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Mensagem para o Dia Mundial da Paz: Que fazer, ignorar ou assumir?

Mensagem para o Dia Mundial da Paz: Que fazer, ignorar ou assumir?

Imagem vverve/Bigstock.com

O Vaticano publica anualmente um conjunto de comunicados em nome do papa. Alguns dizem respeito ao governo da Igreja, alguns são clarificações doutrinais e outros relacionam-se com a disciplina eclesial.

Neste vendaval de documentos incluem-se mensagens públicas sobre temas que se repetem a cada ano, como os Dias Mundiais das Vocações, dos Doentes, das Comunicações Sociais e da Paz, entre outros.

Honestamente, a minha atitude no passado em relação a estas declarações era distraída, no melhor dos casos, ou indiferente, no pior. Há sempre coisas mais interessantes ou necessárias para ler e investigar, e considerava a maior partes desses documentos como falatório pontifício que na maior parte dos casos retomava pronunciamentos anteriores ou observações culturais.

Um dia, no entanto, encontrei-me na Nigéria durante a passagem do ano, numa região onde tinham ocorrido graves atos de violência, e um dos arcebispos locais mantinha um diferendo com um governador que abusava do seu poder.

Na missa do primeiro dia do ano, na sua catedral, esse arcebispo usou a mensagem do papa do Dia Mundial da Paz para uma poderosa homilia sobre o papel da autoridade e a importância do bem comum.



Somos chamados a perceber que lá por determinados documentos poderem não ecoar no meu coração ou não serem relevantes no meu país, não significa que a mensagem não seja necessária noutras partes do globo



A mensagem papal, algo ignorada por mim, deu à homilia do prelado uma voz objetiva e universal, conferindo-lhe simultaneamente uma vida inesperada e altamente relevante. E eu fiquei humilhado.

Ao ler anteriormente o texto (habitualmente publicado alguns meses antes da data) não tinha visto nada de relevante sobre o qual poderia escrever. No entanto eu vivo num país com relativa lei e ordem, e a mensagem não era tão necessária aqui como noutras partes do mundo.

Acontece que nós vivemos numa Igreja universal e por vezes as coisas não são sempre sobre nós. Por vezes temos de prestar atenção e deixar que os anúncios e mensagens da Igreja falem por elas. Somos simplesmente chamados a perceber que lá por determinados documentos poderem não ecoar no meu coração ou não serem relevantes no meu país, não significa que a mensagem não seja necessária noutras partes do globo.

E por isso não é tão maravilhoso pertencer a uma tal família mundial e compreender como é extensa a influência da Igreja em favor do bem e da paz nas múltiplas culturas, povos e nações do mundo?

Esta maneira de ver pode compelir-nos a ir além da leitura inicial dos documentos e perguntar: onde é que esta mensagem é hoje mais necessária no mundo? Quem é que está em sofrimento e precisa deste encorajamento ou inspiração? Que bem pode esta mensagem concretizar e onde?



A mensagem do papa deste ano não requer muito trabalho. É um ensinamento claro sobre as migrações. Mais do que deter-se nos sofrimentos económicos do terceiro mundo, Francisco fala às nações mais prósperas



Podemos também permitir que as mensagens anuais da Igreja nos conduzam para fora das nossas zonas de conforto e coloquem perguntas prementes sobre nós e sobre a nossa sociedade: será que a lei e a ordem no meu país são igualmente aplicados a todos? Haverá alguma periferia mesmo ao meu lado que eu não tenha reconhecido?

Neste sentido, os documentos da Igreja merecem uma releitura e respeito entre aqueles que os pregam, ensinam, resumem ou comunicam. A sua possível aplicação é imensa e muito necessária.

Com esta perspetiva em mente, olhemos para a mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2018, que se assinala a 1 de janeiro. Os textos do passado centraram-se na guerra, violência, pobreza e num conjunto de outras doenças sociais. A aplicação de algumas dessas mensagens pode ter requerido algum do árduo trabalho acima descrito.

A mensagem do papa deste ano, contudo, não requer muito trabalho. É um ensinamento claro sobre as migrações. Mais do que deter-se nos sofrimentos económicos do terceiro mundo, Francisco fala às nações mais prósperas, apelando a maior compaixão e inclusão.

O papa sugere «quatro pedras miliares para a ação», apresentando palavras sonantes para a comunidade mundial: acolher, proteger, promover e integrar. Para evitar qualquer confusão ou ambiguidade, define e explica cada palavra.

Francisco deseja que os líderes nacionais e a população compreendam os verdadeiros sofrimentos dos outros e prestem atenção para o acolhimento generoso e a pronta proteção aos migrantes, apelando a uma integração mais ampla de outros povos.

Perante esta mensagem, mantêm-se as questões de sempre: o que vamos fazer sobre ela? Vamos lê-la em diagonal e deixá-lo de lado, ou vamos assumi-la e ver como é que nos pode ajudar a fazer do mundo um lugar mais pacífico para viver? O Dia Mundial da Paz é-nos dado. É uma mensagem para o novo ano. Pode ser uma mensagem para um mundo melhor.




 

P. Jeffrey F. Kirby
In Crux
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 02.01.2018

 

 

 
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