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Arquitetura: Mario Botta e o sagrado

Para além da competência profissional do arquiteto, quando visitamos uma igreja nova damo-nos logo conta se foi projetada por um crente ou por um não crente, porque se perceciona um sentido diferente na composição do espaço em que se reconhece a sacralidade.

Para os não crentes, com efeito, os lugares de culto são muitas vezes interpretados como memórias de tradições que estão a desaparecer, ou como espaços onde se prestam serviços, à semelhança de outros componentes da cidade.

Para o suíço Mario Botta (n. 1943), pelo contrário, o espaço sagrado mantém toda a sua rica complexidade vital e simbólica, como demonstra a belíssima exposição "Espaço sagrado. Arquiteturas 1966-2018), patente até 12 de agosto na cidade de Locarno.

O arquiteto apresenta o seu ponto de vista com simplicidade no ensaio introdutório do catálogo: «A arquitetura sacra pode (aliás, deve...) sublinhar uma condição de expetativa, de transcendência, onde passado e presente convergem para memórias ancestrais».



Botta mergulha no passado das tradições que continuam a ser capazes de falar da «necessidade de imensidão», porque «o sagrado é uma necessidade fundamental para o ser humano»



«No espaço dos lugares de culto a realidade do interior modela uma nova imagem, uma condição "finita" para a atividade do silêncio, da contemplação, da transcendência e de mistério. É com a definição de um espaço arquitetónico finito que ao utilizador é dado viver uma condição de infinito.»

A primeira coisa que impressiona na exposição é a grande riqueza criativa de Botta. Trata-se, efetivamente, de edifícios muito diferentes uns dos outros, mas que têm em comum aquilo que o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, aponta na introdução do catálogo como os alicerces do templo, aqueles que o definem como espaço sagrado: o facto de representar um centro cósmico, que incarna o coração, o sentido de ordem em que se encontra imerso, e o ser sinal de luz e de beleza, epifania da harmonia cósmica.

As obras foram realizadas a partir de quando Mario Botta, ainda estudante, projetou a pequena capela dos frades capuchinhos em Bigorio, até projetos recentes, como a capela de S. Francisco em Lugano-Sorengo, recentemente concluída, e a grande mesquita em construção em Yinchuan, no norte da China, onde reside uma numerosa comunidade muçulmana.

Os 22 projetos em exposição incluem também a sinagoga e o centro de estudos para a identidade judaica em Telavive, numa espécie de coerência de pensamento e inspiração que faz viver concretamente o diálogo inter-religioso. Alternam-se espaços muito diversos e cores diferentes: do vermelho dos tijolos ao cinzento luminoso da pedra, passando pelo intenso azul da capela de Lugano-Sorengo.



«A igreja parece nascer dessa célula de luz, que não é uma simples grande janela para aligeirar as paredes ou para fazer luz no interior. É, antes, uma verdadeira e própria revelação, uma epifania, precisamente, daquele Deus que João, na sua Primeira Carte define lapidarmente assim: "Deus é luz".»



A sensibilidade para a sacralidade do espaço constitui a característica principal que congrega estas construções. Botta mergulha no passado das tradições que continuam a ser capazes de falar da «necessidade de imensidão», porque «o sagrado é uma necessidade fundamental para o ser humano».

Por outro lado, o arquiteto está consciente de que a igreja não é apenas lugar de oração, mas é também «praça (...), local de encontro dos vivos e dos mortos».

É particularmente intenso o comentário de Ravasi à igreja de Sartirana, região à qual está ligado por memórias familiares e na qual celebrou muitas vezes a liturgia: «Neste templo descobre-se a epifania da luz. Pode quase dizer-se que, uma vez lá dentro, se intui de imediato que a pedra angular que rege todo o edifício é o vitral central».

«A igreja parece nascer dessa célula de luz, que não é uma simples grande janela para aligeirar as paredes ou para fazer luz no interior. É, antes, uma verdadeira e própria revelação, uma epifania, precisamente, daquele Deus que João, na sua Primeira Carte define lapidarmente assim: "Deus é luz".»



«A metáfora encerra numa forma os fragmentos do passado, as coisas do presente e aquelas verdades que ainda não vimos e que nos esperam no futuro!»



Na catedral da Ressurreição de Evry, o renascimento é representado por árvores que se sucedem ao longo do perfil superior, entretecendo-se com a pedra, que representa a eternidade.

Dado que muitas destas igrejas fazem parte de belíssima paisagens, a natureza constitui sempre uma parte fundamental da visão integral e sagrada do lugar. Com efeito, nestes edifícios sagrados nunca se colhe uma cesura entre espaço interno e espaço externo porque as suas superfícies externas inserem-se perfeitamente na paisagem.

Isso acontece na capela Granato, na Áustria, um audaz dodecaedro construído com a pedra-pomes que se recolhe nos montes, e que parece incarnar a imagem da Igreja poliédrica cara a Bergoglio: «Deus está no segredo da geometria que governa as leis do universo», escreve Fulvio Irace.

A escolha dos materiais é apurada e repleta de significado simbólico: a sinagoga e o auditório construídos em Telavive são revestidos no exterior por pedra vermelha de Verona, a mesma com que foi construída a fachada de S. Zeno, obra-prima românica, o que contribui para criar aquela que Mario Pisani, no seu comentário, denomina de arquitetura metafórica, porque «a metáfora encerra numa forma os fragmentos do passado, as coisas do presente e aquelas verdades que ainda não vimos e que nos esperam no futuro!».

Também a mesquita em construção em Yinchuan, que recupera, inovando, a arte do arabesco, é uma obra conseguida. Botta funda-se, igualmente neste projeto, «na essência imutável do ser humano, sobre o seu modo inato de colocar-se no espaço, entre exigência de oração e necessidades concretas ligadas à existência quotidiana».






 

Lucetta Scaraffia
In L'Osservatore Romano
Trad./edição: SNPC
Publicado em 18.04.2018

 

 

 
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