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«Primeiro dia de primavera:/ que distante me parece/ o inverno»: Meditações para o Advento (4)

Imagem D.R.

«Primeiro dia de primavera:/ que distante me parece/ o inverno»: Meditações para o Advento (4)

A noite escuta com a mesma indiferença/ a toada solitária do monge/ e a canção rouca das prostitutas

É importante sentirmos que a nossa voz é apenas uma voz humana. A nossa voz quando rezamos, vivemos e respiramos, quando cremos, é apenas uma voz humana, e que se junta a todas as outras.

Muitas vezes queremos que o crer seja uma espécie de pódio: «Eu sou cristão», «eu rezo» - afirmações que nos logo dão um estatuto e correspondem a determinada recompensa.

Por vezes andamos à procura de condecorações, em vez de andarmos à procura de Deus; ou andamos à procura de consolações em vez de nos abrirmos ao seu mistério.

«A noite escuta com a mesma indiferença»: sentirmos que somos apenas mais um perante a grande noite do mundo.

 

O monge duvida/ a ponto de alhear-se/ das peónias floridas

O papel da dúvida é também uma forma de pobreza. A dúvida de que não gostamos, a dúvida que nos corrói, que nos maça, que gostaríamos de resolver com um estalido de dedos.

A dúvida que nos torna alheios às coisas boas da vida. Duvidamos do copo meio vazio e esquecemo-nos do copo meio cheio; duvidamos da ausência e esquecemo-nos aquilo que está presente.

Muita vezes o problema da dúvida é esquecermos que o jardim está florido, esquecermo-nos daquilo que ao nosso lado, fora e dentro de nós, nos testemunha o amor.

Essa é uma redescoberta que precisamos de fazer, e que implica, certamente, uma grande atitude de pobreza espiritual.

 

Deus apaga/ o nosso rasto/ como se apagasse uma vela

Temos uma ideia de eternidade muito distorcida. Para nós ela é uma forma de monumentalidade, isto é, criar um monumento da nossa vida e da nossa memória.

A eternidade não é isso. Senão, uma folha de erva não era eterna, e é. Senão um olhar nosso não era eterno, uma palavra nossa não era eterna, e é.

Deus apaga o nosso rasto como se apagasse uma vela: aceitar o silêncio, aceitar o apagamento, aceitar a morte, aceitar que partimos, aceitar a abertura das mãos, aceitar a perda, aceitar o luto, aceitar que as forças diminuem, aceitar que a luz termina. Aceitar. Aceitar.

No ato de apagar há mais do que um apagamento: é Deus que apaga; então, no apagamento eu também me relaciono com Ele, e posso descobrir, pela primeira vez, de forma mais definitiva, o seu próprio rosto.

 

No mosteiro/ partilham a mesma cor/ os crisântemos e a sala de meditação

Um sinal de que a vida interior está desordenada é quando nada tem a ver com nada. Tudo é desigual, tudo é um fragmento, tudo é uma espécie de esquizofrenia cultural e interior que vivemos.

Somos isto mas também aquilo completamente diferente, de fora somos uma coisa e dentro somos outra, pintamos de uma cor num dia e no outro escolhemos outra distinta.

«No mosteiro partilham a mesma cor os crisântemos e a sala de meditação»: há uma unidade. E essa unificação interior só nasce profundamente da escuta.

Precisamos de escutar. Precisamos de colocar o ouvido junto ao corpo da própria realidade para encontrar os fins que a aproximam, e não aquilo que separa.

 

Primeiro dia de primavera:/ que distante me parece/ o inverno

Os invernos são muitas vezes o retrato da nossa vida. Como Tchekhov dizia: a vida de um homem é um inverno gelado.

Muitas vezes os invernos prolongam-se e não têm fim. E depois, de um dia para o outro, as coisas mudam. O drama das nossas vidas é pensarmos: «Isto vai ser sempre assim, nunca mais vai acabar, a partir de agora perco toda a esperança».

«Primeiro dia de primavera: que distante me parece o inverno»: como ficou muito para trás. Por vezes, quando chega a luz, justifica tudo aquilo por que passamos, porque nela recebemos a pura graça de Deus.

 

Hospedo-me hoje nesta cabana/ amanhei serei hóspede/ da lua

Hoje vivemos aqui, amanhã vamos vier tão mais além. E saber isso hoje faz a diferença no que vivemos.

Provavelmente não nos agastaremos tanto, não perderemos tanto a esperança e as forças; provavelmente abriremos desde já o coração àquilo que virá; provavelmente valorizaremos tanto o que teremos como o que temos ou tivemos.

 

O verão/ ensina a mesma prece/ à papoila e ao monge

Muitas vezes pensamos que o nosso caminho é único, exclusivo, e isso torna-nos muito incapazes de olhar.

Há um apelo feito à papoila fragilíssima para ser, para florir, para ser vermelha sempre, para estar acesa, para ser todas as cores, para resistir ao vento, para orar. Como é que uma papoila reza? Reza sempre, reza sendo.

Nenhum monge, nenhuma monja, nenhum crente, nenhuma crente reza de outra maneira senão sendo, senão sendo, senão sendo.

 

José Tolentino Mendonça
Monjas Dominicanas do Mosteiro de Santa Maria, Lumiar, Lisboa, 9.11.2013
Publicado em 22.12.2014

 

 
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Deus apaga o nosso rasto como se apagasse uma vela: aceitar o silêncio, aceitar o apagamento, aceitar a morte, aceitar que partimos, aceitar a abertura das mãos, aceitar a perda, aceitar o luto, aceitar que as forças diminuem, aceitar que a luz termina. Aceitar. Aceitar
Muitas vezes os invernos prolongam-se e não têm fim. E depois, de um dia para o outro, as coisas mudam. O drama das nossas vidas é pensarmos: «Isto vai ser sempre assim, nunca mais vai acabar, a partir de agora perco toda a esperança»
Há um apelo feito à papoila fragilíssima para ser, para florir, para ser vermelha sempre, para estar acesa, para ser todas as cores, para resistir ao vento, para orar. Como é que uma papoila reza? Reza sempre, reza sendo
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