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José Pedro Croft: Obra de arte é como «cicatriz transformada em luz», «não é uma coisa para entreter o povo»

José Pedro Croft: Obra de arte é como «cicatriz transformada em luz», «não é uma coisa para entreter o povo»

Imagem José Pedro Croft | D.R.

«Os bons artistas vivem com as tripas. O trabalho faz-se com uma situação de total compromisso, não se faz a pensar em boas obras de arte. Não é uma coisa intelectual que eu conceba e tenha desligada do meu corpo e do meu sentir», considera o artista plástico José Pedro Croft, em entrevista publicada na mais recente edição do semanário Expresso.

Nascido em 1957, um de cinco irmãos, quis ser arquiteto, estudou Belas-Artes e aprendeu a trabalhar o mármore com João Cutileiro. O seu ateliê fica no bairro de Alvalade, em Lisboa, onde constrói as peças que podem ter uma gestação de 15 ou 20 anos. A sua linguagem privilegiada são quatro linhas: «Escolho um retângulo para falar de tudo».

«De alguma maneira, equacionamos as nossas feridas, as nossas grandes dores. Alguém falava de uma cicatriz transformada em luz. É disso que falam as obras de arte. Não é uma coisa para entreter o povo. E há muitas solicitações para irmos para o lado da anestesia, para ser tudo feito sem dor. Por isso me indigna tanto essa ideia de, em vez de pôr as pessoas em contacto com as suas fragilidades, para ficarem mais fortes, as distraírem das suas necessidades para fazer o espetáculo», defende.

Com quatro décadas de trabalho, José Pedro Croft representará Portugal na Bienal de Arte de Veneza, em 2017. A sua obra talvez tenha um pouco do seu fascínio pelo inesperado, o contingente, pelo «somatório de coisas improváveis».

«Atrai-me a ideia da descoberta do viajante que quando dá uma curva descobre uma paisagem totalmente nova e insuspeita. Mais do que o sítio do construtor das catedrais, o sítio que me interessa é onde se vão construindo cabanas e acampamentos. Os meus desenhos e as minhas esculturas estão sempre inacabadas ou em risco de deixarem de existir. Portanto, a obra está sempre a falar não da posteridade, que marca um território idealmente para a eternidade, mas da precariedade.»

Diz que toda a arte é «política», não no sentido da propaganda, mas das escolhas e está convicto de que a existência humana tem de ser edificada, como as suas obras: «A nossa vida tem um sentido, mas esse sentido é construído, não nos é dado. Muitas vezes as ruas estreitas vão dar a grandes praças.» Excertos da conversa com Ana Soromenho.



«Aquele gesso com aquele bocado de pedra não é uma coisa absolutamente fascinante. O fascínio tem a ver com o somatório de coisas improváveis. A partir daqui, sem quase nunca sair do mesmo sítio, tenho inúmeras possibilidades»



Arquitetura
«No meu trabalho a arquitetura estabelece limites porque contém. Um canto, um centro de sala, uma parede. São planos que já existem e sobre os quais posso agir. Uma porta, por exemplo, fazendo parte de uma estrutura arquitetónica, é o objeto que dá acesso ou interdita a passagem. Usamo-la nessa função sem a questionar, mas se a retirarmos do contexto ela adquire uma identidade autónoma. Passa a agir livremente e ganha imensas possibilidades.»

Porta
«Na sua dimensão antropomórfica, uma porta tem a forma do retângulo e também a medida do nosso corpo. Remete-nos para uma coisa primordial, que é a ideia da campa. Pode passar a funcionar como uma estela, a marcação vertical num território que corresponde à memória de alguém que existiu.»

Começo
«Cada dia em que começo um desenho, todas as possibilidades estão em aberto. Pode ser genial, uma coisa vulgar ou uma porcaria. Posso inscrever na folha em branco as contas da merceeira, uma fórmula química, um pensamento de filosofia ou imprimir uma fotografia. Desde o momento em que fazemos a primeira inscrição, esses espaço, de alguma maneira, já está ativado.»

<Arte e ética
«[Em 2002, por ocasião de uma retrospetiva no Centro Cultural de Belém, em Lisboa,] comecei a olhar para todo o trabalho que tinha realizado ao longo de 20 anos e percebi que, fosse desenho ou escultura, tinha estado sempre a trabalhar em retângulos ou caixas. De repente, tudo ficou claro. Era como se escolhesse um retângulo para falar de tudo.
Trabalho com essa forma geométrica, mas posso estar a falar de ética. Por exemplo, os meus desenhos são sujos, têm dedadas, são feitos em materiais pobres. Não são particularmente bonitos. Uso guaches, não me interessa a tela, prefiro o papel. Na escultura, uso materiais precários, que já existem. São lixo, entre aspas. O ferro, muitas vezes, e um ferro enferrujado. São peças torpes, difíceis, quase indiferentes. Aquele gesso com aquele bocado de pedra não é uma coisa absolutamente fascinante. O fascínio tem a ver com o somatório de coisas improváveis. A partir daqui, sem quase nunca sair do mesmo sítio, tenho inúmeras possibilidades.»



«Quando se faz uma peça pequena, que funciona só para decoração, em vez de se fazer uma peça grande em papel, que é frágil e de difícil manutenção, ou se usam materiais pobres como guache em vez de tinta, e tudo isso é transformado em linguagem, também tem um sentido político»



A nossa vida afeta a dos outros e a dos outros beneficia-nos
«Acho admirável a tradição oriental de plantar uma árvore que só estará crescida daqui a 70 anos e irá dar sombra a alguém que não sei quem é, tal como não sei quem pôs a pedra na tua pela qual caminho e que já lá estava muito antes de eu chegar. A nossa vida afeta a dos outros, tal como nós beneficiamos da vida de outros. Sabemos que a nossa existência é precária e frágil, mas estamos sempre a lutar por uma ideia de infinito como se tivéssemos todo o tempo do mundo, como se fôssemos imortais. Os gestos dos artistas podem ajudar a fixar. Embora essa fixação depois também se perca para dar lugar a outras coisas»

Arte, circunstância, mundo
«O que fazemos é um comentário ao mundo, e é sempre uma produção a partir da minha realidade e daquilo que é o meu mundo. Nasci para a arte nos anos 80, comecei a produzir já depois do 25 de Abril, sou formado num espírito de explosão e de alegria. Tudo isto são as questões de circunstância. Há ainda um mundo político, económico, social, ético, com todas as suas complexidades, e é também a isso que a arte se refere.»

Arte e política
«[A arte que faço não é política] no sentido estrito de ser propaganda, mas no sentido em que nenhum gesto é inocente. Quando se faz uma peça pequena, que funciona só para decoração, em vez de se fazer uma peça grande em papel, que é frágil e de difícil manutenção, ou se usam materiais pobres como guache em vez de tinta, e tudo isso é transformado em linguagem, também tem um sentido político.»

Sucessos contam pouco
«Tive momentos de sucesso, ou de sucesso relativo, tive momentos de fracasso, ou de fracasso relativo, e fui integrando. Os momentos de não reconhecimento podem ser de maior reclusão, mas são também os das maiores convicções postas à prova. Tudo isto faz parte do percurso. No final as confirmações, ou os sucessos exteriores, contam pouco. Ajudam à vida, ou às coisas práticas da vida, mas, na hora de decidir, a decisão é sempre solitária.»



 

Edição: Rui Jorge Martins
In "Expresso"
Publicado em 02.01.2017

 

 
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