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De cabeça erguida: Jornal do Vaticano evoca escritor Alexander Soljenítsin

Passaram 10 anos sobre a morte de Alexander Soljenítsin (3.8.2008), e a 11 de dezembro assinalar-se-ão os 100 anos do seu nascimento. Os congressos a ele dedicados são incontáveis: na pátria russa e no estrangeiro não há comunidade eslava que não se prepare para recordar o acontecimento. O valor que Soljenítsin tinha em vida não diminuiu após o seu desaparecimento. Aliás, onde as paixões políticas deixaram espaço a um juízo mais racional, a evidência do seu valor tornou-se clara: o escritor marcou a história do século XX pelo olhar que teve sobre o ser humano, um olhar que soube mostrar a sua inexauribilidade, inclusive quando tudo parecia condenar o homem e reduzi-lo a um mísero grão de areia, varrido pela aleatoriedade dos acontecimentos ou triturado pela máquina do poder.

Do concentradíssimo e minúsculo “Um dia na vida de Ivan Denisovich” (que narrava a jornada habitual de um detido num “normal” campo de Estaline) ao enorme afresco sobre o “Arquipélago Gulag” (que marcava a história e desmascarava a intenção homicida dos campos de concentração soviéticos), toda a obra de Soljenítsin é o testemunho da permanência de uma humanidade plena inclusivamente onde o esvaziamento e o aniquilamento real do ser humano pareciam ter alcançado um nível de não retorno: o ser humano podia trair a própria identidade até tornar-se um carnífice sem a mais pequena sombra humana ou uma vítima sem memória não só da sua dignidade como também da sua existência; e mesmo assim, como diz Soljenítsin ao descrever um dos seus inesquecíveis personagens, podia resistir até conservar a capacidade de permanecer de «cabeça erguida» diante de todos porque, precisamente nas circunstâncias em que todos se curvavam, os seus olhos «fixavam alguma coisa de invisível» que estava mais alto sobre a cabeça de todos, de todos os detidos como de todos os guardas.

«O mundo e o homem nunca se encontram no sulco expressamente preparado», dizia Soljenítsin, utilizando uma formulação proverbial que também dava a ideia das origens do seu olhar: uma verdade que era fruto da experiência de todo um povo, e não uma invenção ou o resultado de um raciocínio abstrato; e uma das muitas coisas que permanecem da sua obra como um legado que vai bem além dos 10 anos transcorridos é precisamente este olhar realista sobre o ser humano, mais forte do que qualquer poder e irredutível a todo o esquema porque irremediavelmente imprevisível, ou seja, irremediavelmente livre.



É o poder da literatura e da arte que sabe mostrar esta dimensão de liberdade e gratuidade como alguma coisa de belo e de vivencial na época da solidão e da negação de toda a forma



E se esta herança se fixa na história de 1900 e para lá dela, é precisamente porque no século das ideologias e da redução de tudo às ideias, Soljenítsin soube mostrar que onde o ser humano redescobre esta sua irredutibilidade, é capaz de a restituir não só a todos os seus semelhantes como também a todo o mundo; e a verdade, que podia ser reduzida a uma ideia abstrata ou ser usada para tornar os seres humanos escravos, torna a ser vida: já não provoca medo, já não é usada para condenar e excluir, mas abre espaços de encontro e de vida, tornando-se até fascinante.

É o poder da literatura e da arte que sabe mostrar esta dimensão de liberdade e gratuidade como alguma coisa de belo e de vivencial na época da solidão e da negação de toda a forma. Se este olhar sobre o ser humano, como ser livre no século dos novos coliseus, soube impor-se a despeito de tantas ignomínias e deformidades, é precisamente porque se apresentou não com a forma de um novo discurso abstrato, eternamente contestável, mas com a força de uma autêntica experiência estética: tem diante de si alguma coisa que se impõe com a sua presença e de que faz experiência, vendo-o, sentindo-o, tocando-o e, no fim, admirando-o pleno de surpresa e espanto.

Neste sentido, a novidade do olhar de Soljenítsin sobre o ser humano e sobre as coisas pode compreender-se plenamente à luz desta sua dimensão de artista.



Soljenítsin compreendeu muito bem que a ideia segundo a qual não existe nenhuma verdade é apenas um dos muitos meios com os quais os poderosos procuram manter o seu poder



A saída da mentira ideológica, e da sua radical negação da humanidade, não era realmente possível se se ficasse pelo plano das puras ideias, se contrapunha à ideologia uma nova ideia, ainda que mais rica: tal modo de proceder significava continuar prisioneiro da dialética ideológica, do princípio segundo o qual o que decide da verdade e da realidade das coisas é sempre uma ideia: seja boa ou má, não faz diferença, porque o que conta é pretender substituir a realidade (até a eliminar) com uma fantasia. Por outro lado, uma vez compreendido que não se podia propor uma nova verdade ideológica, também não se podia limitar a renunciar simplesmente a cada verdade: isto teria igualmente significado uma rendição ao princípio da mentira ideológica. Deste ponto de vista, Soljenítsin compreendeu muito bem que a ideia segundo a qual não existe nenhuma verdade é apenas um dos muitos meios com os quais os poderosos procuram manter o seu poder: se não existe uma verdade com a qual todos devem lidar, a única maneira de manter uma coexistência pacífica é confiar no poderoso de turno, que colocará sempre de acordo os seus súbditos recalcitrantes.

Para fazer frente ao totalitarismo era preciso sair desta dialética do primado da ideia e reencontrar o princípio da realidade, reencontrar a verdade do real e no real, não como qualquer coisa que o ser humano deve inserir à força, fazendo violência sobre o que existe, mas como alguma coisa que está dentro do real: não feito pela mão do ser humano, obra de um artista que o ser humano deve apenas levar ao cumprimento ou que, simplesmente, não deve opor-se à realização. E, com efeito, Soljenítsin saiu desta dialética, redescobrindo a realidade como algo que não é feito pela mão do ser humano e procurando mostrá-la como tal através dos próprios personagens.


 

Adirano Dell'Asta
In L'Osservatore Romano, 6-7.8.2018
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Alexander Soljenítsin | D.R.
Publicado em 06.08.2018

 

 
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