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Mãe e filhos heroicos

Imagem Os macabeus (det.) | Wojciech Stattler | 1844

Mãe e filhos heroicos

Não temas este carrasco e aceita a morte, para que, no dia da misericórdia, eu te encontre no meio deles: é uma mãe a exortar deste modo um dos seus sete filhos que estão para ser votados ao martírio.

Sugestiva nesta passagem do capítulo sete do Segundo Livro dos Macabeus é a definição do juízo final não como o “dies irae” [dia de ira], ideia presente na tradição profética e apocalíptica, mas como «o dia da misericórdia do Senhor”.

O livro dos Macabeus é deuterocanónico (foi redigido em grego e está só no cânone bíblico católico) e é fruto da síntese de uma obra mais ampla e que se perdeu de um certo Jasão de Cirene.

O objetivo do texto, que tem tonalidades e cores acesas e apaixonadas, era exaltar a revolução dos irmãos Macabeus, que se revoltaram contra o poder siro-helénico, que procurava impor, também a Israel, fé, cultura usos e costumes de clara matriz pagã (II sec. a.C.). O texto, que é autónomo, e não continuação do Primeiro Livro dos Macabeus, celebra o heroísmo dos combatentes judeus através de algumas narrativas exemplares.

A história da mãe de sete filhos é talvez a mais tocante e comovente dessas narrativas: uma página toda em crescendo, a ler integralmente. Ela, com coragem sobre-humana, impele os filhos a não hesitar em enfrentar a morte, consciente de que ela não será um abismo do nada e da dissolução, mas um umbral aberto para entrar numa nova vida, no abraço da misericórdia divina.

Por isso, o segundo dos sete filhos, antes de exalar o último suspiro, grita ao carrasco: «Ó malvado, tu arrebatas-nos a vida presente, mas o rei do universo há de ressuscitar-nos para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis» (7, 9).

A mesma fidelidade e confiança, estimuladas pela mãe, são testemunhadas pelo quarto filho, que apontado o dedo para o executante, exclama: «É uma felicidade perecer à mão dos homens, com a esperança de que Deus nos ressuscitará; mas a tua ressurreição não será para a vida» (7, 14).

Destas palavras parece evidente que o judaísmo do período helenístico acreditava quer na ressurreição como destino último da criatura humana, quer no juízo divino sobre o bem e sobre o mal, mas sobretudo na salvação oferecida aos justos pelo amor misericordioso do Senhor.

Havia também a convicção de que tudo deriva do Criador, que «o criou do nada» (7, 28). É a doutrina da “criação a partir do nada” que está na base da confiança na ressurreição, obra do mesmo Criador.

A narrativa coloca em cena também o rei Antíoco IV, que reinou de 175 a 164 a.C. na Síria e na Palestina, tentando impor de maneira rígida o estilo de vida grego e assim provocando a revolução dos Macabeus. O autor sagrado retrata-o como uma personagem sádica que descarrega sobre um dos filhos «a sua ira com maior crueldade que sobre os outros, enraivecido por ter zombado dele» (7, 39).

«Depois dos filhos, foi também morta a mãe» (7, 41). Um belíssimo testemunho de toda uma família, confiante no Deus que não abandona os seus fiéis, mesmo no tempo sombrio da provação.

 

Card. Gianfranco Ravasi
In "Famiglia Cristiana"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 5.7.2016

 

 
Imagem Os macabeus (det.) | Wojciech Stattler | 1844
A mesma fidelidade e confiança, estimuladas pela mãe, são testemunhadas pelo quarto filho, que apontado o dedo para o executante, exclama: «É uma felicidade perecer à mão dos homens, com a esperança de que Deus nos ressuscitará; mas a tua ressurreição não será para a vida»
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