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"In Principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David": textos e imagens

"In Principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David": textos e imagens

Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

A Documenta, chancela da editora Sistema Solar, lançou recentemente a obra "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David".

O volume foi publicado por ocasião da exposição "A Bíblia Medieval – do Românico ao Gótico (sécs. XII-XIII) – em diálogo com a pintura de Ilda David".

Com curadoria de Luís Correia de Sousa, a mostra, que decorre em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, coorganizadora do projeto, em parceria com o Instituto de Estudos Medievais, pode ser vista até ao próximo sábado.

«A constituição da Coleção de Iluminados da Biblioteca Nacional de Portugal deveu-se fundamentalmente à incorporação das bibliotecas particulares de dois distintos bibliófilos setecentistas, que reuniram duas das mais notáveis livrarias existentes em Portugal, acompanhando a tendência de incremento de bibliotecas particulares que se verificou na Europa, nos séculos XVII e XVIII», escrevem Teresa Duarte Ferreira, Ana Cristina de Santana Silva e Lígia de Azevedo Martins.

Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

As especialistas do Serviço de Coleções de Reservados da Biblioteca Nacional começam por realçar «a extensa e valiosa doação de frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas (1724-1814), bispo de Beja (mais tarde arcebispo de Évora), figura maior do Iluminismo português, fundador e mecenas das principais bibliotecas do Reino».

«Do conjunto de 30 manuscritos iluminados que integravam a doação, alguns são exemplificativos da qualidade das escolas de iluminura estrangeiras, sobretudo francesa, como o "Missal de Saint Martin d’Este", missal de altar datado de 1402, ou a "Bíblia Sacra Latina" da segunda metade do século XIII, em velino e profusamente ornamentada com iniciais historiadas e ornadas, igualmente de produção francesa», explicam as autoras, acrescentando que a mudança de propriedade foi oficializada em 1797.

Por seu lado, a livraria de D. Francisco de Melo Manoel da Câmara (1773-1852), adquirida pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1852, «integrava cerca de 50 incunábulos, edições quinhentistas e seiscentistas extremamente raras, e um valioso conjunto de 35 manuscritos iluminados, tesouros bibliográficos únicos».

Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

«Alguns dos manuscritos exemplificam o esplendor das escolas de iluminura francesas e italianas, como o magnífico "Missal Carmelita" do século XIV. Além de sete "Livros de Horas", salientam-se as cinco "Bíblias", de reconhecida excecionalidade artística, nomeadamente as "parisienses", referem as especialistas.

Para José Tolentino Mendonça, «é impossível não reparar no impacto plástico produzido pelo fundo das pinturas de Ilda David»: «As figuras são certamente muito importantes, e para mais quando se trata, como aqui, de estabelecer um diálogo com a galeria de personagens que o códice bíblico contém. Mas os fundos revelam um trabalho de composição que não é apenas tributário da narrativa figural: em si mesmos configuram um gesto, uma tomada de posição e um programa».

«Nas pinturas de Ilda David não é a natureza que se vê ao fundo, embora apressadamente o possamos pensar. Quando julgamos reconhecer o relevo da terra, os seus recortes insinuantes e inexplicados, as suas aberturas por desfiladeiros e grutas, as formas tão familiares da vegetação ou até o modo como a luz incide sobre linhas e caminhos, verdadeiramente não é o relevo da terra, nem os detalhes morfológicos, nem o azulado dos bosques que os nossos olhos avistam. Avistam sim aquilo que Georg Simmel caracterizava como "um peculiar processo espiritual": a distinção entre natureza e paisagem», aponta o padre, poeta e ensaísta salienta no texto incluído no volume.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

«"Contemplação afetiva" é um belo nome para designar o que a pintura de Ilda David partilha connosco. O seu método de aproximação ao texto bíblico e aos seus ecos, sempre mais proliferantes à medida que os escutamos, passa por recolher-se (e recolher-nos) a uma contenção que afetuosamente contempla, sem mais. Sem juízos que descosam o enigma. Sem respostas que diluam a pergunta. Sem representação que se intrometa no silêncio que cada cena tinha antes e terá depois da leitura», salienta Tolentino Mendonça.

O vice-reitor da Universidade Católica está convicto de que «a força» das «imagens de Ilda David não estará tanto no gesto de documentar o que foi», mas na «ousadia» de colocar o leitor «à espera do que será. A pintura é uma máquina revelatória».




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

A possibilidade de recorrer a «métodos intuitivos e emotivos» para analisar o passado é realçada pelo historiador José Mattoso: «O simples facto de se reunirem umas dezenas de Bíblias dos séculos XII e XIII, de podermos vê-las, folheá-las, palpá-las, compará-las, cria uma ponte nova entre o passado e o presente. O que parecia silêncio definitivo pode tornar-se, para quem se deixa seduzir pela sua contemplação, música recordada depois de esquecida».

«Paralisados durante décadas, escondidos debaixo do pó, reduzidos a cotas numéricas como tatuagens de presidiários, recordam agora, pelo simples facto de existirem, os ofícios divinos, as cerimónias litúrgicas, a salmodia e o canto gregoriano que, por meio deles, se celebravam», escreve o investigador no texto que também faz parte do livro, e que reproduzimos integralmente.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

 

Prologus
José Mattoso
In "In principio"

Não podemos regressar ao passado. O que aconteceu já não volta. O passado deixa sinais, mas quanto mais longe está do presente, mais meios de representação exige; os sinais revelam o seu sentido, mas à custa de «traduções». As técnicas de representação com que tentamos restaurar o passado não lhe restituem a vida. Podemos, quando muito, aperfeiçoar as nossas reconstruções, mas não chegamos nunca a saber até que ponto o imaginário se aproxima da realidade. Recorremos a métodos cada vez mais diversificados e especializados, mas não podemos demonstrar coisa alguma: recorremos à química para analisar os pigmentos da cor; contamos os dias e meses para calcular a data da Páscoa; comparamos os manuscritos para verificarmos a exatidão do texto recebido; avaliamos a verosimilhança das crónicas; estudamos a simbologia das cores, insígnias e bandeiras; medimos o grau de certeza das hipóteses… A lista não tem fim.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

Estas operações aplicam aos vestígios do passado métodos racionais de interpretação. Mas podemos também recorrer a métodos intuitivos e emotivos. É o que fazemos ao tentar captar as mensagens do passado por meio da arte, do símbolo ou da vivência. Para isso é preciso cultivar o belo, recorrer às estratégias do coração, entregar-se à fruição do prazer estético, escutar a ressonância dos cânticos antigos. Por estes caminhos, procuramos a vibração do passado e não tanto a sua compreensão. Respeitamos o seu silêncio, reunimos as obras geniais, ou simplesmente belas, que nos deixou, deixamo-nos encantar pela fruição do seu fulgor, aprendemos a rezar e a contemplar. Para quem cultiva a vibração emotiva, o passado não perdeu a voz.

Ao reunir numa exposição as Bíblias medievais que existem em Portugal, em acervos públicos, a Biblioteca Nacional dá voz a esses vestígios privilegiados do passado. Convida-nos a escutá-los, não tanto para compreender intelectualmente a história que contam, como para recriar as emoções que outrora lhes deram vida. Para isso é preciso uma certa iniciação. Mas, uma vez vivido o sagrado, os fragmentos que o materializam não cessam mais de desafiar o desejo. Chamam-nos para mostrar aspetos novos da sua mensagem e convidam-nos a sentir a sua unidade. As obras de Ilda David, expostas com as Bíblias medievais, representam uma ressonância contemporânea, concreta, igualmente palpável, como os próprios códices, da mensagem divina, mediante a leitura que ela fez. Convidam-nos a experimentar o nosso «silêncio de leitura», ou seja, a deixar que a semente do verbo interior frutifique em imagens ou sons, e, por meio deles, alimente a nossa comunhão com Deus.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

O simples facto de se reunirem umas dezenas de Bíblias dos séculos XII e XIII, de podermos vê-las, folheá-las, palpá-las, compará-las, cria uma ponte nova entre o passado e o presente. O que parecia silêncio definitivo pode tornar-se, para quem se deixa seduzir pela sua contemplação, música recordada depois de esquecida. Por alguns dias, os códices acordam da sua letargia nas prateleiras das estantes. Paralisados durante décadas, escondidos debaixo do pó, reduzidos a cotas numéricas como tatuagens de presidiários, recordam agora, pelo simples facto de existirem, os ofícios divinos, as cerimónias litúrgicas, a salmodia e o canto gregoriano que, por meio deles, se celebravam. Para quem os olha racionalmente, não passam de códices pergamináceos. As suas formas são diferentes, mas o conteúdo é o mesmo. Mas, se os deixarmos falar, se permitimos à nossa imaginação representar as comunidades que os criaram e usaram, então damos conteúdo à História. Projetamos o filme de que foram atores, escutamos a melodia ou a polifonia dos seus cânticos, admiramos as longas horas que os copistas e iluminadores passaram a copiá-los, sentimos o respeito com que os reis, príncipes e prelados os encomendaram, receberam e verificaram se eram dignos de materializar a liturgia sagrada.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

Nesta exposição encontramos dois tipos diferentes: além dos códices monumentais que materializam a sacralidade da Palavra de Deus, há os códices mais pequenos, num volume só mas com o texto completo, com iluminuras muito mais reduzidas, muito diferentes, pois, das Bíblias solenes do século XII. São as Bíblias portáteis usadas sobretudo pelos mestres das universidades, que viajavam frequentemente e tinham de comentar a Sagrada Escritura, mas também pelos monges, frades mendicantes e clérigos que não podiam assistir aos ofícios divinos, mas tinham, nesse caso, de rezar sozinhos, em silêncio, onde quer que estivessem. As «Bíblias de bolso» passaram então a ser produzidas e vendidas por copistas profissionais. Olhamos com espanto a sua letra minúscula e perguntamos por que razão não dividiam o texto em mais do que um só volume. Talvez porque a unidade compacta do texto representava a unicidade sagrada da Palavra divina, do Logos, do Verbo. O trabalho analítico dos teólogos não devia afetar a totalidade e a eternidade do seu sentido. Sem palavras, as Bíblias convidam-nos, pois, a viver espiritualmente o diálogo com Deus, quer dizer, a unir num só tempo – o momento presente e o eterno – a interpelação intemporal do Verbo a toda a Humanidade.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

Todavia, a presença conjunta dos volumes medievais induz só por si uma potencialidade própria. Os especialistas da teologia e da cultura bíblicas interessar-se-ão, provavelmente, pela fidelidade do texto transmitido nestes códices, e verão, decerto, nesta exposição a oportunidade de os comparar entre si. Os estudiosos da iluminura descobrirão aqui motivos decorativos, cenas historiadas, aparato visual, cuidado no pormenor, fantasia ou realismo, simbologia multiplicadora de representações novas e antigas, ideias e conceitos semelhantes ou diferentes, mas sempre mais complexos do que até aqui pensavam os especialistas. Os conhecedores da história monástica apreciarão novos elementos acerca da vida quotidiana e da cultura material que estes espantosos e monumentais códices solenes fazem ver só por si. Os historiadores da teologia examinarão as «Bíblias de bolso», com a sua letra minúscula, mas não deixarão de analisar as pequeninas e delicadas iluminuras, procurando averiguar a sua eventual relação simbólica com o texto visualmente monótono ou, porventura, uma função mnemónica destinada a quem queria saber alguns capítulos de cor.




Imagem © "In principio - A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David" | Documenta/Sistema Solar

O uso da Bíblia do século XII para o XIII transforma, pois, a sua aparência material. Através da sua forma os códices transportam-nos ao tempo que os criou. Uns ao "Opus Dei", ao cântico contínuo do ofício divino, à oração contemplativa dos monges ou à obrigação que os príncipes têm de promover a criação de códices que simbolizem a origem divina do seu poder. Outros ao estudo universitário, à perscrutação dos múltiplos sentidos da Palavra (o histórico, o moral, o alegórico e o escatológico), com a ajuda dos comentadores que viajam e ensinam e que, por isso, compram os minicódices portáteis aos seus copistas profissionais. Com os nossos olhos e as nossas mãos, vemos e tocamos o infinito respeito do monge pela Palavra sagrada sob a forma de cântico. E também, com os mesmos olhos e as mesmas mãos, o mesmo respeito pela mesma palavra, mas sob a forma de enigma que requer explicação. Sob aparências diferentes, a Palavra é sempre única. Não se pode dividir, recortar, nem isolar.

 

Publicado em 17.05.2016

 

Título: In Principio – A Bíblia Medieval em diálogo com a pintura de Ilda David
Textos: José Mattoso, Xavier van Binnebeke, Luís Correia de Sousa, José Tolentino Mendonça, Teresa Duarte Ferreira, Ana Cristina de Santana Silva, Lígia de Azevedo Martins
Editora: Documenta
Páginas: 120
Preço: 20,00 €
ISBN: 978-989-8834-21-8

 

 
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