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Luís Miguel Cintra: Intervenção na entrega do Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes

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Imagem Luís Miguel Cintra | D.R.







Meus amigos, meus irmãos,

Disse-me no outro dia a irmã Mary John, do convento pequenino de dominicanas do Lumiar num ligeiríssimo tom de repreensão, que não era preciso muito para me pôr a chorar. Não sei se chegou a dizer também o tão antigo: “um homem não chora” mas foi como se o tivesse dito e a emenda foi pior que o soneto porque acho que logo choraminguei. Ou foi a irmã Maria Domingos? Não importa. Elas conhecem-me bem e é um facto, sou piegas. Espero hoje portar-me bem.

Mas boas razões dentro da minha lógica pessoal havia para que hoje brotasse dos meus olhos o habitual caudal de lágrimas, como acontece sempre que me acontece na vida cruzar-me com alguma coisa que me transcende, que se me oferece sem nada pedir em troca, que me dá alegria. E diga-se em abono da verdade que me acontece muitas vezes. Então se vejo coisa bonita, é uma desgraça. E às vezes faço batota. Vou eu à procura de motivos para chorar. Uma vez fui a Roma passar uns dias sozinho só para ter o prazer de todos os dias ir chorar para a Sistina. Outro exemplo: vou muito frequentemente a Madrid e não há vez que perca a ocasião de ir chorar um pouco diante dos Velasquez do Prado. E nesses momentos sinto o conforto de me sentir pequeno. Lembro-me da ideia de Deus. Perante os frescos de Miguel Ângelo ou os quadros de Velázquez, tenho-os por verdadeiros milagres do Espírito Santo. E falo a sério. Como foi possível a um homem “bicho da terra vil e tão pequeno”, ter posto numa tela, guiado pelo que lhe disse o pensamento, umas tintas com um pincel, e que o resultado me provoque tantas centenas de anos depois tanta emoção? Como foi possível que homens como os autores dos Evangelhos escrevessem textos tão inacreditavelmente universais que resistem a todos os maltratos que se podem imaginar e é neles que milhões de seres humanos continuam a encontrar a base da sua maneira de estar vivos? De acordo, são emoções de homem culto, mas juro que não sinto menos emoção com coisas mais banais, por exemplo, perante um grupo de crianças encantadas a olhar para um presépio. E a minha cabeça viaja do infinitamente pequeno, efémero, (e logo a ideia da morte tudo ajuda a organizar um pouco,) até um imenso espanto por tanto que, felizmente me transcende: a vida, o mundo, aquilo a a que chamamos a obra de Deus. E até o tanto sofrimento a que tantos estão sujeitos, e que o Homem provoca ao Homem, sem que se descortine razão para tão absurdos comportamentos, ou para tão injustos destinos, me espantam, me põem a rezar, a louvar Deus. E se me lembro da inacreditavelmente bela ideia da imagem do Espírito Santo como línguas de fogo a cair sobre a mãe de Cristo e os discípulos fechados no Cenáculo, como não havia de chorar? Choro porque entendo finalmente, ou me convenço que entendo, e choro porque não entendo e alguma coisa me reconduz a uma humildade que para mim é a fé em Deus. E choro, irmã Mary John, ainda não me consigo conter.

Desculpem-me este teatro com que abro o meu discurso. Culpa do júri deste prémio que com o prémio, para além de me premiar, também parece a meu propósito querer reabilitar a arte de Talma à luz da Igreja. É voz comum que a Igreja sempre se entendeu mal com o Teatro. È ideia errada.  Quem terá dito tal coisa? Ou se se entendem mal, será porventura porque entram frequentemente em competição e quem ganha é sempre a Igreja. Haverá mais magnífico teatro que todo o aparato das celebrações solenes? E quantas peças de teatro religioso não se escreveram ao longo da História? Basta talvez lembrarmo-nos de que um grande poeta como foi Gil Vicente dedicou grande parte do seu tempo a integrar o teatro nas vias da liturgia. Não tenho nada contra, e tudo o que seja romarias, procissões, arte sacra, até touradas, coisas que considero mais profanas que espirituais e de que no entanto gosto sem condições, talvez porque são ainda formas de convívio, mais que os desmesurados desafios de futebol. Mas o próprio assunto do despique se torna facilmente espectáculo, se é que, em piores momentos não se torna mesmo em vanglória, para alguém que apenas procura viver o espanto e perceber o mistério do género humano. Mas foi consciente do perigo que resolvi que trabalhar no teatro era boa maneira de viver. Obrigado por me irem resgatar do que também vocês, júri, sabem que mais perto está do sagrado do que se julga, dado que é lugar para os homens se encontrarem com os outros. Nem sempre é o inferno, em que por este andar da civilização ocidental, também ameaça tornar-se se se deixar tornar apenas em mais um artigo em permanente promoção no mercado de sucesso.

Meus irmãos, é matéria tão delicada a que o dia de hoje destina ao meu sermão, que, parafraseando o Padre António Vieira cuja pele já fui convidado a vestir muitas vezes, a começar por Manoel de Oliveira  no seu filme  "Palavra e Utopia", e estando nós hoje em Fátima, num santuário que é dedicado àquela que ouviu de um anjo, que ia ser mãe de Deus, e para que ela nos possa ajudar a entrar sem, que se saiba, nem formação nem licença, nos terrenos da teologia e nos ajude a não disparatar, ouso desafiar-vos a recitarmos  em latim que era a língua em que a nossa teve origem, a oração de Nossa Senhora:
 Ave Maria
Gratia plena
Dominus tecum
Benedicta tu
In mulieribus
Et benedictus
Fructus Ventris tui, Jesu
Sancta Maria,
Mater Dei,
Ora pro nobis peccatoribus
Nunc et in hora mortis nostrae
Amen

Voltemos agora ao nosso tema: porque me comove este prémio Árvore da Vida?

Primeira razão: chama-se Padre Manuel Antunes, com quem tanto aprendi na faculdade de letras e cuja amizade foi para a minha família fundamental. Quantas vezes para ouvir mais meia hora de conversa com o meu pai, fui depois do jantar, com o meu pai, levá-lo à sede da Brotéria onde vivia tão solitário e tão modestamente, salvando a honra do convento, como se costuma dizer, escrevendo sob vários pseudónimos todos os textos da revista dos Jesuítas! É como se me fosse lícito fantasiar que foi ele quem, saído da sua terrível imobilização, consequência da mesma doença que nos atingiu aos 3 de quem tenho estado a falar, como se no quarto do hospital de Santa Maria onde pela última vez o vi, se tivesse reanimado para me dar este prémio. Vejam o mal que pode fazer a um menino como eu, ter visto um filme como o "Marcelino Pão e Vinho" em que se filma o milagre de um velho crucifixo em tamanho natural, esquecido no sótão de um mosteiro, se animar e o braço da estátua vir receber o pão que o menino queria estender a Cristo. Mas logo de pequeninos nos metem na cabeça teatros que não ajudam a pensar. O que eu pergunto é apenas quem foi que me atribuiu este prémio e porquê?

E aí vem a 2ª razão:

Vi há dias num teatro da minha cidade natal, em Madrid, uma encenação, por sinal pouco interessante, da famosa obra de Lope de Vega, grande autor de muitas comédias do chamado século de ouro espanhol, Fuenteovejuna. É a obra que tem o célebre momento em que os habitantes da aldeia de Fuenteovejuna, depois de terem tido a coragem para responder com o assassinato do alcaide à violação que ele fizera da aldeã Laurencia, e quando lhes perguntam quem matou o Alcaide respondem em coro Fuenteovejuna, assumindo colectivamente a responsabilidade da iniciativa do acto justiceiro. A generosidade de assumir colectivamente um acto individual toca-me profundamente e vejo nela uma atitude de natureza cristã. Toda a paixão de Cristo é simbólicamente e no sentido inverso, isso mesmo: ele assume o pecado do Mundo, independentemente de qualquer sentimento de justiça, sem fazer depender nada de quem tem ou não tem razão, o que a não ser assim, seria dar aos homens um poder que só depois do fim dos tempos se transformará em revelação da Caridade. Como dizemos no Credo: Creio na ressurreição dos mortos e na remissão dos pecados. Devo dizer que era notório que para os jovens que representavam essa cena no espectáculo de Madrid, o assunto lhes dizia pouco, tanto a violação como a assunção colectiva da responsabilidade, ou ainda a coragem de desobedecer. Mas a mim esse episódio lembra-me o que de comovente existe na ideia inicial de uma igreja católica. Um grupo natural porque têm em comum uma fé, uma confiança, que os torna irmãos e que tem uma força que move montanhas. É claro que sei que a nossa Igreja Católica muito cedo deixou de ser isso. Mas mais forte que a rejeição ou condenação de todos os seus erros, que é estéril, e só interessa ao teatro do prestígio de quem acusa, o que nos faz igreja é a confiança no que nos transcende. Justamente o teatro, a minha necessidade de estar e contracenar com os outros, tem-me levado de encenação em encenação a pensar mais neste assunto. E a ter permanentemente na cabeça um desejo ou utopia de Igreja que me comove e que não sou o único a ter. Que a hierarquia da Igreja (ideia que foi a que infelizmente herdámos e que levada às suas últimas consequências me pareceria até  anti-cristã,) reúna um júri de pessoas fora dessa hierarquia e que os incumba de escolher outro que reconhece como irmão, e que esse júri me nomeie a mim como reconhecido companheiro de pessoas em quem eu por meu lado também reconheço um comportamento exemplar em diferentes campos e de modos diferentes, em especial o Arquitecto Teotónio Pereira, e o meu tão amigo Manoel de Oliveira, e sobretudo um tal amor à vida que os reconheço de facto irmãos, irmãos em Cristo e em tudo o que me tem levado a trabalhar sem parar, comove-me, surpreende-me e faz-me chorar de alegria. Fantasio, se quiserem. Mas é para mim como se à pergunta: quem me atribuiu este prémio ? me fosse respondido em coro: a Igreja Católica. Mais ou menos como quando ninguém apedreja a mulher adúltera.

Nunca fui muito capaz de viver sem os outros e sem ser para os outros. Como no fundo tantos e tantos homens e mulheres. São poucos os que, contra a sua própria natureza, aguentam a cegueira voluntária em que se colocam quando se deixam levar por um quotidiano social que as cidades contemporâneas prevêem e se deixam dominar por um poder sem cara, que nos banaliza e nos despreza. Parece-me que tem de haver uma mudança se não quisermos que o mundo e com ele a nossa Igreja mais uma vez se recolham na oração e em tudo o que em si transporta, visto que a sociedade capitalista se tornou tão monstruosamente castradora de todas as liberdades, tão burocrática, que cada vez menos há lugar para repararmos uns nos outros ou para assumirmos um direito esquecido da dignidade de cada um diferente da do outro. E cada vez mais dou comigo a sonhar com uma Igreja como julgo que Jesus encarregou São Pedro de a fundar.

Hoje nem tudo é mau. A Igreja, tendo-se tornado também um Estado político, foi parar ao mesmo saco (não, o de Judas era pequenino, só tinha 30 moedas e já se dissolveu nos ossos dos estrangeiros enterrados no Haceldama) que o de toda a vida política. Sabemos que Deus escreve direito por linhas tortas, ou que nem precisa de papel. Sentada ao lado dos outros Estados, tentemos que ela mais ou menos e as vezes que for preciso, transforme o vício em virtude e que, sem dinheiro nem armas, com a autoridade que não ter nada a perder, ser apenas Palavra, lhe confere, seja nossa representante activa, mas com o trunfo “único” que é forçoso que recupere de, com a ascendência de Cristo, não ter mesmo nada a perder, (bem, que não deite fora a minha Capela Sistina!). Que defenda a paz, que esteja fora das armadilhas da acumulação de capital a que conduz a propriedade privada, que recupere para o mundo o ideal de pobreza que os artistas já tantas vezes lhe apontaram, aquele que o ateu Pasolini quis experimentar “representando no cinema o Evangelho segundo São Mateus, com o respeito pela religião dos pobres, seres humanos grandes como a liberdade que transportam, o mesmo Evangelho que Oliveira recreou no seu "Acto da Primavera", com a filmagem de uma representação teatral popular em Trás-os-Montes e que ainda hoje continua  talvez a ser a primeira pedra mais pesada da minha própria fé. Que a Igreja se orgulhe das condições que tem para ser a terra sem fronteiras da imensa Liberdade, a única situação em que o Homem poderia recuperar a responsabilidade que Deus lhe deixou. Que a Igreja esteja presente na gestão da política mundial e que aí represente todos aqueles que pelo menos de forma simbólica, sem armas e sem dinheiro,  lutam por seguir o único Mandamento que Cristo nos deixou, segundo conta o meu amado Santo, esse genial S. João. 

Na minha imaginação, calculem!, gostava que tivesse sido o grupo dos frades que São Francisco reuniu, tal como Rossellini os representou nesse filme maravilhoso que é o "Santo dos Pobrezinhos" quem me tivesse dado este prémio. Disparate, claro está. E eles não foram com certeza tão divertidos e puros como o cinema os pintou. Mas é como se me dissessem: não fiques aí sozinho. Ficamos aqui todos a pensar. A tratar do que Deus deu. A viver o Espanto. A brincar. Tenho permanentemente na cabeça uma ideia de Igreja ideal onde todos fizessem um trabalho que se parecesse com brincar, jogar com os outros, estabelecer cumplicidades, sem sofrimento nem culpa. Tenho demasiada consciência do crime que fazemos (e já me pus a falar como se me tivessem encomendado o sermão, como se falasse em nome da História) mas é, pelo menos, acreditem!, de coração nas mãos que o faço. Os poetas falam melhor: há uns versos do "Anjo do Paraíso", creio, que no "Breve Sumário da História de Deus" de Gil Vicente, explicam o que sinto e que são extraordinários: “Adão é deitado de sua alegria porque não pôde com o bem que Deus lhe queria.” Talvez o Papa Francisco, tanto mais que escolheu este nome para ser Papa entendesse o que quero dizer.  Comove-me que a Igreja me dê um prémio que para além de significar: agradecemos o teu trabalho, de que gostamos, diz, ou eu gostava que dissesse: reconhecemos-te como irmão. Mas do que eu gostava mesmo era que não fosse preciso haver prémios nenhuns. E desde já vos peço licença para não aceitar a sua componente monetária. Tenho muito má relação com o dinheiro e sabe-me melhor assim.

Mas há ainda outro assunto em que me agrada este prémio tal como a acta do júri o justifica: refere-se o júri à qualidade do que tudo o que no meu trabalho de actor se refere à palavra e às palavras: (eu preferia dizer ao “cuidado com”). É verdade, foi sempre muito importante para mim o cuidado com as palavras. A minha tardia necessidade de me reaproximar da prática religiosa, passa por um momento em que sem qualquer espécie de reflexão e depois de bastantes anos de silêncio, me saíram boca fora as palavras do Pai Nosso, a oração que Deus nos ensinou: perante o cadáver de meu irmão. E é o passo da missa que mais me faz chorar, irmã Mary John. Porque as próprias palavras já são pensamento e naquele momento não foi revolta o que senti, foi impotência. Foi fé, foi o reconhecimento de que alguma coisa de inexplicável era maior que o entendimento humano. E no entanto, num gesto quase automático esse foi um momento de exercício da liberdade e de entendimento do que o pensamento assim concebido na sua relação com as palavras o Cristianismo nos concede. Põe-no João na boca de Cristo, na oração do monte das oliveiras: “eu manifestei o teu nome, eu dei-lhes a tua palavra.” É justamente a consciência de que este reconhecimento da palavra como espaço de responsabilidade e liberdade absoluta é base do pensamento de Cristo aquilo que me tem transmitido a confiança de que um dia finalmente se fará luz sobre o que julgo ser um erro do catolicismo, traduzir em pensamento autoritário guardado por funcionários, o que na origem é Verbo, mistério a ser vivido na sua identidade pela responsabilidade de cada um. Penso que neste contexto o amor aos outros dos cristãos não pode nunca passar pelo habitual sentimento da compaixão humana, que na maior parte das vezes, nos faz olhar o próximo de cima para baixo, dos felizes para os infelizes, e mascara o conforto de uma hierarquia em que há mais fortes e mais fracos, ricos e pobres, inteligentes e estúpidos, nobres e plebeus, chefes e súbditos em vez de ser pura solidariedade para um único destino: o amor.

Não foi por acaso que escolhi um ofício que tem a palavra como seu coração. E decidi, sim, ajudado e empurrado mas eu escolhi, escolhi que fosse assim, e que eu nunca esquecesse que é com as palavras que comunicamos uns com os outros, mas também é com elas que amamos, e que compreendemos, pensamos a realidade. Não se pense que o teatro não pensa. Pelo contrário, o teatro que gosto de fazer, já lhe chamei mesmo máquina de pensar. Para ler poesia ou para interpretar uma personagem o meu principal trabalho é reconstruir o eu capaz de as proferir.   E a brincar a brincar, já passei pela cabeça de vários génios, de alguns santos, de demiurgos, e até, mais recentemente vi-me confrontado com a tarefa de sugerir a voz de Cristo nas 7 últimas palavras na cruz. É isso que representar permite. Percebe-se logo, quando se faz este trabalho que aquilo a que chamamos língua permite muitas funções e é reactualizado dos mais diferentes modos a cada leitura. Quando se lêem os textos sagrados sentimos imediatamente quanto estão incompletos sem que cada um de nós deles se aproprie e que só uma forte componente simbólica que cada um de nós lhe possa atribuir de acordo com a constituição da sua própria pessoa, as referências de que dispõe, as suas memórias afectivas, a sua experiência, lhes completará o sentido que é muito importante ir sempre mantendo em aberto. As palavras dos livros sagrados, traduzem como todas, um sentido, um pensamento. O que mais nos enriquece na sua leitura é o que tenho vindo a descobrir: o apropriamento individual que lhes decifre o sentido universal, não porque para todos seja o mesmo mas porque em todos os povos pode ter o seu sentido específico.

Arrepia-me o início do Evangelho de João. No princípio era o Verbo e o verbo estava em Deus. A palavra, segundo o seu Evangelho, está no ponto de partida da existência da humanidade. E o Verbo se fez carne. E a carne criou pensamento. Entendo que o que estava em Deus passou para a consciência humana. Interrogo-me sobre o que diz o Génesis, que Deus disse ao primeiro homem que nomeasse todas as coisas, e é impressionante como o nome de cada um é importante nos textos bíblicos. Nomear, aponta, identifica, reconhece. Falo dos nomes próprios. Cada homem tem o seu. É essa primeira função da língua que é no fundo o reconhecimento da obra de Deus. Ah, quem conseguisse ser poeta sempre.

A FORMA JUSTA
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse- proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse fiel à perfeição do universo.
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.

Escreveu Sophia.

Os homens não se chamam todos Donald Trump. Nos Evangelhos chamam-se Tiago, João, Pedro, Tomé, filhos de outros com nome também, etc. Mas aos outros seres ou coisas o Homem fez de outra maneira, ao dar-lhes nome já os negou, substituiu o seu reconhecimento pela sua representação, começou a exercer sobre a obra de Deus poder, análise, síntese, começou a raciocinar, quando na sua invenção das palavras arrumou o universo com palavras que classificavam as coisas. Deus lhe deu esse poder, a inteligência : reconhece ou conhece a criação. Mas a tudo o que não é homem o homem não nomeia, inventa palavras que representam já as coisas, que são já abstracção. Ele não nomeia uma por uma as pedras nem as árvores nem as aves. Nomeou espécies para os animais, para as coisas inventou uma palavra que as substitui na sua individualidade. Se eu digo pedra eu estou a falar de muitas muitas coisas diferentes, e vendo bem estou a substituir a sua identidade por uma palavra, estou a dominá-las, para poder falar com os outros homens. Estou a matar. Estou a começar a ter poder, a competir com Deus. E quando falo com os outros uso a sintaxe que é transcrição de um raciocínio, é pensamento. Eva e a serpente conversaram. Não usaram as palavras como oração. Passa a haver duas palavras, a que nomeia e a que classifica o que não devemos deixar de tomar por sagrado, a obra de Deus. Mas o pensamento humano que as palavras operam, não pode vir substituir com palavras a ideia de Deus.

Mas a palavra é o que permite que os homens comuniquem com os outros homens e é o instrumento do seu pensamento. As palavras são também o que dá unidade ou continuidade à História. Como posso dizer que recuso a responsabilidade do que no passado fizeram os homens se no próprio acto de falar trago vivo em mim, pela própria língua, o tempo que me antecedeu? Foi aliás este pensamento que me convenceu que devo também assumir a responsabilidade de tudo o que de errado hoje vemos que a Igreja fez. É difícil assumir tão grande cegueira se como razão bastava o único mandamento: amai-vos uns aos outros. Foi a pensar sobre as palavras e a fazer o trabalho de me preparar para ler as que outros escreveram que comecei provavelmente a divagar, mas seja como for, ganhei a noção de que com as palavras articuladas pela gramática pensamos, dominamos a matéria mentalmente, eventualmente deixamos o real, exterior a nós, substituímo-lo manipulamos a realidade, damos cabo do que Deus criou inventando regras, leis, obrigações, mentiras, instrumentos de tortura. Inventámos mesmo outro substituto do Bem ou da Alegria, de Deus: um valor sem matéria, virtual, falso, que só existe no que ele consegue manipular os homens muito mais do que as palavras, e que todos sejam potenciais concorrentes: o dinheiro até finge que na guerra que vivemos, o perigo está em quem tem menos dinheiro.

É com a leitura em voz alta (e isto é importante porque não me deixa esquecer que nesse momento estou num grupo e que a leitura em conjunto é o que mais solidifica a consciência do que temos em comum), é com a leitura dos grandes textos da Bíblia que mais me tenho educado. Ler em voz alta o Apocalipse, o Cântico dos Cânticos, o livro do Eclesiastes, o Evangelho de João, a paixão de Cristo segundo os diferentes evangelistas, são os trabalhos que mais me deram a entender, não havendo sequer quase nada que a cada nova leitura se acrescentasse para além de uma atitude que em boa hora, quando o padre Tolentino há 6 anos me pediu que escrevesse pra o seu livro "Um Deus que Dança", um texto sobre a oração, defini como um estado, um estado de humildade, um estado de contemplação, um estado de alegria. Isso é de facto para mim, rezar. E com essas e todas as outras leituras profanas a que tenho dado voz e que encaro com a mesma seriedade que as sagradas, que também estamos diante de Deus nos momentos mais profanos, e tenho entendido como no fundo envelheceu a nossa pobre razão, agarrada à limitada verdade da sua forma lógica e discursiva. Ai de quem ainda pense assim, por extenso. Passa-lhe por certo a vida ao lado, nenhuma novidade se introduz na passagem do tempo e irá cada dia escurecendo mais.

Só que acredito que nós já não pensamos assim, ninguém é já gramaticalmente correcto. Explícito. Toda a Bíblia é um maravilhoso convite a deixarmo-nos pensar de outra maneira. Não nos reprimindo, deixando que uma nova palavra surja. Frases curtas, menos vocabulário, estrangeirismos, pois claro, são perdas. Mas quanto não se ganha se usarmos o não dito, o irracional, as contradições, a livre associação de ideias, o imprevisto, a desordem. Aquilo que cada um conhece de si próprio e em si prepara para se dar aos outros. Lembrem-se de que foram homens como nós que escreveram Jesus e tudo o resto, querendo na palavra, inscrever uma Revelação. Para que os Homens reconhecessem o filho de Deus e quisessem seguir o seu mandamento. E cada dia me espanta como o escreveram, que pensamento claro , exposto, sem máscaras, tinham aqueles escritores. A Bíblia não raciocina, produz imagens, nomeia, simbolicamente ou não, dá a ver o que a liberdade de cada um transformará em pensamento. E na sua diversidade constitui um monumento ao Homem tomado como filho de Deus. À sua capacidade de viver em tantos níveis de consciência, à liberdade e responsabilidade que Deus para ele pensou. A de pensar também, sem relações de poder nem lutas de argumentos. Viver sem medo. Aceitar que não sabemos, e no entanto amamos. E tudo isto passa pelo uso que fazemos das palavras.

Tenho por fundamental uma educação que volte a dar à palavra a importância que tem. Ninguém tem liberdade se não tiver com que inventar o que diz. E o que diz um analfabeto pode ter a mesma importância que o que diz o doutor. E tem por certo mais, que as já raríssimas palavras já estão de tal modo reduzidas a siglas que nem chegam a ter som: sms é uma palavra ou três letras? Não são palavras, são teclas o que ensinamos agora aos alunos, formas de preencher modelos, e lixo impresso para encher formulários e ofícios que enchem dossiers e secretárias de ministérios, cada vez mais longe da realidade que nomeiam, querendo resolver vidas humanas com artigos de códigos penais, à força de tempo gasto com pleonasmos, eufemismos, e sofismas, pseudo-contratos coletivos de trabalho, administração, funcionários, árbitros mecânicos, agentes de uma ineficaz mas toda poderosa justiça que por sistema se nega a si própria na figura dos acordos e das habilidades de manipulação de artigos e pseudo-leis e que por sistema substituem o julgamento para que se saiba quem, à luz do estado tem razão, através de verdadeiras borrachas  de apagar verdades que se compram com dinheiro.

Gosto demais da vida para gostar da maneira como os homens deixaram decair aquilo que tomámos por civilização e se deixam governar por uma casta de abutres que se alimentam do lixo numa lógica de auto satisfação que já nem no valor do dinheiro se justifica e que cada vez mais o substitui por um mais que falso prestígio. Não vale já a pena, meu querido Manoel discutirmos se o homem descende de Caim ou de Abel. O homem está à beira de desistir da sua humanidade. Todos temos consciência de que os sistemas políticos que a humanidade inventou e tomou por civilizados como forma de organizarem a sua vida política se tornaram em máscaras de "halloween", as democracias deixaram de representar os interesses da maioria ou das várias minorias de cidadãos.

Tenho para mim que o nosso tempo, apesar de, em reacção a este estado de coisas, aparentar em termos numéricos um regresso ao cristianismo, talvez nos exija uma força de convicção, uma responsabilidade heroica de que creio que o Papa já tomou consciência mas para que estamos mal preparados. Tudo se anula nesta voragem do medo de sofrer e da ausência de valores culturais. Não será entregando-nos a uma passividade que deixarmos tomar por contemplação que conseguiremos o que os católicos deveriam tomar como missão: a evangelização do nosso tempo é a luta contra o poder do dinheiro, é o regresso à simplicidade original. A fé terá de ser o que não nos deixe repousar na busca de refúgios individuais nem sonhos pessoais de felicidade. E a força capaz de lutar contra a civilização da desconfiança e a obsessão da segurança. Que a Igreja me perdoe mas creio que a situação política mundial é tão grave, que seria tempo de deixarmos de perder tempo com questões evidentemente abusivas da responsabilidade de cada cristão, todas as questões sexuais, em leigos e eclesiásticos, as excomunhões, perdões e autorizações, carreiras religiosas, acumulação de riquezas, privilégios e castigos e voltarmo-nos para o mundo. Nem que seja apenas respeitando quem, sem referência cristã, tem o amor aos outros que a vida pede a todos, construindo finalmente a fraternidade que ainda se não construiu, a partir das relações pessoais a solidariedade entre os povos. Descobrindo pouco a pouco que seja, com a prática de vida que os Evangelhos nos pedem, onde se aloja o cancro que está a minar a obra de Deus.

Perdão, meus irmãos, falei demais. Mas tão nobre matéria a isso me obrigou e só vos não peço para rezar o Pai Nosso, Mary John, porque me punha a chorar.



 

Luís Miguel Cintra
Entrega do Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes
Fátima, 3.6.2017
Publicado em 05.06.2017

 

 
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