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Quaresma e música: Meu Deus, atendei a minha oração

Os salmos são, antes de tudo, poemas espirituais. É a este título que inspiraram e continuam a inspirar os compositores. Este tempo de Quaresma convida-nos a escutar estes poemas como os músicos os percecionaram. A música torna-se mais do que um simples adereço ou até que um revelador de sentido; ela é capaz de se tornar oração se nós reservarmos tempo para a escutar em profundidade.

Foi em 1938/39 que o francês Francis Poulenc (1899-1963) compôs os seus “Quatre motets pour un temps de pénitence” (Quatro motetos para um tempo de penitência). O primeiro, “Timor et tremor” (Temor e tremor), foi escrito sobre uma montagem de textos recolhidos dos salmos 54 e 30.

Poulenc reutilizou, provavelmente, uma montagem de versículos salmódicos que Roland de Lassus (1530-1594) já tinha colocado em música para seis vozes. A confiança em Deus, refúgio do salmista, canta-se quase como que numa dança sobre as palavras «non confundar» (não serei confundido).










Neste texto lemos, por um lado, a angústia existencial que marcou Poulenc e, por outro, uma esperança por vezes frágil mas sempre presente no coração do compositor. A simplicidade da sua música toca-nos porque o texto é verdadeiramente vivido no sentido mais concreto.

O crítico musical Paule Collaer não se enganou quando escreveu ao músico: «O seu pensamento amplificou-se. Amadureceu, generalizou-se. Aqui está você na verdade: a sua e a de todo o mundo».

É o despojamento que se encontra na obra de Vittoria (1540-1611), «o S. João da Cruz da música», que Poulenc recolheu para escrever este primeiro moteto. A música segue o texto simplesmente, passo a passo, sem artifício inútil, deixando vibrar os acordes ao serviço da sua oração, oscilando entre angústia e confiança, entre tonalidades menores sombrias e maiores luminosas.

Os contrastes dinâmicos, melódicos (saltos para os agudos ou mergulhados nos graves), harmónicos (transparência das consonâncias ou penumbra das dissonâncias, sobretudo na segunda parte), lembram-nos que a oração não é apenas uma questão de palavras, mas também de sentimentos, de paixões, numa palavra, de canto. A tensão entre o sofrimento dos dias e o repouso na fé é de todos os tempos e de todos os seres, a começar por nós próprios, não é verdade?

Que o caminho que nos propõe Francis Poulenc neste moteto da penumbra à luz oriente este tempo que se abre.

«Timor et tremor venerunt super me ; et caligo cecidit super me ; miserere mei Domine, miserere, quoniam in te confidit anima mea» (O temor e o tremor sobrevêm sobre mim; invadiram-me as trevas; tende piedade de mim, Senhor, tende piedade de mim, confio-te a minha alma).

«Exaudi Deus deprecationem meam quia refugium meum es tu et adjutor fortis Domine invocavi te non confundar» (Meu Deus, atendei a minha oração, porque Tu és o meu refúgio e o meu auxílio todo-poderoso. Senhor, invoquei-te, não serei confundido).









 

Emmanuel Bellanger
In Narthex
Trad.: SNPC
Publicado em 18.02.2018 | Atualizado em 06.03.2018

 

 
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