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Música: Manuel Cardoso e a "Missa secundi toni"

Um autor genuinamente barroco que utiliza técnicas de composição renascentistas: é este o paradoxo que parece emergir do disco dedicado a obras sacras de Manuel Cardoso (1566-1650), um dos mais importantes expoentes da ilustre escola portuguesa que floresceu entre os séculos XVI e XVII.

Frade carmelita e mestre de capela da catedral de Évora, a sua arte foi apreciada por grandes reis, como João IV de Portugal e Filipe IV de Espanha, tendo dado à estampa três Livros de Missa a quatro-seis vozes, um sobre o "Magnificat" e outro de motetos.

Foi destas fontes a que o maestro Gareth Wilson recorreu para conceber o programa do disco centrado na primeira gravação absoluta da "Missa secundi toni", assim denominada por ser baseado no segundo dos oito "modos" que a polifonia ocidental herdou do canto gregoriano.

Grande parte da música presente neste disco foi nele gravada pela primeira vez, particularmente a "Missa secondi toni" e dois "Magnificats", além de duas peças de órgão portuguesas anónimas, interpretadas por Lucy Morrell.

A missa exibe todas as características familiares de outras obras do excelente compositor, enquanto que as peças de Brito, Magalhães e Morago confirmam o elevado padrão da música portuguesa no período entre o Renascimento e o início do Barroco.



Trata-se de uma mescla muito sugestiva, que se impõe convincentemente desde os compassos iniciais do "Kyrie" e secunda a fluidez harmónica, mesmo quando a escrita contrapontista se torna mais densa e ritmicamente complexa (como na secção final do "Credo")



O coro, na maioria das vezes, está à altura do desafio, embora o som vocal seja talvez um pouco contido, além de que um pouco mais de articulação das palavras teria sido bem-vinda.

A marca estilística e sonora do projeto reside no eficaz jogo de contrastes entre os timbres escuros e abafados dos metais do Historic Brass da Royal Academy of Music, e os brilhantes das jovens vozes do Girton College Choir, por vezes talvez demasiado "ligeiras" ao suportar sozinhas o confronto com o "consort" de metais.

Trata-se, no entanto, de uma mescla muito sugestiva, que se impõe convincentemente desde os compassos iniciais do "Kyrie" e secunda a fluidez harmónica, mesmo quando a escrita contrapontista se torna mais densa e ritmicamente complexa (como na secção final do "Credo").

Ao tocar por conta própria em três peças, os instrumentistas mostram verdadeiro talento para a polifonia de estilo antigo, particularmente na "Commissa mea pavesco", de Morago, em que uma interpretação muito expressiva destaca as subtilezas das suspensões e de outros dispositivos contrapontistas.

Os dois "Magnificat" são particularmente eficazes: bem orquestrados entre vozes e instrumentos, e os versos fluem com ritmo constante entre canto e polifonia.

A linguagem de Manuel Cardoso reflete as mudanças introduzidas pelo novo estilo que se afirmava naquela época, misturando antigos e novos idiomas, pelo que não será um acaso que o termo "barroco" se refira, entre outros significados, a uma pérola de forma irregular.

As notas do caderno que acompanha o disco são excelentes, e o conjunto resulta numa apresentação muito bem sucedida de algumas belas músicas.







 

Andrea Milanesi/Avvenire, Noel O’Regan/Early Music Review
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 18.05.2018

 

 

 
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