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Lídia Jorge sobre o P. Manuel Antunes: «Bom mesmo era apenas escutarmos»

«Como manter, então, os olhos presos do caderno de apontamentos? Tomávamo-lo à vez, de empreitada, reuníamos passagens, comparávamos, a custo reconstituíamos as aulas. Bom mesmo era apenas escutarmos. Quem alguma vez teve a felicidade de conhecer um mestre, compreende o que estou a dizer. Estabelece-se um vínculo para a vida que é inimaginável para quem o inspira, mas denso e inquebrantável para quem o recebe.»

É com estas e mais palavras publicadas na mais recente edição do “Jornal de Letras” que a escritora Lídia Jorge evoca o tempo em que, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em plena década de 60, foi aluna do P. Manuel Antunes, de quem a 3 de novembro se assinala o centenário do nascimento.

Parte desta experiência vai «tomando assento cada vez com mais intensidade entre as realidades imprescindíveis», assinala Lídia Jorge, que se refere ao religioso
falecido a 18 de janeiro de 1985 como «figura extraordinária» que proporcionou aos estuantes universitários «uma experiência intelectual inaugural e única».

«Foi nas suas aulas que a definição de determinados conceitos permitiram que várias gerações partissem para a vida munidas de instrumentos de análise para interpretarem o mundo herdado, e encontrassem no seu rasto o vigor necessário para construírem aquele outro mundo que haveria de ver», salienta o artigo.



«Havia naquele professor um tal entusiasmo pelo conhecimento que se estabelecia entre todos uma aliança tácita, fundada no respeito pelo saber»



Após referir que vê no P. Manuel Antunes «um erudito da transformação, um pensador solene, eminentemente livre», Lídia Jorge pergunta-se por que motivo associa ao sacerdote jesuíta, «homem atado ao dogma, ministrando aulas sobre História da Cultura Clássica, num tempo de ditadura, e numa sociedade fechada», o «sentimento de liberdade», de «alegria incontida» e de «emancipação e destreza da alma». «Difícil de explicar», admite.

«Depois eu compreenderia, ainda que na altura não dispusesse das palavras certas, que o religioso que tínhamos na nossa frente se ocupava de um discurso radicalmente laico, mas que ao respeitar a tentativa de discernir as raízes dos vários pensamentos, o fazia com tanto respeito e empenho, que o seu processo de exposição se tornava litúrgico», observa.

Com efeito, prossegue Lídia Jorge, o P. Manuel Antunes «citava os poetas gregos em grego, os latinos em latim» e os «alemães em alemão». «Sabia demais, nós sabíamos de menos. Mas acho que entre professor e alunos, entendíamo-nos. Nunca assisti a desinteligências por esse tremendo desnível. Havia naquele professor um tal entusiasmo pelo conhecimento que se estabelecia entre todos uma aliança tácita, fundada no respeito pelo saber.»

«Ele não só nos fornecia o alfabeto primário dos conceitos que nos permitiam criarmos a nossa linguagem autónoma, capaz de a partir dos seus signos lermos e escrevermos o nosso mundo, como nos contaminava com o entusiasmo pela vocação de discernir até onde é possível a nossa compreensão alcançar. Assim se compreendia que o professor se empenhasse em citar Platão com tanto fervor quanto Santo Agostinho, Hegel ou Marx e Engels», sublinha.



«Mas é das suas aulas que eu me lembro, e sinto perante essa lembrança a mesma nostalgia que experimento perante o mundo que ora se fecha, ora se ilumina, para em seguida de novo ficar opaco. Nesse sonho, a sua figura continua a avançar levando-me pela mão através do bosque do pensamento»



O ensino do P. Manuel Antunes «não parecia empenhado em eleger um pensamento correto, antes tomava todos os sistemas como dignos, e a todos interpretava como tentativas de se atingir realidades impalpáveis, inacessíveis à compreensão dos homens, mas cujos caminhos estreitos, abertos por cada um deles, tecia uma parte dos alicerces da humanidade balbuciante» dos alunos.

Elevando «a união e a fraternidade como ideais galvanizadores», o P. Manuel Antunes revelou-se, após o fim do regime ditatorial ocorrida na sequência da revolução de 25 de abril de 1974, «como o pensador democrata que era», tendo sido «brilhante como antes havia sido enquanto silencioso conspirador por ideias».

«Mas é das suas aulas que eu me lembro, e sinto perante essa lembrança a mesma nostalgia que experimento perante o mundo que ora se fecha, ora se ilumina, para em seguida de novo ficar opaco. Nesse sonho, a sua figura continua a avançar levando-me pela mão através do bosque do pensamento», assinala Lídia Jorge.

«O Padre Manuel Antunes, sj (1918-1985), é considerado um dos pensadores e pedagogos mais notáveis do século XX português. Ensinou várias gerações de estudantes, cerca de 15 mil, que frequentaram as disciplinas que lecionou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, desde 1957 até à sua morte», destaca a página do congresso internacional “Repensar Portugal, a Europa e a globalização – 100 anos – Padre Manuel Antunes, SJ”.

A iniciativa, que decorre de 2 a 6 de novembro na Assembleia da República, na Casa da Cultura da Sertã, vila onde nasceu, e na Fundação Calouste Gulbenkian, pretende «pensar os grandes temas e problemas» de Portugal «em articulação com as grandes questões da Europa e do mundo globalizado», contando com dezenas de oradores, entre os quais o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), José Carlos Seabra Pereira.

Em nome da Conferência Episcopal Portuguesa, o SNPC atribui anualmente desde 2005 o prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, com o patrocínio da Renascença, a um percurso ou obra que refletem o humanismo e a experiência cristã.


 

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