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Mais ternura para a teologia

Teologia e ternura parecem duas palavras distintas: a primeira parece referir-se ao âmbito académico, a segunda às relações interpessoais. Na realidade a nossa fé liga-as indissoluvelmente. A teologia, com efeito, não pode ser abstrata – se fosse abstrata, seria ideologia – porque nasce de um conhecimento existencial, nasce do encontro com o Verbo feito carne. A teologia é então chamada a comunicar a concretude do Deus amor. E ternura é um bom “existencial concreto” para traduzir aos nossos tempos o afeto que o Senhor nutre por nós.

Hoje, efetivamente, há uma menor concentração, comparativamente com o passado, sobre o conceito ou sobre a praxis, e mais no “sentir”. Pode não agradar, mas é um dado de facto: parte-se daquilo que se sente. A teologia não pode certamente reduzir-se a sentimento, mas também não pode ignorar que em muitas partes do mundo a aproximação às questões vitais já não parte das perguntas últimas ou das exigências sociais, mas daquilo que a pessoa perceciona emotivamente. A teologia é interpelada a acompanhar esta procura existencial, levando a luz que vem da Palavra de Deus. E uma boa teologia da ternura pode declinar a caridade divina neste sentido. É possível, porque o amor de Deus não é um princípio geral abstrato, mas pessoal e concreto, que o Espírito Santo comunica no íntimo. Ele, de facto, alcança e transforma os sentimentos e os pensamentos do ser humano. Que conteúdos poderia então ter uma teologia da ternura? Há dois que me parecem importantes, são os outros dois pontos que gostaria de oferecer-vos: a beleza de nos sentirmos amados por Deus e a beleza de nos sentirmos amar em nome de Deus.



A ternura, longe de reduzir-se a sentimentalismo, é o primeiro passo para superar o fechamento sobre si próprio, para sair do egocentrismo que deturpa a liberdade humana



Sentirmo-nos amados. É uma mensagem que nos tem chegado mais fortemente nos últimos tempos: do Sagrado Coração, de Jesus misericordioso, da misericórdia como propriedade essencial da Trindade e da vida cristã. Hoje a liturgia recordava-nos a palavra de Jesus: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso». A ternura pode indicar precisamente o nosso modo de receber hoje a misericórdia divina. A ternura desvela-nos, a par do rosto paterno, o materno de Deus, de um Deus enamorado pelo ser humano, que nos ama com um amor infinitamente maior do que aquele que uma mãe tem pelo seu próprio filho. Seja o que acontecer, seja o que fizermos, estamos certos de que Deus está próximo, compassivamente, pronto a comover-se por nós. Ternura é uma palavra benéfica, é o antídoto para o medo em relação a Deus, porque «no amor não há temor», porque a confiança vence o medo. Sentirmo-nos amados significa por isso aprender a confiar em Deus, a dizer-lhe, como Ele quer: «Jesus, confio em ti».

Estas e outras considerações podem aprofundar a investigação: para dar à Igreja uma teologia “gostosa”; para ajudar-nos a viver uma fé consciente, ardente de amor e de esperança; para exortar-nos a dobrar o joelho, tocados e feridos pelo amor divino. Neste sentido, a ternura remete para a Paixão. A Cruz é, com efeito, o selo da ternura divina, que se recolhe das chagas do Senhor. As suas feridas visíveis são as janelas que escancaram o seu amor invisível. A sua Paixão convida-nos a transformar o nosso coração de pedra em coração de carne, a apaixonarmo-nos por Deus. E do ser humano, por amor de Deus.



Certamente a Palavra de Deus não muda, mas a carne que é chamada a assumir, esta sim, muda a cada época. Há muito trabalho, portanto, para a teologia e para a sua missão hoje



Eis, então, o último aspeto: sentirmo-nos amar. Quando o ser humano se sente verdadeiramente amado, sente-se levado também a amar. Aliás, se Deus é infinita ternura, também o ser humano, criado à sua imagem, é capaz de ternura. A ternura, então, longe de reduzir-se a sentimentalismo, é o primeiro passo para superar o fechamento sobre si próprio, para sair do egocentrismo que deturpa a liberdade humana. A ternura de Deus leva-nos a compreender que o amor é o sentido da vida. Compreendemos assim que a raiz da nossa liberdade nunca é autorreferencial. E sentimo-nos chamados a derramar no mundo o amor recebido pelo Senhor, a decliná-lo na Igreja, na família, na sociedade, a conjugá-lo no serviço e na doação. Tudo isto não por dever, mas por amor, por amor daquele por quem somos ternamente amados.

Estes breves ideias direcionam para uma teologia em caminho: uma teologia que desce dos estrangulamentos em que às vezes se encerra e com dinamismo se dirige a Deus, tomando o ser humano pela mão; uma teologia não narcisista, mas que tende para o serviço da comunidade; uma teologia que não se contente em repetir os paradigmas do passado, mas seja Palavra incarnada. Certamente a Palavra de Deus não muda, mas a carne que é chamada a assumir, esta sim, muda a cada época. Há muito trabalho, portanto, para a teologia e para a sua missão hoje: incarnar a Palavra de Deus para a Igreja e para o ser humano do terceiro milénio. Hoje mais do que nunca é preciso uma revolução da ternura. Isto salvar-nos-á.


 

Papa Francisco
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Sanja22/Bigstock.com
Publicado em 13.09.2018

 

 
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