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A esperança «agarra no homem pelo coração»: Luís Miguel Cintra lê Charles Péguy (2)

Imagem Esperança | Paolo Uccello | C. 1435 | D.R.

A esperança «agarra no homem pelo coração»: Luís Miguel Cintra lê Charles Péguy (2)

«Deus confiou-nos o seu Filho, e ai de nós!/ Confiou-nos também/ a nossa salvação, o cuidado da nossa salvação./Ele fez depender de nós e do seu Filho a nossa salvação/ e a nossa própria esperança. E a nós resta-nos depositar nele a nossa esperança.// Mistério dos mistérios, sobrepondo-se a todos os mistérios,/ Ele depositou nas nossas mãos, nas nossas frágeis mãos,/ a sua esperança eterna.»

É a esperança, escreve Péguy, que acompanha o ser humano por onde ele caminhe, perto ou longe de Deus:

«As outras palavras de Deus não ousam acompanhar o homem/ Nos seus maiores excessos./ Mas esta não tem vergonha. Agarra no homem pelo coração,/ com a força que ela quer, e não o larga./ Ela não tem medo. Ela não tem vergonha./ E para mais longe que vá esse homem que se perde/ Em qualquer país,/ Em qualquer lugar obscuro,/ Distante do lar, distante do coração,/ Sejam quais forem as trevas em que mergulhou,/ As trevas que lhe velam o olhar,/ Há sempre uma luz que zela, uma chama que brilha,/ um ponto de luz./ Há sempre uma luz alerta que não se ocultará./ Há sempre uma lâmpada./ Há sempre um ponto doloroso que não cala».

A esperança é uma criança que brinca, é livre, inesperada:

«Era a procissão do Corpo de Deus./ Levava-se o Santíssimo Sacramento./ À cabeça seguiam as três Teologais./ Olhai, disse Deus, olhai essa pequena, vede como ela caminha./ Olhai para mim a vê-la./ As outras, as duas outras, caminham como gente adulta./ As suas irmãs mais velhas./ Sabem bem onde estão. São criaturas decentes./ Sabem que vão em procissão./ Sobretudo na procissão do Corpo de Deus./ Transporta-se o Santíssimo./ Elas sabem o que é uma procissão./ E que vão na procissão, à cabeça da procissão./ Vão na procissão, bem comportadas,/ caminham como pessoas adultas. Sérias./ Sempre um pouco fatigadas./ Mas ela nunca se cansa. Olhai um pouco./ Vede como ela caminha./ Anda para trás e para diante. Corre como um cachorrinho./ Não para, vai e volta,/ Faz o caminho uma data de vezes./ Diverte-se com as grinaldas do cortejo./ Brinca com as folhas e flores./ Esquecendo-se de que são decorações sagradas./ Gostaria de saltar por cima da folhagem./ São ramos verdes, colhidos verdes, espalhados pelo caminho./ Não ouve nada. Não sabe respeitar os responsórios./ O que ela queria era andar sem parar. Sempre em frente./ Saltar. Bailar. Sente-se tão feliz».

«[A esperança] obriga-nos a recomeçar dezenas de vezes a mesma coisa./ Ou ir dezenas de vezes pelo mesmo caminho./ E que é normalmente o caminho da deceção./ (Terrena.)/ Mas para ela é igual. Ela é como uma criança./ Ela é uma criança./ Pouco lhe importa obrigar a gente adulta a fazer o caminho./ A sabedoria terrestre não é assunto dela./ Ela não calcula como nós calculamos./ Calcula, ou nem calcula, ela faz as contas sem se dar conta,/ tal qual uma criança./ Como alguém que tem a vida toda à sua frente./ E pouco lhe importa se nos obriga a caminhar./ Acha que somos todos iguais a ela./ Não tem em conta as nossas inquietações, os nossos trabalhos./ Limita-se a contar./ Acha que temos, como ela, a vida toda à nossa frente./ Como ela se engana! Como ela tem razão!/ Porque não temos a Vida toda à nossa frente./ A única que conta. A vida Eterna.»

Prosseguimos a apresentação de excertos da leitura que o ator e encenador Luís Miguel Cintra fez do livro "Os portais do mistério da segunda virtude", de Charles Péguy, com tradução do poeta Armando Silva Carvalho, edição Paulinas. A sessão decorreu a 11 de dezembro, na Capela do Rato, em Lisboa.




 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 14.12.2014

 

 
Imagem Esperança | Paolo Uccello | C. 1435 | D.R.
«[A esperança] obriga-nos a recomeçar dezenas de vezes a mesma coisa./ Ou ir dezenas de vezes pelo mesmo caminho./ E que é normalmente o caminho da deceção./ (Terrena.)/ Mas para ela é igual. Ela é como uma criança./ Ela é uma criança./ Pouco lhe importa obrigar a gente adulta a fazer o caminho./ A sabedoria terrestre não é assunto dela./ Ela não calcula como nós calculamos
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