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Job, cuidador de Deus

Job, cuidador de Deus

Imagem Job em oração (det.) | Marc Chagall | 1960 | D.R.

Ao ler a versão dos LXX do Livro de Job, deparamo-nos, já bem perto do fim, no momento em que Deus retira as conclusões do paradigmático drama, em 42, 7, na expressão da censura de Deus para com os falsos amigos do sofredor, em contraste com o elogio para com Job, a referência a este último como «therapon» («θεράπων»). Encontra-se habitualmente este termo traduzido por «servo». Ora, o termo não se refere a um qualquer tipo de servo, mas a um homem nascido livre que cuida de outrem.

Não é um «servo» no sentido de um escravo, sequer de um inferior que depende de um superior, mas de alguém que é capaz de cuidar de um outro, algo que um servo nunca faz: um servo serve, não cuida. O cuidado é um ato de amor.

Então, ao que parece, pelo menos no entendimento dos LXX, a relação de Deus para com Job não é a de um déspota para com um escravo, mas a de um ser que recebe o cuidado de um ser que presta tal cuidado. São dois seres cuja relação política não é um comércio de poder, antes a interdoação de atos de amor.

Este ato político padrão tem um nome antigo, também grego: «philia», amizade, e amizade no seu mais elevado nível, como Aristóteles bem percebeu.



Dois seres que se amam. Por isso, cuidam um do outro. E cuidam sempre, pois, mesmo em absoluto silêncio – necessário para que Job se provasse a si mesmo como bom, em absoluta liberdade –, Deus nunca abandona Job



Então, o que se encontra nesta interpretação é uma «relação de amizade entre Deus e Job», isto é, como Job é um paradigma de possibilidade de humanidade, entre Deus e o ser humano, universalmente considerado?

Sim, se este último, no concreto da sua realidade ontológica, realizar para si próprio uma dignidade onto-antropológica semelhante à que Job para si próprio realizou.

Toda a obra dedicada ao drama de Job é um prelúdio à celebração deste momento de amizade entre Deus e o ser humano. Quando Deus declara, no início, que Job é bom – e o Génesis ensina o que tal significa na boca de Deus –, manifesta que Job é digno do dom que nele Deus pôs. É, nisso, semelhante a Deus. E esta semelhança é o lugar ontológico da possibilidade da amizade.

Não que Job seja da dimensão ontológica total de Deus – infinita em ato –, mas, no que é a sua possibilidade de realização do bem que Deus lhe deu como fermento de bondade, nisso, porque realizou em bem tal possibilidade, é semelhante a Deus: é finitamente perfeito como Deus é infinitamente perfeito. E isso basta, porque isso é o melhor possível de que o ser humano é capaz.

Sabemos o que a bestialidade satânica do funcionário cético da celeste corte bem como a da mulher e a dos falsos amigos de Job opera em termos do sofrimento deste, que, acrisolando-o até já nada mais dele restar senão um desejo de que Deus se lhe manifeste a fim de a ambos justificar, lhe permite elevar a perfeição a um nível em que já nem Deus pode deixar de responder, sob pena de não merecer mais ser Deus.



Job cuidou de Deus, ao defender sempre a sua bondade, mesmo quando nada parecia demonstrar a sua realidade. O absoluto da diferença entre esta ausência de manifestação e a fidelidade de Job a Deus é a sua fé, melhor, Job como ato de fé. É esta a sua «cura de Deus»



E é esta resposta de Deus a Job que constitui o primeiro ato de amizade que esta tradição regista, logo uma amizade entre Deus e um homem, ambos perfeitos, cada um em seu modo próprio.

Dois seres que se amam. Por isso, cuidam um do outro. E cuidam sempre, pois, mesmo em absoluto silêncio – necessário para que Job se provasse a si mesmo como bom, em absoluta liberdade –, Deus nunca abandona Job. Este não o sabe, mas confia sempre em que Deus é bom, assim curando de Deus, cuja bondade todos os outros punham em causa ao duvidar da sua declaração de que Job era bom.

Então, compreende-se por que razão se pode usar o termo «therapon» relativamente a Job: este cuidou de Deus, ao defender sempre a sua bondade, mesmo quando nada parecia demonstrar a sua realidade. O absoluto da diferença entre esta ausência de manifestação e a fidelidade de Job a Deus é a sua fé, melhor, Job como ato de fé. É esta a sua «cura de Deus».

É este o cimento da sua relação, que é amizade, porque um e o outro se desejavam, um e outro se amavam, um e o outro se encontraram como amantes semelhantes em ato de amor.

Em Job, «eros», «agape», «philia» constituem o ato único da perfeição da relação entre o criador e a criatura perfeita, não apenas como dom, mas como dom realizado em liberdade.

É este o modelo.

Que não se pratica.

É este o modelo de possibilidade de vida humana não bestial.

A praticar.



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 25.05.2017

 

 
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