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Livro em papel: A perfeição inigualável de um objeto do futuro

Livro em papel: A perfeição inigualável de um objeto do futuro

Imagem evgeny atamanenko/Bigstock.com

Por leitura entendo aqui a leitura dos livros: não a rápida olhadela a mensagens via correio eletrónico ou no telemóvel, e ainda menos entendo por leitura os brevíssimos "tweets" aqui e ali que se esquecem um segundo depois. Por leitura entendo a de um objeto de papel, composto por uma quantidade variável de páginas, que, como escreveu Erri de Luca numa bela narrativa, implica que a cada mudança de página desloquemos o olhar «do alto para a esquerda». Com a expetativa consciente, muitas vezes repleta de emoção, do que encontraremos nas páginas que o nosso olho está prestes a ler. Velozmente, talvez até vorazmente, ou lentamente, penosamente: depende do nosso grau de familiaridade com a leitura, do conteúdo do texto, da emoção que o livro nos provocou ou da curiosidade de compreender cada vez mais, mesmo que com esforço.

Porque um livro não se assemelha em nada às leituras que se podem fazer com um "e-book" ou com textos que se encontram na internet. O livro é um objeto que tem vida própria, que tem uma personalidade revelada pela capa, pelas dimensões, pelo editor. Às vezes, quando acabou de sair da tipografia ou é muito velho, até pelo odor. Não é só uma sucessão de palavras impressas que até se podem destacar e copiar, sem lhes compreender bem o peso e a veracidade: porque os textos na internet parecem todos iguais, todos verdadeiros enquanto estão em rede. Os livros, ao contrário, revelam logo, a partir da capa, do editor, do aspeto exterior, a que classe pertencem: se são para manejar com reverência e respeito, ou para levar quando se passeia e ler em qualquer lado, inclusive fazendo orelhas às páginas ou levantando-os para os ler melhor. E por isso ao olhar para um livro sabemos intuir - pelo menos em grandes linhas - o peso do que encontraremos escrito.

A leitura de um livro, que é sempre suficientemente longa para requerer um pouco do nosso tempo, implica por isso silêncio, recolhimento, solidão. Tudo condições que parecem muito difíceis de realizar nas nossas vidas, sempre imersas no barulho, no afã de mil coisas, de mil contactos que talvez não suavizem a solidão, mas enchem a vida.



Como acontece em todas as atividades importantes, o início é árduo, mas depois é-se abundantemente recompensado porque o hábito de ler torna-se parte da vida, e faz companhia quando se está só, ajuda quando se está triste. Um livro é um companheiro mudo e fiel, sempre disposto a dividir o seu conteúdo connosco



Por isso ler hoje um livro pode ser considerado quase um ato heroico, ou pelo menos extraordinário. Precisamente por isso fazê-lo é interessante, e importante. O livro alimenta a nossa imaginação, quer abstrata quer visual, como nenhum outro instrumento pode fazer, porque cria estímulos que a nossa mente traduz em conceitos e imagens, em vez de fornecer conceitos e imagens já feitas, como a internet. E nisso reside o seu altíssimo valor na educação do ser humano, que se habitua assim a pensar sozinho, a imaginar sozinho sem suportes externos.

Ler é a única condição que pode desenvolver aquela qualidade hoje tão na moda que se chama criatividade. Porque para criar é preciso primeiro alimentar o nosso cérebro, a nossa intuição, a nossa fantasia. E nada o sabe fazer melhor do que um livro, isto é, de uma leitura solitária e silenciosa que permite fazer entrar em profundidade os conceitos, as descobertas, as ideias, precisamente no local onde outras nascerão.

Ler um livro não é um ato espontâneo: para ler é preciso treinar-se, cada vez mais, cada vez melhor. De início a concentração requer disciplina, esforço. Como acontece em todas as atividades importantes, o início é árduo, mas depois é-se abundantemente recompensado porque o hábito de ler torna-se parte da vida, e faz companhia quando se está só, ajuda quando se está triste. Um livro é um companheiro mudo e fiel, sempre disposto a dividir o seu conteúdo connosco.

Não é preciso acreditar - como muitos fazem - que a leitura de um livro é uma prática antiquada, em fase de abandono para ser totalmente substituída pelos "tablets" e similares. O livro é um objeto do futuro pela sua perfeição inigualável: não requer energia, nunca se descarrega, pode ser lido em todo o lado e sempre, é suficiente uma fonte de luz, mesmo frágil como uma vela. É um objeto que se pode levar facilmente, que revela uma grande resistência: se enxuto resiste à água e sabe enfrentar o frio e o calor excessivos, o bolor, e muitas vezes sobrevive durante séculos. Só teme o fogo e os roedores. Por isso é muito mais resistente do que um "tablet", não desperdiça energia, oferece muitíssimo pedindo pouco. É verdadeiramente difícil imaginar que a humanidade possa dispensar o livro, e portanto esquecer a verdadeira leitura. Haverá sempre alguém curioso por descobrir o que será contado «do alto para a esquerda», voltando cada página.



Imagem D.R.




 

Lucetta Scaraffia
In "L'Osservatore Romano"
Trad.: SNPC
Publicado em 25.05.2017

 

 
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