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Manoel de Oliveira, José Régio, Teolinda Gersão e António Guterres na "Brotéria"

Manoel de Oliveira, José Régio, Teolinda Gersão e António Guterres na "Brotéria"

Imagem Manoel de Oliveira | D.R.

"Escolher a solidariedade", recuperação de um texto publicado em 1995 por António Guterres, atual secretário-geral da ONU, com a colaboração de Guilherme d'Oliveira Martins, é um dos artigos que integra a mais recente edição da revista "Brotéria - Cristianismo e cultura".

«As pessoas estão primeiro! Hoje a compreensão da singularidade e a reemergência do social com forte componente de autonomia e de responsabilidade, levam a que esta afirmação se torne essencial. Apesar de todas as resistências e de todos os fatores que favorecem as disparidades, torna-se prioritário apostar numa revolução copernicana na vida política e nas práticas de governação, que coloque as pessoas no centro da sociedade e da economia», escrevia o então alto-comissário das Nações Unidas para os refugiados.

Para Guterres, que deu ao texto o título "Escolher a solidariedade", tratava-se de «compreender e de assumir algo que na cultura ocidental não tem sido devidamente valorizado, na prática, e que o Concílio Vaticano II resume de modo lapidar: "a pessoa humana que, da sua natureza, tem necessidade absoluta de vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais"».

Por isso, prosseguia o antigo primeiro-ministro de Portugal, «a política, a economia, a sociedade e a cultura têm de retirar consequências desse princípio - aplicando-o à cidadania e à defesa intransigente dos direitos e liberdades fundamentais. À lógica do poder pelo poder há que contrapor, assim, a ideia de "serviço público"; baseada na responsabilidade e na participação».



Na história do Cinema, e tendo por base apenas as exibições no Ocidente, ultrapassam «largamente as duas centenas» as obras que, desde os primórdios do cinematógrafo até agora, têm presente, «de forma consistente ou mais superficial, o tema da religião», número que estará aquém do total



«A legitimidade democrática apenas poderá ser reforçada com melhores condições para o exercício da cidadania, com melhor representação, com mais participação, com mais responsabilidade pessoal e mais equidade. Numa palavra: como pessoas livres, todos somos chamados a escolher a solidariedade», concluía.

"A abordagem do religioso em Manoel de Oliveira - 'Ato da primavera' e 'Benilde ou a Virgem Mãe'" é o tema da análise de Carlos Capucho, que desde a transição do regime político português para a democracia, a 25 de abril de 1974, até ao final do século, 25 anos, contabilizou «a distribuição de 52 filmes onde, de alguma forma, se apresentam aspetos relacionados com a temática religiosa».

«Se olharmos, dentro do mesmo campo, para o número de filmes exibidos entre nós nos primeiros quinze anos do século XXI; damo-nos conta de que estamos aproximadamente dentro dos mesmos valores, já que são 33 os títulos distribuídos no nosso país até agora», refere o professor aposentado da Universidade Católica a abrir o artigo.

Na história do Cinema, e tendo por base apenas as exibições no Ocidente, ultrapassam «largamente as duas centenas» as obras que, desde os primórdios do cinematógrafo até agora, têm presente, «de forma consistente ou mais superficial, o tema da religião», número que estará aquém do total, quer por destruição de várias obras quer pela ausência do seu recenseamento.



É com o cinema entrecruzado com o teatro (bem marcado na divisão em atos cénicos, como na peça) que de forma abissal se inicia e se encerra "Benilde". Não se perca de vista que a peça de Régio se desenrola sobre o signo da dúvida sobre uma manifestação de sinal religioso



"Benilde ou a Virgem Mãe" (1975) enquadra-se no género de filmes cujo estilo não é religioso mas é o conteúdo, enquanto "Ato da primavera" (1963) se insere nas obras em que tanto o estilo como o conteúdo são religiosos e estão unidos de forma indissociável, explica o investigador.

"Ato da primavera" é construído a partir da «representação tradicional de um auto da Paixão de Cristo representado à época pela população da aldeia transmontana de Curalha, no concelho de Chaves». «Uma questão interessante, entre muitas (e bastante abordada), que nos coloca logo à partida o "Ato" é a de saber se estamos perante um documentário ou perante uma obra de ficção. Sem querer simplificar, ou jogar com as palavras, penso que se trata de um e de outra.»

O filme "Benilde ou a Virgem Mãe" sustenta-se na obra teatral de José Régio, estreada, «sob forte polémica, no Teatro Nacional de D. Maria II em 1947. As motivações para a agitação então criada repartiam-se, como é conhecido, entre razões de ordem literária e algum repúdio à temática exposta por parte de meios católicos da época». «É com o cinema entrecruzado com o teatro (bem marcado na divisão em atos cénicos, como na peça) que de forma abissal se inicia e se encerra "Benilde". Não se perca de vista que a peça de Régio se desenrola sobre o signo da dúvida sobre uma manifestação de sinal religioso (...).»

O jesuíta Mário Garcia reflete sobre "Dois exemplos de abordagem ficcional da maternidade de Nossa Senhora na literatura portuguesa: 'Benilde ou a Virgem Mãe' (José Régio) e 'O mensageiro' (Teolinda Gersão)».



O drama de José Régio e o conto de Teolinda Gersão (2003) «constituem exemplos notáveis da atualidade do tema da maternidade de Nossa Senhora na literatura portuguesa



O professor de Literatura Portuguesa começa por sublinhar que ela é percorrida por Nossa Senhora, «desde as "Cantigas de Santa Maria", Gil Vicente, o Padre António Vieira, Bocage, Antero, Nemésio... para só citar alguns dos Grandes. Não podemos, ao tentar ser honestos, prescindir desse "tema" e da sua formulação lírica, apologética, dramática. Atinge, algumas vezes, momentos de rara beleza, por si mesmo ou na ligação intrínseca com outros tipos de problemática: religiosa, moral, estética, em que a "mulher" é desenhada em variadíssimos registos».

O drama de José Régio e o conto de Teolinda Gersão (2003) «constituem exemplos notáveis da atualidade do tema da maternidade de Nossa Senhora na literatura portuguesa. As "variações", como na música, partem de um núcleo comum que se expande quase "ad infinitum". A capacidade do imaginário humano investe num tema, aliciante porque misterioso, o da conceção virginal de Maria, e dá-lhe voltas para o tentar compreender (não explicar)».

«Ao definirmos o modo da composição de cada um destes autores com os ternos "subversão" e "imersão", não pretendemos abrir todas as portas. Uma obra literária é, por sua natureza, polissémica. Estas chaves são hipóteses de trabalho que resultam só na medida em que servem para clarificar pontos de vista», assinala Mário Garcia.

Acílio da Silva Estanqueiro Rocha evoca os 500 anos da publicação de "Utopia ou A melhor forma de governo", de Tomás Moro, frisando que «apesar dos cinco séculos que decorreram, as críticas à sociedade do tempo aplicam-se que nem uma luva à sociedade de hoje, tendo ademais exercido forte influxo, suscitando novas ideias e inspirando reformas sociais».

Na edição de outubro da revista publicada pelos Jesuítas portugueses desde 1902 e que conta, no Conselho de Redação, com o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, José Carlos Seabra Pereira, é também apresentado o discurso do papa Francisco à Congregação Geral da Companhia de Jesus, bem como uma entrevista ao novo superior máximo da congregação, o venezuelano Arturo Sosa.

Este número inclui ainda o texto "Alegria do amor na família", de Domingos Lourenço Vieira, que se centra em alguns dos números da exortação "A alegria do amor", do papa Francisco.



 

Rui Jorge Martins
Publicado em 06.01.2017

 

 

 
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