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Jean-Pierre Leguay: sons são seus olhos

Jean-Pierre Leguay: sons são seus olhos

Imagem Jean-Pierre Leguay | © Tiago Silva

«A liturgia cristã não está aberta a qualquer tipo de música. Exige um critério e esse critério é o Logos […] O Espírito Santo conduz-nos ao Logos, a uma música que, sob o signo "Sursum corda", eleva o coração.» (Joseph Ratzinger, "Musik und Liturgie")

Dons há que, cuidados com atenção e na justa gratidão, são como rumores trepidantes, cântico novo em ininterrupta doxologia, sob o signo ‘sursum corda’, louvor puro, cósmico e celestial. Sim, na semelhança das visões de Ezequiel, que contemplou querubins esvoaçantes, sem se deter nos porquês de nada, tão-pouco do movimento. Foi nesta liberdade procriadora, que Jean Pierre Leguay, nome maior entre organistas, tocou no dia 20 de outubro numa das missas do Seminário Conciliar de Braga. Acompanhou a assembleia, tocando no novo órgão Pradella, a aguardar pelo dia oficial da sua inauguração, para a qual foi convidado Sietze de Vries, organista holandês. Para além de improvisações, Leguay deliciou com a Toccata per l'elevazione, composta por Girolamo Frescobaldi (1583-1643) para a Missa dos Apóstolos, no momento do ofertório; e, no final, com uma peça de Francisco Correa de Araújo (1584-1654), notável organista e compositor espanhol, além de teórico da renascença tardia.

Invisual, JeanPierre Leguay tem nos sons seus olhos. E é um visionário sobre teclas. Caminha sobre elas nos dedos, em procuradas dissonâncias que geram paz no ouvir e criam uma atmosfera sonora resiliente no espaço. Soube ser aprendiz no brilho radiante dos sons, mas também de professores, entre eles, no princípio, André Marchal e Gaston Litaize; e, depois, no Conservatório de Paris, composição com Olivier Messiaen, órgão com Rolande Falcinelli e escrita com Simone Plé-Caussade. Do seu curriculum, fazem parte um Premier Prix de órgão e improvisação, obtido por unanimidade em 1966, e o Diploma de composição, em 1970, no Conservatório Nacional Superior de Paris. Para conhecer outros prémios e composições, nada como consultar o seu curriculum na internet. É fácil e ficaremos diferentes depois de ver a sua ‘criação’ em catálogos de obras para formações instrumentais e vocais, e os índices das gravações de reportório em CD. De pronto, talvez recordemos as músicas do filme «Os mistérios das catedrais», do realizador Jean-François Delassus, para a ARTE, cadeia de televisão francesa. Para os mais ‘sensíveis’, seguramente que na memória paira o «choc», nos termos da revista Le Monde de la Musique, a propósito da sua Missa Deo Gratias e das suas Sonatas II e III.



A música tem o seu ministério: despertar a cultura do desejo, cantar. E, neste particular, sublinhou o papel do organista: pode intervir em nome da comunidade reunida e a favor da mesma. Pode participar da atmosfera geral, como a luz ou as flores. Pode criar um universo sonoro, que permita a voz colocar-se melhor. No acompanhamento, ele oferece a nota ao cantor



Beneficiar de um organista desta nomeada nas celebrações é um privilégio. De recordar, que Jean Pierre Leguay foi cotitular dos grandes órgãos da catedral de Notre-Dame de Paris, juntamente com Yves Devernay, Olivier Latry e Philippe Lefebvre. Mas, já antes, como sabemos, tinha sido ao longo de 23 anos (1961-1984) organista titular do grande órgão da igreja de Notre-Dame-des-Champs, também em Paris. Atualmente, na condição de organista ‘honorário’ de Notre-Dame, continua a sua carreira de organista-concertista, de compositor e improvisador. Todavia, o que ele tocou em Braga não foi um concerto, mas música ao serviço da liturgia. Concerto haverá, sim, mas no dia 2 de dezembro, no contexto da comemoração dos 1350 anos da morte de S. Frutuoso.

Depois do jantar com ele, sua esposa, François Nicolas, a equipa formadora, os seminaristas e os professores de música do Seminário, subimos novamente até à capela dos Apóstolos Pedro e Paulo. E, em ambiente familiar, Jean Pierre Leguay partilhou experiências da sua vida como organista, insistiu no cuidado a ter com a música litúrgica e na importância da sua preparação, tendo presente o conjunto dos serviços praticáveis na celebração dos santos mistérios. Numa propositada vontade em exaltar a humildade, disse que, se a música está presente, ela deve ser vista como mais um ator, sem excessivo protagonismo. Cada um no seu lugar! Pois o olhar do músico, do organista, é apenas um olhar; um olhar incompleto. Porque, para Leguay, ele está dentro de algo mais largo. A música tem o seu ministério: despertar a cultura do desejo, cantar. E, neste particular, sublinhou o papel do organista: pode intervir em nome da comunidade reunida e a favor da mesma. Pode participar da atmosfera geral, como a luz ou as flores. Pode criar um universo sonoro, que permita a voz colocar-se melhor. No acompanhamento, ele oferece a nota ao cantor.



Teve ainda tempo dar conta do seu apreço pelos órgãos ibéricos, cuja reconhecida economia do instrumento, com a partição do teclado, entre outras particularidades, permite música muito ardente, calorosa do ponto de vista criativo e cheia de aventuras rítmicas



Fundamental é a preparação e a dinâmica que a sustenta: o trabalho em equipa, antes de mais. Porque os problemas não são indispensáveis nem automaticamente presentes. Nessa matéria, referiu os maravilhosos 23 anos de experiência na paróquia de Notre-Dame-des-Champs, e como os desafios eram suplantados. Segundo testemunhou, para isso concorrem o respeito e a relação de amizade entre todos e o reconhecimento das competências de cada um. Para ele, é indispensável saber o que cada um tem a fazer durante as celebrações, como os leitores. Isto dá muito trabalho. Mas, quando começam as interferências, a invasão dos campos, tudo se perverte. Porque, como por diversas vezes insistiu, quando não se trabalha em equipa, começam os problemas de outra ordem. Ao contrário, em equipa há mais probabilidade de tudo correr bem, nada é desprezível.

No final da sua partilha, seguiu-se um diálogo, durante o qual Leguay respondeu a questões feitas pelos jovens e professores. Nas respostas, vincou um critério para a música na liturgia: «Se se mete música, que se faça como deve ser». Teve ainda tempo dar conta do seu apreço pelos órgãos ibéricos, cuja reconhecida economia do instrumento, com a partição do teclado, entre outras particularidades, permite música muito ardente, calorosa do ponto de vista criativo e cheia de aventuras rítmicas. Aventura foi também a forma como terminou o encontro, isto é, com o cântico da Salve Regina, continuada numa longa improvisação ao órgão.









 

Joaquim Félix
Vídeo: Tiago Silva
Publicado em 10.11.2016

 

 
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