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"Livro sobre nada"

Imagem Livro da sabedoria (det.) | Nicholas Roerich | 1924 | D.R.

"Livro sobre nada"

Pretexto

O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852. Li nas "Cartas exemplares" organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc., etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.

 

Desejar ser
(2.ª parte)

«O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser» (Padre António Vieira em "Paixões humanas")

1.
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito. (...)

3.
Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre-diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.

4.
Escrevo o idioleto manoelês archaico (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras algumas solenidade - uso bosta.) Sou muito higiénico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão.

5.
Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim. (...)

7.
Sei que fazer o iconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que hamonizasse os seus conflitos. Até que apareceu "Flores do mal". A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)
As antíteses congraçam.

8.
Nasci para administrar o à toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc. etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

9.
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.

A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

10.
Mosca dependurada na beira de um ralo -
Acho mais importante do que uma joia pendente.

Os pequenos invólucros para múmias de passarinhos
que os antigos egípcios faziam
Acho mais importante do que o sarcófago de Tutancâmon.

O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto -
Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.
Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais importante do que uma Usina Nuclear.

As coisas que não têm dimensões são muito importantes.
Assim, o pássaro "tu-you-you" é mais importante por seus pronomes do que por seu tamanho de crescer.

É no ínfimo que eu vejo a exuberância.

11.
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo - elas podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.) (...)

13.
Venho de nobres que empobreceram.
Restou-me por fortuna a soberbia.
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.

14.
O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.

 

O livro sobre nada
(3.ª parte)

- É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

- Tudo que não invento é falso.

- Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

- Tem mais presença em mim o que me falta.

- Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

- Sou muito preparado de conflitos.

- Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

- O meu amanhecer vai ser de noite.

- Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.

- O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.

- Meu avesso é mais visível do que um poste.

- Sábio é o que adivinha.

- Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.

- A inércia é meu ato principal.

- Não saio de dentro de mim nem pra pescar.

- Sabedoria pode ser que seja estar numa árvore.

- Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.

- Peixe não tem honras nem horizontes.

- Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.

- Eu queria ser lido pelas pedras.

- As palavras me escondem sem cuidado.

- Aonde eu não estou as palavras me acham.

- Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

- Uma palavra abriu o roupão para mim. Ela deseja que eu a seja.

- A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

- Quero a palavra que sirva na boca de passarinhos.

- Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.

- Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.

- Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.

- O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

- Por pudor sou impuro.

- O branco me corrompe.

- Não gosto da palavra acostumada.

- A minha diferença é sempre menos.

- Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.

- Não preciso do fim para chegar.

- Do lugar onde estou já fui embora.

 

O Dia Mundial do Livro assinala-se a 23 de abril.

 

Manoel de Barros
Publicado em 23.04.2016

 

 
Imagem Livro da sabedoria (det.) | Nicholas Roerich | 1924 | D.R.
Nasci para administrar o à toa/ o em vão/ o inútil./ Pertenço de fazer imagens./ Opero por semelhanças./ Retiro semelhanças de pessoas com árvores/ de pessoas com rãs/ de pessoas com pedras/ etc. etc./ Retiro semelhanças de árvores comigo./ Não tenho habilidade pra clarezas
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá/ mas não pode medir seus encantos.// A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem/ nos encantos de um sabiá
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo - elas podem um dia milagrar de flores.// (Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus./ Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
Venho de nobres que empobreceram./ Restou-me por fortuna a soberbia./ Com esta doença de grandezas:/ Hei de monumentar os insetos!/ (Cristo monumentou a Humildade quando beijou os pés dos seus discípulos./ São Francisco monumentou as aves./ Vieira, os peixes./ Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos./ Charles Chaplin monumentou os vagabundos)
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria
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