gerações mais velhas para seguir, sem o suporte do grupo, o seu caminho. Viver perto do abismo orgulhosamente só.

É por isso que os textos sagrados, como os deste tempo, retomam continuamente o tema da conversão. Não há nada tão persistente como este apelo. São muitas as variações, mas a tónica é a mesma: convertei-vos! Isto é, retomai o caminho certo. É Deus que nos repete de muitas formas o mesmo convite. Porque, no fundo, Ele espera por nós, acredita que, um dia, O encontraremos nessa tão desejada terra, esse lugar sagrado, onde Ele habita.

 

Nélio Pita, CM
Publicado em 18.02.2015

 

 
Imagem Miles Lau | 2012 | D.R.
As inquietações mais profundas, gravadas no nosso coração, fazem do homem um ser migratório. O homem tem ânsia de novas terras, de lugares sagrados, de territórios por descobrir, ambientes onde possa realizar o sonho antigo de um mundo melhor. E Deus deu-nos a bússola
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