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Madeira: Breve iniciação ao espanto insular

«Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos originais...»
Herberto Helder

 

Desde cedo a Madeira entrou na órbita da chamada literatura de viagens. Grande parte são diários ou textos epistolares privados, de cariz vagamente etno­gráfico ou comercial, na sua maioria sem grande profundidade, como os exercí­cios praticados por aguarelistas amadores. Mas também encontramos anotações curiosas e bem certeiras em textos literários, que não deixam de ser documen­tais, como os assinados por Camões, Gaspar Frutuoso, Ellen Taylor, Raul Brandão, Ferreira de Castro, John dos Passos ou Graham Greene. Ora, poderíamos colar todas essas narrativas de descobrimento, fazendo um grande tapete textual, e encontraríamos o mesmo sentimento repetido para falar do primeiro embate com a Madeira. E o primeiro embate é de encantamento.

É verdade que, ao final, passado um tempo que nem tem de ser longo, os forasteiros ficam como que mareados, assaltados por uma inesperada melan­colia, como quando subimos a uma altitude demasiado alta, à qual não estamos habituados, e sentimos o incómodo da cabeça andar à roda e o chão fugir-nos debaixo dos pés. Como esse mal da montanha, que na América do Sul se designa por «soroche», também há um mal insular para quem não teve tempo de fazer­-se a este local. Basta ler “As Ilhas Desconhecidas”, de Raul Brandão, para perce­ber isso. Brandão sente-se expelido para a sua terra de proveniência, como se a própria ilha o repelisse. Mas o embate inicial, dizia, é de emaravilhamento. E a avulsa literatura de viagens que chegou até nós testemunha isso abundan­temente.

 

O desembarque na Ilha

No início do século XIX, um viajante anónimo que escreveu um «Guia da Madeira», deixava, aos seus leitores, o seguinte aviso: «Aquele que nunca fez uma viagem por mar para fora do continente europeu ficará muito espantado com a visão da Madeira.» Emily Shore, que chegava de Londres no inverno de 1838, construiu este retrato: «O sol ainda não se erguera mas podia ver da minha janelinha que navegávamos passando a nobre costa da Madeira [ ... ] A manhã levantara-se numa beleza luminosa e, através de uma atmosfera que nenhum verão inglês pode igua­lar, olhámos a magnificente mole de montanhas cortadas por sulcos que se erguem abruptamente dos fundos do oceano e furam as nuvens com os seus cumes. E isto é a Madeira.» O visitante Duncan McLaren, vindo de Edimburgo, gravou no seu diário de 1844, a lacunar, mas impressiva locução: «Depois de uma viagem de 14 dias, chegámos à vista da Madeira [ ... ] Foi uma das mais belas visões que os meus olhos alguma vez contemplaram.» O escritor americano Anthony Drexel Biddle fez este registo, já à entrada do século XX: «A aproximação à Madeira por barco e com bom tempo oferece-nos a mais sublime e bela visão a ser desfrutada em qualquer parte do mundo. Perante os olhos cansados da contemplação do mar, o espetáculo das torres da ilha de montanhas verdejantes sob uma névoa brilhante.» E, décadas mais tarde, temos a anotação de Ferreira de Castro: «Era um deslumbramento a terra, que, escondendo os cumes entre castelos de bruma, irisados e quiméricos, vinha escorregando, com seus parques, suas quintas, suas airosas vivendas a espreitar de entre as fartas cabeleiras de arvoredo, até à fímbria do oceano, onde o casario se aglomerava, se chegava um ao outro, como se estivesse friorento - ali onde nunca havia frio.» Há duas anto­logias muito úteis a quem se interessar por esta espécie de florilégio do desem­barque madeirense. São da autoria de António Aragão (“A Madeira Vista por Estrangeiros”, DRAC, 1981) e de António Marques da Silva (“Passaram pela Madeira. Textos de autores anglo-saxónicos que visitaram a ilha”, Coleção «Funchal 500 anos», 2008). É certo que quem nunca se viu no olhar do outro, verdadeiramente nunca se compreendeu. Aquelas antologias recolhem essa visão: são espelhos embeve­cidos, mesmo quando diversos e distanciados.

 

Qualquer coisa antes da história

A ilha avistada, em aproximação marítima ou em sobrevoo, como agora a expe­riência de aviação nos permite, causa, de facto, um impacto de arrepiar. Já todos sentimos esse arrepio alguma vez. E eu arriscaria dizer que o sentimos de todas as vezes, porque o que é próprio da beleza extrema é encontrar-nos imprepara­dos face à sua revelação. De que natureza é esse arrepio? - perguntaríamos. Atravessando o vasto oceano, a Madeira emerge como um milagre verde e vertical que transporta, mesmo quemjá viu muito mundo, até ao seu princípio. Talvez as ilhas permitam essa espécie de reencontro com o paraíso e daí o seu intermi­nável fascínio. A Madeira não é o “finisterra”, os confins do mundo ou uma das suas fronteiras remotas. A Madeira é o início do mundo, é qualquer coisa antes da história, que na sua geografia precisa, a 973 km de Lisboa e a 685 km da costa africana, resiste e explica a própria história. A Madeira não é uma jangada à deriva no tempo. A Madeira é um útero, um vácuo cósmico onde o tempo não corre, o colo de um vulcão maternal. No plano sonhado, ela detém uma vertigi­nosa força centrífuga que nos prende a mil braças de profundidade. A sua lava é o sangue da terra.

 

Um corpo múltiplo e fantasmático

Todos os relatos de aproximação à Madeira dizem o mesmo e dizem alguma coisa que sabemos, mas por um outro tipo de conhecimento, recuado e onírico. Dizem que esta terra não é um cenário, mas emerge como protagonista. Não é inerme, mas respira. Sendo de pedra o seu corpo pode tornar-se imaterial, como uma aparição. Pode levitar, ser múltiplo e fantasmático, como se fosse o duplo de si mesma. Esta terra tem contrações, mexe-se como se não coubesse em si, desloca­-se pelos promontórios avançados e fajãs em movimentos velocíssimos, ao mesmo tempo tão subtis que nos colocam incessantemente perante a dúvida de tratar-se de uma ilusão. A relação com a Madeira será sempre um transe imagi­nário. Mas não somos apenas nós que a imaginamos, ela também nos imagina, a ilha também nos sonha, como se fossemos uma consequência do lugar, forjados nas suas entranhas, imersos dos seus abismos, levantados das mesmas encostas onde há centenas e centenas de anos, longe do ruído dos homens, cresce a floresta laurissilva como uma pálpebra que o vento primordial entreabre. A Ilha também nos sonha, nas linhas subidas das levadas que redesenham um atlas de mundos sigilosos, diferentes do nosso, nas grutas sucessivas onde os limos gotejam uma neblina gelada, no disco negro dos poços tapados pela vegetação e pelo silêncio. A Ilha é como o globo luminoso de uma lâmpada, uma incandescência, o ponto de uma estrela a fazer a chamada de todos os nomes.

 

A pele do desconhecido

Recordo o que se pode ler no livro II de “Saudades da Terra”, de Gaspar Frutuoso. Cito: «E por verem dali sobre a ilha da Madeira sempre muita névoa e vulcão, sem nunca se desfazer nem mudar, no ano de 1424 fizeram duas barcas grandes e, metendo-se nelas com os homens que consigo tinham, foram ter detrás da ilha da Madeira.» Segundo Gaspar Frutuoso, os navegadores aproximaram-se da Madeira pelo mistério que os deixava intrigados, a névoa e o vulcão que não se desfaziam nem mudavam, e os levava a perguntar que seria aquilo. E vieram, costeando cautelosamente a ilha, como se tateassem o sono de um animal, a pele do desco­nhecido. Tristão foi por um lado e Zarco por outro, numa circum-navegação semelhante à dança de certos primitivos à volta do fogo ou de outro qualquer enigma. É verdade que os historiadores têm fundadas razões para considerar o texto de Frutuoso mais um enredo romanesco do que um texto científico, e tomam as devidas distâncias em relação a ele. O autor parece ignorar as razões políticas e estratégicas que foram o motor dos Descobrimentos, bem como os contributos da técnica do tempo ou as ambições da economia. Mas um romance pode ser um ensaio sobre a alma, um instrumento de verificação das entranhas e tem, claramente, uma capacidade de representar a realidade de um modo que não fica aquém das formas científicas de abordagem. Isso fica manifesto na descrição de Gaspar Frutuoso. Ele explica que o que nos levou à ilha pela primeira vez é o que nos leva a ela ainda: um enigma, um não sei quê que nos deslumbra, um espanto repetido.

O termo espanto deriva do latino “expaventare” que descreve a forte impres­são originada por uma coisa inesperada e repentina. Se procurarmos sinónimos, encontramos assombro, admiração, surpresa. Espanto é, assim, o contacto (consciente, fulgurante, desarmado, rendido) com a vida maior do que nós, a vida em aberto, não predeterminada. No espanto, a nova e surpreendente expressão da vida prende a nossa atenção à maneira de um relâmpago, de um rasgão imprevisível. Não a conseguimos encaixar no nosso quadro habitual, pois o seu carácter inédito torna inúteis todas as previsões, saberes, experiências, etiquetas, mapas, preparações. O espanto obriga-nos a uma revisão do que sabe­mos de nós próprios e do mundo. Obriga-nos a recomeçar, como se fosse um nascer.

Outras terras são abundantes em recursos minerais, como o ferro ou o cobre, e alimentam uma indústria que faz a riqueza dos seus povos. O minério da Madeira é o espanto. Na sua paisagem enigmática, silenciosa e imensa ouve­-se respirar o mundo, como se passasse diante de nós o vento de Deus.



 

José Tolentino Mendonça
In "As ilhas do ouro branco - Encomenda artística na Madeira - Séculos XV-XVI", ed. Museu Nacional de Arte Antiga/Governo da Região Autónoma da Madeira/Imprensa Nacional
Imagem: Porto Moniz, Madeira | Vlada Z/Bigstock.com
Publicado em 02.03.2018

 

 
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