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Jorge Luís Borges, escritor sem fronteiras entre teologia e literatura fantástica

Imagem Jorge Luis Borges | D.R.

Jorge Luís Borges, escritor sem fronteiras entre teologia e literatura fantástica

Para além do seu agnosticismo e falta de fé, o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) mantinha, evidentemente, uma ligação muito profunda com os Evangelhos e com a mensagem de Cristo.

Esta foi uma das imagens mais fortes transmitidas durante o debate, intitulado "Borges, transcendência e agnosticismo", que decorreu a 5 de novembro na cidade argentina de La Plata.

A mesa-redonda integrou o programa do Átrio dos Gentios, iniciativa promovida por Bento XVI com o objetivo de estabelecer pontes entre crentes e não crentes, e que prossegue com o papa Francisco, este mês com uma incursão na Argentina e Uruguai.

María Kodama, secretária e companheira do escritor desde meados dos anos 70, fez-se presente no colóquio através de um vídeo, tendo vincado que «o misticismo e o mistério estão presentes na obra de Borges, que refletiu um estado místico inefável que não pode explicar-se nem definir-se a alguém que não tenha vivido essa experiência».

«Creio que, em relação à sua obra, se poderia falar sobre uma mística da criação. Se o caminho da mística implica o rigor do ascetismo para chegar à iluminação, que culminará na fusão com Deus, poderíamos dizer que nessa experiência Borges detém-se na iluminação», acrescentou.

Por seu lado, o presidente da Academia Argentina de Educação, Pedro Barcia, considerou que no plano pessoal não parece «que a questão da transcendência do espírito humano tenha gerado algum tipo de angústia» em Borges, cuja obra é atravessada «pelo tema da imortalidade, sobretudo no que se refere ao espírito humano individual».

«Para ele, a teologia era um ramo da literatura fantástica. E embora pareça uma piada, na realidade não o era. Numa entrevista esclareceu que quando afirmou que a religião e a metafísica são temas da literatura fantástica, não o afirmou hostilmente, pelo contrário», assinalou o linguista.

O presidente do Pontifício Conselho da Cultura, organismo que coordena o Átrio dos Gentios, confessou o seu fascínio pelas «perguntas que Borges formulava sobre a razão de o universo ser fluido e mutável», a que se soma a atração exercida pela «rede do seu suave ceticismo, do seu denso enciclopedismo e do seu ecumenismo eclético».

«Para Borges, as fronteiras são sempre móveis e subtis. Nunca há uma cortina de ferro entre verdade e ficção, entre vigília e sonho, entre realidade e imaginação, entre racionalidade e sentimento, entre concreto e abstrato. Ou entre teologia e literatura fantástica», acrescentou o cardeal Gianfranco Ravasi.

Igualmente presente no debate, a jornalista e ex-senadora María Eugenia Estenssoro afirmou que o poema "Cristo na cruz" «é um dos mais comovedores relativamente à transcendência e à figura de Jesus», sublinhando que «ainda que Borges o tenha negado, está demonstrado que sabia muito sobre o cristianismo, talvez mais que muitos fiéis formais».

 

In "La Nacion"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 09.11.2015

 

 

 
Imagem Jorge Luis Borges | D.R.
Para Borges, as fronteiras são sempre móveis e subtis. Nunca há uma cortina de ferro entre verdade e ficção, entre vigília e sonho, entre realidade e imaginação, entre racionalidade e sentimento, entre concreto e abstrato. Ou entre teologia e literatura fantástica
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