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Marx não é «pai da Igreja» mas o seu pensamento foi sempre motivo de análise para os católicos

O seu nome é Marx, já lidou muito com ensinamento social e escreveu um livro intitulado "Das Kapital", "O capital". Além disso, o cardeal Reinhard Marx foi bispo de Trier, a cidade de Karl Marx (1818-1883), de quem se assinalam este sábado, 5 de maio, os 200 anos de nascimento. A entrevista.

 

Porque é que um arcebispo lida com Karl Marx, que foi um dos mais incisivos críticos da Igreja e dos «padres»?

A doutrina social católica trabalhou muito em Marx, daí as palavras de Oswald von Nell-Breuning [padre católico e teólogo alemão, 1890-1991]: «Estamos todos aos ombros de Karl Marx». Isto não que dizer que ele é um "pai da Igreja". Mas a sua posição foi sempre um motivo de discussão para o ensinamento social católico. Na maior parte dos casos como crítica de rejeição, mas também na questão: o que é que ele quer dizer, o que é que motiva este homem? Estará certa a sua análise do capitalismo?

 

É possível separar o pensamento sobre as suas teorias dos crimes cometidos em seu nome?

Não devemos simplesmente absolvê-lo do que surgiu como consequência. Mas ele não tem de ser responsável por tudo aquilo que foi seguido na esteira da sua teoria, como o marxismo, até aos "gulags" do estalinismo. Talvez após o fim do socialismo real na Europa seja possível uma visão mais imparcial da sua filosofia. Ele é um pensador que contribuiu para moldar a nossa era, mesmo negativamente.

 

Que teses de Marx são ainda hoje relevantes?

Ele é um analista astuto do capitalismo e reconheceu corretamente que se os interesses da capitalização global são o elemento que determina totalmente o desenvolvimento, o capitalismo entrará numa aporia insolúvel.
Por palavras minhas, se alguém combina o imperativo tecnológico - «o que alguém pode tecnicamente fazer, deve fazê-lo» - com o imperativo económico - «o que traz lucros não deve ser evitado» -, combinado com uma moral do mal menor, isso leva ao abismo.
Algumas das coisas que ele nomeou, só hoje podemos ver na sua total amplitude. Os impactos sociais, políticos e ambientais do capitalismo global e descontrolado estão a começar a ser compreendidos. E a doutrina social católica nunca negou a análise marxista do capitalismo e as ameaças que dela emergem. Só ela se baseou na domesticação e correção do capitalismo.
Karl Marx trouxe problemas ao pensamento que não estão resolvidos. Isto também se aplica ao carácter fetichista dos bens e da alienação.

 

Porque é que o ensinamento social católico é menos conhecido do que a doutrina de Karl Marx ou a do seu antípoda liberal Adam Smith?

Ouso duvidar que Karl Marx e Adam Smith sejam realmente conhecidos e lidos. Marx não construiu um sistema de teoremas durante a sua vida. Isso aconteceu depois, foi quase uma religião de Estado que se fez dele. E, claro, isso aumentou grandemente a sua efetivação.
Em comparação, a doutrina social católica não é tão atrativa e clamorosa. A influência do ensinamento social católico e o movimento social no séc. XIX foi amplo e intenso. Os historiadores ignoram muitas vezes o movimento operário socialista, mas entre as primeiras associações de trabalhadores estavam associações católicas, inspiradas pelo bispo [Wilhelm] von Ketteler [1811-1877]; isto é muitas esquecido. Até ao fim do séc. XX esta doutrina teve uma considerável influência no desenvolvimento do Estado social.

 

Em maio de 2018 são recordados não só os 200 anos de Marx mas também a revolta estudantil de há 50 anos. Para os seus atores, os ensinamentos de Marx foram quase como uma Bíblia. Como é que isso aconteceu.

Por vezes também me faço a mesma pergunta. Mas quando se começa a ler os seus escritos, estes podem rapidamente fascinar o leitor. Ele também foi um jornalista, podia fazer formulações incisivas.
O Manifesto Comunista tem um ímpeto que ainda se faz notar uns bons 100 anos depois, entre aqueles que em 1968 perguntaram: quem governa este país? Onde está o sujeito revolucionário? Como pode a grande revolução acontecer?
O capital prevalece - essa foi a opinião, ou seja: Marx, que era contra isso, dá-nos respostas para o presente. Isso foi, obviamente, muito curto. Mas houve uma inspiração, o ímpeto revolucionário nos escritos de Marx: reinventar tudo inspira pessoas que estão radicalmente insatisfeitas com as circunstâncias. Apenas se tem de ler Marx livremente, e então o seu poder surpreende.

 

Karl Marx não encontrou apenas seguidores na revolta estudantil. O seu efeito chegou à Igreja, por exemplo na teologia da libertação.

Marx só está preocupado com a espécie humana. Ele mal olha para o indivíduo. Para nós, cristãos, a pessoa é central. Apesar de, historicamente, nem sempre termos seguido isto, sabemos que não podemos visar um objetivo à custa das pessoas, como o marxismo pretende, mas que o ser humano é sempre o centro da atenção, ou seja, cada pessoa.

 

O papa Francisco circunscreveu uma vez a relação entre cristãos e marxistas: «Eles roubaram a nossa bandeira!».

Eu tento compreender o que ele quer dizer. Na Alemanha, a frase não é totalmente verdadeira, também houve o movimento operário católico. Mas por outro lado, se olharmos para a Igreja do séc. XIX, que não era a maioria, o bispo von Ketteler era mais um "outsider" no espiscopado. Foi diferente na América Latina. Em todo o caso, nunca deveríamos ter permitido que a bandeira da justiça para os trabalhadores e a solidariedade com aqueles que são estrangulados pelo capitalismo desenfreado fosse arrebatada.



 

Ludwig Ring-Eifel
In RP Online
Trad.: SNPC
Imagem: Karl Marx | D.R.
Publicado em 05.05.2018

 

 
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