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Mãe, amor e esperança: Fátima numa novela de José Luís Peixoto

Imagem Capa de "Em teu ventre", de José Luís Peixoto (det.) | D.R.

Mãe, amor e esperança: Fátima numa novela de José Luís Peixoto

Não podemos confrontar-nos com Fátima, enquanto acontecimento extraordinário, sem admitirmos a perplexidade, o espanto ou mesmo o temor. Moisés Espírito Santo, insuspeito de proselitismo católico, isentou-se de preconceitos e, perante os dados colhidos no estudo científico do fenómeno, admitiu em Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima (2006): “Analisando os dizeres da crianças, é certo que elas viram uma coisa, ente divino […], elucubração onírica ou ilusão óptica, quer fosse induzida por uma iniciação ou por outra técnica que os nossos conhecimentos não podem determinar. A multidão também viu qualquer coisa no céu […]”.

O confronto com o inefável conduz a uma resposta, dada com os instrumentos da nossa insuficiência. Produz uma legenda ou leitura que tanto pode ser apologética quanto reticente ou mesmo antagónica. A indiferença não é possível. Refere o mesmo investigador: “Quanto à Cova da Iria, os escritos procedem ora de apologistas católicos que defendem a descida da Mãe de Jesus à serra d’ Aire, ora de alguns autores do campo oposto que ‘desmascaram’ essa pretensão; pelo meio encontram-se alguns trabalhos jornalísticos, umas tantas fantasias de ovniólogos e muita desconfiança. […] Deparamos assim com um enigma insolúvel face aos nossos atuais conhecimentos.”

Nem todos conseguem admitir, como afirma o autor d’ A Religião Popular Portuguesa, “que entes divinos se atribuam a tarefa de vir ao mundo mandar rezar o Terço”. O acontecimento-Fátima não é, todavia, dogma de fé na Igreja Católica Romana – e as resistências, por vezes violentas, à admissão do milagre, resultante da veracidade dos relatos apresentados por três crianças criadas em meio rural, não foram poucas em 1917 e nos anos seguintes, mesmo entre os membros da hierarquia religiosa. Que viram, no entanto, Lúcia e os seus primos Francisco e Jacinta Marto? Atenhamo-nos aos seus testemunhos mais diretos e contemporâneos, registados em cima do acontecimento pelo reticente pároco de Fátima. Foram compilados e publicados, com grande honestidade intelectual, pelo Santuário no primeiro volume da Documentação Crítica de Fátima.

Sabe-se que a primeira aparição – antecedida pela visão em 1916 de um “vulto” parecido com “uma pessoa embrulhada num lençol”, testemunhada por outras crianças (inquérito de 2/11/1917) – só se divulgou devido ao entusiasmo da beata Jacinta Marto, a mais nova das videntes. Cerca de duas semanas depois desse 13/5/1917, o padre Manuel Marques Ferreira registaria o resultado do seu questionário. Depois de um relâmpago, “viram uma mulher em cima duma carrasqueira, vestida de branco”, com “as mãos erguidas”; “quando falava alargava os braços” e deixava “as mãos abertas”; afirmou que o “seu lugar [era] o céu”, anunciou-lhes que aquela seria a primeira de seis vindas e acabou prometendo a Jacinta e a Lúcia uma ida “para o céu”; também Francisco iria, depois de “rezar as continhas dele”; dito isto, “abalou pelo ar acima”. Um mês depois, “a Senhora” que vinha “em linha oblíqua do lado do nascente” surpreendeu, ordenando à mais velha das pastoras que “aprend[esse] a ler” para poder revelar-lhe o que lhe queria; nesse mesmo dia lhes terá pedido que rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário para que “abrand[asse] a guerra”. Em agosto, a aparição não se realizou a 13, na Cova da Iria, por terem levado as crianças para Ourém; só a 19, nos Valinhos, ela ocorre e nessa ocasião se fala num “milagre” que teria ocorrido, não fosse essa contrariedade. Em setembro, não se notam grandes novidades. É a 13 de outubro que ocorrem os factos mais extraordinários, testemunhados por grande multidão e relatados nos jornais da época (vg. O Século, 15/10/1917). Segundo averiguações do supracitado sacerdote, a mulher identifica-se como a “Senhora do Rosário” e suplica que “não ofendam mais a Nosso Senhor”. É depois da sua partida que ocorre o chamado “milagre do sol” e um conjunto de manifestações sagradas junto do astro-rei. Nesse mesmo dia, o padre Manuel Nunes Formigão, interrogando Lúcia, registaria nas suas respostas que a Senhora havia pedido a edificação duma capela no lugar. Regressando, “começou o sinal no céu” – o astro “and[ou] à roda”. Nessa altura, fala-se num “segredo” que havia sido confiado aos pastores pela entidade sobrenatural, o qual as crianças recusaram revelar porque “se calhar, é pecado diz[ê-lo]”, embora indiquem que será para bem das suas almas, confirmando que “o povo fica[ria] triste, se o soubesse”. Alguns dias depois, Jacinta diria contudo que “se não se emendasse[m] acaba[va] o mundo”.

Seja qual for a nossa leitura dos relatos que acabo de resumir (e cuja leitura recomendo vivamente), eles apresentam o testemunho inicial de Lúcia, Jacinta e Francisco, isento de reinterpretações. Estamos perante a raiz textual de um discurso que se foi ramificando e enriquecendo ao longo da última centúria. Visão e audição de uma manifestação sobrenatural deram lugar a um texto incessante que, apesar da hierofania que está na sua origem e no seu centro, não se pode eximir às regras da produtransmissão (que normalmente afetam os textos com nascimento oral), da contaminação, da exegese e da hermenêutica. Também o estatuto do acontecimento-Fátima tem evoluído. A impossível indiferença perante o que há de enigmático e de misterioso no relato de três crianças tem gerado adesões, delírios e rejeições, nem sempre informados, as quais originaram tanto a sua apropriação e reelaboração por grupos integristas quanto a sua manipulação por correntes que não aceitam a crença metódica.

No seio católico, assiste-se a um quase-paradoxo. Por um lado, Fátima é justamente sublinhada como uma “revelação privada”, estatuto “que se aplica a todas as visões e revelações verificadas depois da conclusão do Novo Testamento”, como explicou Joseph Ratzinger no Comentário Teológico que acompanha a divulgação do chamado “terceiro segredo”. A “revelação pública”, evangélica, “exige a nossa fé”, pois “é o próprio Deus que nos fala por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja”, criando “a segurança de encontrar a própria verdade”; a “privada é um auxílio para esta fé” (requerendo “uma adesão de fé humana ditada pelas regras da prudência”, como afirmou o cardeal Lambertini (Bento XIV)), devendo ser aquilatadas pela sua coincidência com a mensagem do Novo Testamento: “quando se torna autónoma ou até se faz passar por outro desígnio de salvação, melhor e mais importante que o Evangelho, então ela certamente não provém do Espírito Santo”, refere o agora Papa Emérito Bento XVI. Este sopesar foi realizado pelas autoridades eclesiásticas com tutela sobre a paróquia de Fátima, tendo conduzido à aprovação da credibilidade dos acontecimentos ainda nos anos 20 do século passado (embora o trabalho teológico esteja longe de estar concluído, como o comprova a recente obra assinada por Eloy Bueno de la Fuente). Por outro lado, a adesão quase generalizada de vários quadrantes da Igreja Católica, acentuada pelas palavras e pelos gestos protagonizados por vários papas (Pio XII, Paulo VI e Francisco, mas sobretudo João Paulo II), elevou o seu estatuto a uma eminência ímpar – ao ponto de ter gerado leituras e práticas que parecem desejar não só a dogmatização da crença nas aparições como a canonização de toda uma interpretação unívoca e fundamentalista da vasta produção escrita da única vidente que sobreviveu até ao século XXI. A prudência das autoridades eclesiásticas, nacionais e romanas, não tem sido pouca perante tais fenómenos, conhecendo as palavras da irmã Maria Lúcia, que repetiu vezes sem conta: “posso enganar-me”, “isto é o que eu penso e não o que eu sei, que nada sei” (in Como vejo a mensagem).

 

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Se a produção artística relacionada com os acontecimentos de 1917 é vasta, sobretudo nos domínios da arquitetura, da pintura, da escultura e da música (em grande parte impulsionada pelas necessidades das novas devoções à Virgem de Fátima, ao seu Imaculado Coração e aos seus videntes portugueses já beatificados), não encontramos igual panorama na produção literária e poética. Tanto quanto sei, não se fez ainda o recenseamento da totalidade dos textos (e não serei eu a fazê-lo), mas recordo que em 1958 os poetas José Régio e Alberto de Serpa só conseguiram incluir na sua antologia Na Mão de Deus um único poema relacionado com a Cova da Iria: “Ave-Maria”, de Pedro Homem de Mello. Além deste texto, assinalam-se produções de Afonso Lopes Vieira e Rodrigo Emílio, embora o núcleo mais significativo e artisticamente conseguido pertença ao poeta Vitorino Nemésio que, em O Pão e a Culpa, publicou dois poemas importantes sobre as aparições e os seus protagonistas – “O Anjo da Loca” e “A Virgem da Cova” –, voltando ao tema em Canto de Véspera, com um texto dedicado aos peregrinos pedestres, “A Virgem do Lenço”. Em data mais recente, Amadeu Baptista editou, para o público infanto-juvenil, um poema narrativo intitulado A História Maravilhosa dos Três Pastorinhos de Fátima (2011). Em 2015, na revista cultural editada pelo Santuário da Cova da Iria, Agripina Carriço Vieira anotou os reflexos de Fátima na literatura, apontando referências em livros de Miguel Miranda, DeMoura, Manuel Rui, Miguel Real e, sobretudo, António Lobo Antunes. Talvez haja mais, mas temos de convir que é pouco. Levado para o campo da piedade popular (olhada sempre de soslaio pelas elites intelectuais) e, em simultâneo, instrumentalizado durante demasiado tempo por vários interesses políticos e sociais (pouco ou nada cristãos), o acontecimento-Fátima parece ter-se tornado pouco atraente. Nem mesmo a presença no santuário do papa Paulo VI (tão pouco simpática a Salazar e àqueles que o rodeavam) parece ter esbatido este distanciamento, manifestado inclusive por poetas e escritores que se foram reivindicando de uma matriz católica.

Por estas razões, "Em Teu Ventre", livro publicado por José Luís Peixoto, parece surgir como facto singular. Corajoso, parece romper (ou ignorar) a interdição consuetudinária que vigora entre os letrados do nosso país, segundo a qual Fátima pertence à categoria dos acontecimentos intocáveis, a não ser como campo de experimentação da ironia, do sarcasmo ou da zombaria. É ainda um documento importante, ao sair do teclado de alguém que não pertence ao redil católico, cristão ou crente. Ao apropriar-se de uma das narrativas fundadoras da nossa contemporaneidade, escreveu um livro poliédrico que permite várias abordagens. Além da letra e do estilo, que merecem a lupa dos estudos literários, possui ingredientes que não devem ser menosprezados por quem se dedique à análise antropológica, sociológica e teológica.

 

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Não sei se o livro de José Luís Peixoto pretende que cheguemos ao Paraíso. Julgo que não. É, ainda assim uma obra sobre a crença e, também, sobre a querença, associando a fé à vontade. Assumindo-se como “texto de ficção”, baseado na “informação” contida em relatos diretos e indiretos dos acontecimentos ocorridos na Cova da Iria, parece tê-los submetido aos quatro patamares da hermenêutica antiga. Exprime os acontecimentos passados, desvela o conteúdo da crença, revela o seu sentido moral e, suspeito, chega muito perto do objeto da nossa esperança. Ou seja, do sentido histórico-literal vai até às portas da anagogia, passando antes pela alegoria e pela tropologia, como propuseram Cassiano, Santo Agostinho e, depois deles, Dante Alighieri e os mestres talmudistas. Fosse ele judeu e diríamos que Peixoto, com os instrumentos da ficção narrativa, submeteu Fátima a pelo menos três leituras ou crivos – simplicidade (pchat), alusão (rémez) e interpretação (drach) –, suspendendo a subida (ou deixando-a para o leitor) junto do segredo ou sagrado (sod); ao PRDS (jardim ou paraíso) falta a última consoante, que será acrescentada (ou não) pelos legentes atentos do seu texto.

A essa anagogia ou escatologia, em cuja soleira Peixoto parece suspender a marcha, chamavam os autores antigos “segredo”, “super-sentido” ou “objecto da nossa esperança”. Ora, a esperança – segunda virtude teologal que faz a ponte entre a fé e o amor – é precisamente o marco da sua novela, "Em Teu Ventre": “Tudo começa pela esperança”, afirma logo no início (p. 12). E com esse vocábulo termina a narrativa, sublinhando em simultâneo a outra palavra estrutural: “Entre o infinito do céu e o infinito da terra, existe o teu infinito, igualmente desmedido e ilimitado. § Mãe, o tempo não é capaz de conter-te. § Mãe, morte e amor. § Mãe, esperança.” (p. 163)

A esperança – feita de desejo, futuro e aspiração – é alfa e ómega na leitura que Peixoto faz do acontecimento-Fátima e de seis meses da vida da sua principal protagonista humana, a pastora Lúcia. A seu modo, vai ao encontro de alguns dos melhores frutos da pesquisa teológica contemporânea e, até, do cerne da mariolatria expressa na oração. “Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança”, assim se qualifica a mãe de Jesus Cristo na Salve Regina. Sucessivos movimentos de sístole e diástole conduzem a pulsação até essa maternidade que, em metonímia, se fez ventre. Entre a crença e a dúvida, o sagrado e o profano, a certeza e a incerteza, o entendimento e a incompreensão, o segredo e a revelação, o mistério e a inteligência, a expressão e a contemplação se estabelece uma sabedoria que consiste em imaginar no invisível (ou seja, em ver o invisível) para que a liberdade seja possível. Há, por isso, a obrigação de escrever, pois a experiência e o conhecimento só se tornam movimento e comoção se houver transmissão e partilha. (Talvez por isso a Senhora que apareceu aos pastores tenha ordenado a Lúcia a sua alfabetização…) Fátima não sobreviveria sem mensagem e sem profecia, cuja permanência e difusão exigem formas de expressão que tornem possível a emergência de um texto incessante, movido pela salvaguarda, tal como a concebia Heidegger.

Poderá ser a esperança a abstração salvífica da maternidade? Na linguagem vernácula, a expectação é sinónima da gravidez… José Luís Peixoto parece oferecer essa leitura, se considerarmos a vírgula da derradeira frase do seu texto como substituta da igualdade ou da equivalência: “Mãe, esperança”. “Negar a esperança é uma ação contra a natureza”, afirma, pois no seu uso reside a individualidade (p. 11). Se a palavra é meio imperfeito e incapaz perante o inefável (p. 11), há decisões a tomar, sendo necessária a escolha entre a memória (“medo […] lembrança de uma dor do passado”) e a esperança (“vontade […] crença num sonho de futuro”).

"Em Teu Ventre", partindo da narrativa fundadora de um parte significativa do século XX – “a mais profética das revelações”, segundo afirmou o papa Bento XVI –, estrutura-se assim sobre três virtudes (fé, esperança e caridade-amor), sabendo que o amor (como em Dante) é o contrário da morte (a-mors) e só se constrói em liberdade, pelo uso da vontade de futuro que é a esperança (tão louvada por esse poeta grande que foi Charles Péguy).

Em vez de dedicar tempo e papel à apologia ou a “desmascarar” o acontecimento-Fátima, Peixoto aplicou-o à investigação do seu cerne, da sua raiz: a esperança expressa na maternidade, como ponte que conduz ao Amor Divino. Poder-se-á objetar que a fé foi deixada na sombra ou, mesmo, omitida. Tal não creio. O autor de Morreste-me preferiu, antes, deixá-la num lugar inefável. Este livro vale, por isso, não só pelas suas palavras como também pelos seus silêncios. Não se dedica a decifrar um enigma; perante o mistério testemunhado em Fátima, cala-se e deixa a liberdade ao leitor. As narrativas dos acontecimentos de 1917 foram interpretadas em níveis sucessivos, mas perante o segredo, a escatologia e a anagogia, José Luís Peixoto preferiu retirar-se com cautela e respeito. Assiste às manifestações de sacralização do tempo, do espaço, do ser humano, provocadas pela descida do númen ao terreno profano (aquele que se perde para o santuário, p. 81), à intemporalidade da Mulher aparecida, à segregação progressiva de Lúcia. Exprime os fenómenos; não toma contudo posição, expondo antes as resistências (pp. 91 – 92), as deturpações (p. 97 – 98) e a multiplicação de versões do mesmo acontecimento. Tal preocupação é bem visível na sedutora polifonia de vozes que construiu e apresentou.

No centro, temos a Mãe, ventre gerador, que tanto pode ser a progenitora do narrador quanto a mãe de Lúcia ou a mãe de Jesus Cristo. Mãe em latim diz-se mater, vocábulo que também significa matéria, fonte, origem, pátria ou tronco arbóreo. Talvez por isso tenha tanta importância em Fátima e nesta narrativa uma árvore, como símbolo ou imagem visível do invisível. A azinheira, nos seis meses das aparições, torna-se Árvore da Vida e, por isso mesmo, se vai atomizando em relíquias, ao ponto de se tornar imaterial. Resume a vida e, invisível, como sustentáculo da imagem da Virgem Maria no seu santuário, torna-se ligação dos homens à Crença, à Esperança e ao Amor – “que move o sol e as mais estrelas” (Dante) e, por isso, parece ter produzido o único milagre possível na Cova da Iria, para que todos acreditassem. Divinizada, a Mãe (Mater Dei) torna-se esperançosa medianeira, oferecendo à humanidade a Luz Divina (como a Shekinah do judaísmo). É a vitória da vontade sobre medo.

 

Ruy Ventura
Poeta, docente, investigador
In "Ler", verão 2016
Publicado em 08.06.2016

 

 
Imagem Capa de "Em teu ventre", de José Luís Peixoto | D.R.
Seja qual for a nossa leitura dos relatos que acabo de resumir (e cuja leitura recomendo vivamente), eles apresentam o testemunho inicial de Lúcia, Jacinta e Francisco, isento de reinterpretações. Estamos perante a raiz textual de um discurso que se foi ramificando e enriquecendo ao longo da última centúria
Se a produção artística relacionada com os acontecimentos de 1917 é vasta, sobretudo nos domínios da arquitetura, da pintura, da escultura e da música (em grande parte impulsionada pelas necessidades das novas devoções à Virgem de Fátima, ao seu Imaculado Coração e aos seus videntes portugueses já beatificados), não encontramos igual panorama na produção literária e poética
"Em Teu Ventre", livro publicado por José Luís Peixoto, parece surgir como facto singular. Corajoso, parece romper (ou ignorar) a interdição consuetudinária que vigora entre os letrados do nosso país, segundo a qual Fátima pertence à categoria dos acontecimentos intocáveis, a não ser como campo de experimentação da ironia, do sarcasmo ou da zombaria
Ao apropriar-se de uma das narrativas fundadoras da nossa contemporaneidade, escreveu um livro poliédrico que permite várias abordagens. Além da letra e do estilo, que merecem a lupa dos estudos literários, possui ingredientes que não devem ser menosprezados por quem se dedique à análise antropológica, sociológica e teológica
A esperança – segunda virtude teologal que faz a ponte entre a fé e o amor – é precisamente o marco da sua novela, "Em Teu Ventre": “Tudo começa pela esperança”, afirma logo no início (p. 12). E com esse vocábulo termina a narrativa
Em vez de dedicar tempo e papel à apologia ou a “desmascarar” o acontecimento-Fátima, Peixoto aplicou-o à investigação do seu cerne, da sua raiz: a esperança expressa na maternidade, como ponte que conduz ao Amor Divino. Poder-se-á objetar que a fé foi deixada na sombra ou, mesmo, omitida. Tal não creio
As narrativas dos acontecimentos de 1917 foram interpretadas em níveis sucessivos, mas perante o segredo, a escatologia e a anagogia, José Luís Peixoto preferiu retirar-se com cautela e respeito
No centro, temos a Mãe, ventre gerador, que tanto pode ser a progenitora do narrador quanto a mãe de Lúcia ou a mãe de Jesus Cristo. Mãe em latim diz-se "mater", vocábulo que também significa matéria, fonte, origem, pátria ou tronco arbóreo. Talvez por isso tenha tanta importância em Fátima e nesta narrativa uma árvore, como símbolo ou imagem visível do invisível
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