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Job como "logos" da fé

Santo Anselmo de Cantuária deu a uma sua obra o título de Fides quaerens intellectum, Fé em busca da inteligência. Esta obra é mais conhecida por Proslogion. Mas não é esta obra que aqui nos interessa, antes o significado do seu título programático, que define o que é o fundamental da missão de qualquer tentativa de construção quer de uma Teologia quer, num âmbito muito mais vasto, de construção de uma vida humana crente que não seja um ato de crendice e de superstição.

Não há ser humano que viva, que possa viver, sem uma qualquer forma de fé, em seu sentido mais básico e fundamental de ato de acreditar em algo interno ou externo a esse que acredita. Sem tal ato, qualquer ser humano não é capaz de qualquer movimento, pois, em nada acreditando – em absoluto –, como agir, se cada possível ato pode ser precisamente esse possível ato que o vai precipitar no nada?

Mesmo o ato de suicídio necessita, para que possa ser cometido, que se acredite numa sua qualquer eficácia. Basta isto para perceber que não há vida humana sem uma forma qualquer de crença, de fé.

A fé que se denomina de teologal assenta também sobre este campo antropológico comum do assentimento à possível bondade qualquer de um possível ato. Só que é, em ato, quando existe mesmo, fundadora de uma relação que não é qualquer, mas entre um ser humano e Deus. Define-se como dom de Deus e como possibilidade de aceitação por parte do ser humano.

Como possibilidade, é dom universal; como aceitabilidade, é também universal; como ato apropriado acontece apenas no seio dos que aceitam tal dom.

Neste caso, a fé é o fundamento de toda a relação do ser humano com Deus, assim como do ser humano com todos os outros seres humanos e com o restante da criação: nada acontece em termos de ato próprio da pessoa que, mais do que ter fé, é fé, sem que possa ser informado por tal mesma fé.

Se a fé cessa, cessa toda a possibilidade de ação como relação com Deus e com as criaturas. Mas, como já foi visto, tal acontece quando se perde a fé não apenas na sua forma teologal, mas como transcendental de possibilidade antropológica de ação em termos universais.

Ora, a entidade lógica da história não apenas da humanidade judaico-cristã, mas da humanidade como coisa transcendental, que melhor simboliza a relação de confiança e de fé é Job. Este ser humano incarna o ato de fé como seu paradigma universal – aplica-se não apenas à relação do ser humano com Deus, mas do ser humano com qualquer outra entidade logicamente informada (racional, se se quiser usar este termo restritivo).

Como se sabe, Job é esse que leva o seu ato de acreditar até próximo do seu limite, que seria descrer e, através desta mesma descrença, aniquilar-se. Job é sempre fiel quer a Deus quer à própria relação entre si e Deus quer, ainda, pela relação, a si próprio. Fiel, mesmo quando esse a quem sempre é fiel se manifesta como infiel, assim extremando as condições de possibilidade de manutenção de fidelidade: ser fiel a um Deus que se mostra infiel? Como?

Precisamente, através da manutenção da fidelidade a isso a que sempre se foi fiel, na esperança que o objeto da fidelidade volte a corresponder a isso em que o sujeito da fidelidade acreditava, o que acontece, de forma, aliás, impecavelmente lógica.

Ora, Job não incarna apenas a fidelidade, sem mais. Job é e incarnação exata do princípio fundamental que santo Anselmo enuncia: Job é esse que é fiel, mas exige sê-lo na forma da constante refundação lógica da sua fé, na relação com Deus.

Por isso, constantemente, exige saber por que razão foi posto a viver como foi, sem que possa reconhecer qualquer mal por si operado que tal justificasse.

Em termos antropológicos e porque precisamente o ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus – isto é, não é uma besta, mas um ser matriciado na ontologia de bem de Deus, neste sentido, divinizável porque assim matriciado –, não pode, não pode mesmo, ser um ato de fé irracional, como se de uma besta se tratasse. Job recusa a sua redução à condição bestial e, por isso, clama pela razão da sua fé como resposta ao porquê, por quê e para quê do seu sofrimento.

Deus, sempre fiel, mas finalmente fiel de forma patente na narrativa a Job como este lhe é fiel, acaba por dar razão a Job, isto é, acaba por se justificar junto de Job, de modo tão perfeito quanto Job se tinha justificado perante Deus. Em ato único, Deus desce junto do Homem e tornam-se amigos. Ação espantosa e não menos espantosamente ignorada.

Ora, é este o sentido paradigmático de possibilidade de vida não apenas para o ser humano como propriamente humano e não como besta: a fé e a sua justificação, mesmo que tal justificação passe por um sofrimento, esse sim, sem justificação. Mas não se pode ser humano sem esta possibilidade de desumanidade: é a triste história concreta da humanidade, não às mãos de Deus, mas às satânicas mãos de nós próprios.

Job avisa sobre o mal que o ser humano pode provocar no ser humano, pois o satã é o modelo da perversidade humana – são seres humanos que realizam a parte do acrisolamento pior de Job, a sua tortura moral.

O que ficou dito para a possibilidade do ser humano em geral aplica-se com especial força a esse que cultiva a Teologia e a esta como ciência – mas a ciência não é prosopopaica, é a ação de quem a realiza –: como Job, a Teologia ou é um ato de fé em busca da inteligência ou não é coisa alguma, mais do que uma crença vazia, com um objeto ilusório, porque sem relação. A relação é dada pelo ato de inteligência que busca iluminar isso em que se acredita.

Sem inteligência, não há fé, há ilusão de fé, que corresponde a uma forma de morte espiritual.

Job é a inteligência humana em busca do Deus em que crê, por isso Job é vida. Repetimos: Job é vida.



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "Job e os seus amigos" (det.) | Gustave Doré
Publicado em 15.02.2018

 

 
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