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Jonas, o homem que se lamentava com Deus e que Cristo lembrou para falar da morte e ressurreição

Alguns talvez recordem o encantador fresco de Giotto na capela dos Scrovegni de Pádua, com o espernear de Jonas que sai da boca de um cetáceo, ou a miraculosa história deste profeta "visualmente" narrada no pavimento em mosaico de Aquileia, outra joia artística.

O livrinho com o seu nome é, na realidade, uma parábola que o vê como protagonista: um profeta de nome Jonas, em hebraico "pomba", de apelido Ben Amittai (filho de Amittai), originário da vila de Gat-hefer e da tribo de Zabolão, que realmente existiu no séc. VIII a.C. sob o rei da Samaria, Jeroboão II (cf. 2 Reis 14, 25).

A deliciosa narrativa que lhe diz respeito é, ao contrário, uma criação livre que chega inclusive ao fantástico e ao mítico, como se pode depreender do grande peixe que o engole e depois o cospe na margem do mar Mediterrâneo, episódio que com certeza Carlo Collodi recolheu para o seu "Pinóquio".

A nós interessa a história da sua vocação, porque Jonas incarna um não raro modelo humano. Ele, efetivamente, é uma pessoa lamentosa, medrosa, preocupada pela perturbação do seu sossegado viver e, sobretudo, renitente ao chamamento divino.

Deus envia-o a pregar a Nínive, a grande capital oriental da Assíria (nas imediações da martirizada cidade de Mossul, no Iraque), e ele, em vez disso, embarca para Tarsis, que é o remoto porto ocidental (talvez Gibraltar). O mar tempestuoso e o monstro marinho que o acolhem são símbolos do juízo divino que o castiga, mas que no final o devolve, de modo a cumprir a sua missão.



Um verme agarra-se às raízes daquela árvore a fá-la secar, e assim o sol incandescente bate na cabeça do profeta, ao mesmo tempo que se levanta um vento quente do deserto. É fácil imaginar o protesto deste homem que tem contas a ajustar com todos e com Deus



É verdade que o Senhor respeita a liberdade do ser humano, mas não é indiferente e intervém com a sua palavra e a sua graça para o orientar para o bem. E, com efeito, Jonas, chegado a Nínive, teve sucesso: os habitantes daquela capital converteram-se à sua pregação, «do maior ao mais pequeno. Deus viu as suas obras, viu que se converteram da sua má conduta», e apiedou-se deles (3, 10).

Mas a história não acaba aí. Este petulante profeta tem ainda de que se lamentar. Está sossegado debaixo de uma frondosa árvore de qiqajôn, talvez de ricino (mamona), mas o coração está cheio de amargura porque esperava que os ninivitas, tradicionais inimigos de Israel, não se convertessem, desencadeando por isso o juízo divino, em vez do perdão.

Mas há outro motivo de lamentação. Um verme agarra-se às raízes daquela árvore a fá-la secar, e assim o sol incandescente bate na cabeça do profeta, ao mesmo tempo que se levanta um vento quente do deserto. É fácil imaginar o protesto deste homem que tem contas a ajustar com todos e com Deus.

Mas a voz divina ressoa forte e clara e desvela a lição desta parábola contra toda a mesquinhez e xenofobia: «Tu tens pena por essa planta de ricino (...), e Eu não deverei ter piedade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas (...) e uma grande quantidade de animais?» (4, 10-11).

Evocámos esta história de vocação no período pascal porque Jesus a assumiu no seu núcleo central para anunciar a sua morte e ressurreição: «Como Jonas permaneceu três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra» (Mateus 12, 40). Porque, «como Jonas foi um sinal para os de Nínive, também o Filho do homem o será para esta geração» (Lucas 11, 30).



 

Card. Gianfranco Ravasi
Biblista, presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad.: SNPC
Imagem: Giotto
Publicado em 07.05.2018

 

 
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