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«Igreja não precisa de dinheiro sujo» porque Deus quer «mãos purificadas»: Papa fala de misericórdia e conversão

Imagem Papa Francisco | D.R.

«Igreja não precisa de dinheiro sujo» porque Deus quer «mãos purificadas»: Papa fala de misericórdia e conversão

O papa vincou hoje, no Vaticano, que a Igreja recusa ofertas conseguidas à custa de «dinheiro sujo».

«Penso em alguns benfeitores da Igreja que vêm com a oferta – “esta oferta é para a Igreja” – que é fruto do sangue de tanta gente explorada, maltratada, escravizada, com o trabalho mal pago. Eu direi a essa gente: “Por favor, leva de volta o teu cheque, queima-o". O povo de Deus, isto é, a Igreja, não precisa de dinheiro sujo, precisa de corações abertos à misericórdia de Deus. É necessário aproximar-se de Deus com mãos purificadas, evitando o mal e praticando o bem e a justiça», afirmou.

As palavras de Francisco foram proferidas na audiência geral, onde prosseguiu a catequese sobre a misericórdia, que apresentamos seguidamente, na íntegra.

«Falando da misericórdia divina, evocámos várias vezes a figura do pai de família, que ama os seus filhos, ajuda-os, toma conta deles, perdoa-os. E como pai, educa-os e corrige-os quando erram, favorecendo o seu crescimento no bem.

É assim que é apresentado Deus no primeiro capítulo do profeta Isaías, no qual o Senhor, como pai afetuoso mas também atento e severo, se dirige a Israel acusando-o de infidelidade e corrupção para o voltar a dirigir para o caminho da justiça. Inicia assim o nosso texto:

"Ouvi, ó céus, e escuta, ó terra, porque é o Senhor quem te fala: 'Criei filhos e fi-los crescer, mas eles revoltaram-se contra mim. O boi conhece o seu dono, e o jumento, o estábulo do seu senhor; mas Israel, meu povo, nada entende'" (1, 2-3).

Deus, através do profeta, fala ao povo com a amargura de um pai desiludido: fez crescer os seus filhos, e agora eles rebelaram-se contra Ele. Até os animais são fiéis ao seu dono e reconhecem a mão que os alimenta; o povo, pelo contrário, já não reconhece Deus, recusa-se a compreender. Apesar de ferido, Deus deixa falar o amor e apela à consciências desses filhos degenerados para que se corrijam e se deixem de novo amar. É isto que Deus faz. Vem até nós para nos amar (…).

A relação pai-filho, a que com frequência os profetas fazem referência para falar da relação de aliança entre Deus e o seu povo, degenerou-se. A missão educativa dos pais visa fazê-los crescer na liberdade, torna-los responsáveis, capazes de realizar obras de bem para si e para os outros. Todavia, por causa do pecado, a liberdade torna-se pretensão de autonomia e o orgulho leva à contraposição e à ilusão de autossuficiência.

Eis então que Deus volta a chamar o seu povo. Errastes o caminho. Afetuosamente e com amargura diz o "meu" povo – Deus nunca nos renega; nós somos o seu povo. O mais malvado dos homens, a mais malvada das mulheres, o mais malvado dos povos são seus filhos. E este é Deus: nunca, nunca nos renega. Diz sempre: “Filho, vem”. E este é o amor do nosso Pai; esta a misericórdia de Deus. Ter um pai assim dá-nos esperança, dá-nos confiança. Esta pertença deve ser vivida na confiança e na obediência, com a consciência de que tudo é dom que vem do amor do Pai. E no entanto, eis a vaidade, a estultícia e idolatria.

Por isso o profeta dirige-se agora diretamente a esse povo com palavras severas para o ajudar a compreender a gravidade da sua culpa: "Ai de vós, nação pecadora […], filhos malvados! Abandonaram o Senhor, renegaram o Santo de Israel, voltaram-lhe as costas" (v. 4).

A consequência do pecado é um estado de sofrimento, de que sofrem as consequências também o país, devastado e tornado como um deserto, ao ponto de Sião se tornar inabitável. Onde há a recusa de Deus, da sua paternidade, a vida deixa de ser possível, a existência perde as suas raízes, todo aparece pervertido e aniquilado.

Todavia, mesmo este momento doloroso existe em vista da salvação. A provação é dada para que o povo possa experimentar a amargura de quem abandona Deus, e assim se confrontar com o vazio desolador de uma escolha de morte. O sofrimento, consequência inevitável de uma decisão autodestrutiva, deve fazer refletir o pecador para o abrir à conversão e ao perdão.

Este é o caminho da misericórdia divina: Deus não nos trata segundo as nossas culpas. A punição torna-se o instrumento para provocar e refletir. Compreende-se assim que Deus perdoa o seu povo, faz graça e não destrói tudo, mas deixa sempre aberta a porta à esperança.

A salvação implica a decisão de escutar e deixar-se converter, mas permanece sempre dom gratuito. O Senhor, assim, na sua misericórdia, indica um caminho que não é o dos sacrifícios rituais, mas sobretudo da justiça. O culto é criticado não porque é inútil em si mesmo, mas porque, em vez de exprimir a conversão, pretende substituí-la; e torna-se assim procura da própria justiça, criando a enganosa convicção de que são os sacrifícios a salvar, e não a misericórdia divina que perdoa o pecado (…).

Para entender bem: quando alguém está doente, vai ao médico; quando alguém se sente pecador, vai ao Senhor. Mas se em vez de ir ao médico, vai ao feiticeiro, não se cura. Muitas vezes preferimos ir por caminhos transviados, procurando uma justificação, uma justiça, uma paz que nos é oferecida como dom do próprio Senhor.

Deus, diz o profeta Isaías, não se agrada do sangue dos carneiros e dos vitelos (cf. v. 11), sobretudo se a oferta é feita com as mãos sujas do sangue dos irmãos (cf. v. 15).

Penso em alguns benfeitores da Igreja que vêm com a oferta – “esta oferta é para a Igreja” – que é fruto do sangue de tanta gente explorada, maltratada, escravizada, com o trabalho mal pago. Eu direi a essa gente: “Por favor, leva de volta o teu cheque, queima-o". O povo de Deus, isto é, a Igreja, não precisa de dinheiro sujo, precisa de corações abertos à misericórdia de Deus. É necessário aproximar-se de Deus com mãos purificadas, evitando o mal e praticando o bem e a justiça.

Como é belo como termina o profeta: "Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas" (vv. 16-17). Pensai nos muitos refugiados que desembarcam na Europa e não sabem para onde ir.

Então, diz o Senhor, os pecados, mesmo que sejam escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve (…) e brancos como a lã, e o povo poderá alimentar-se dos bens da terra e viver na paz (cf. v. 19).

É este o milagre do perdão que Deus, como Pai, quer dar ao seu povo. A misericórdia de Deus é oferecida a todos, e estas palavras do profeta valem também hoje para todos nós, chamados a viver como filhos de Deus. Obrigado.»

 

Papa Francisco
Catequese na audiência geral de 2.3.2016, Vaticano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 02.02.2016

 

 
Imagem Papa Francisco | D.R.
Onde há a recusa de Deus, da sua paternidade, a vida deixa de ser possível, a existência perde as suas raízes, todo aparece pervertido e aniquilado
O mais malvado dos homens, a mais malvada das mulheres, o mais malvado dos povos são seus filhos. E este é Deus: nunca, nunca nos renega. Diz sempre: “Filho, vem”
Penso em alguns benfeitores da Igreja que vêm com a oferta – “esta oferta é para a Igreja” – que é fruto do sangue de tanta gente explorada, maltratada, escravizada, com o trabalho mal pago. Eu direi a essa gente: “Por favor, leva de volta o teu cheque, queima-o"
Pensai nos muitos refugiados que desembarcam na Europa e não sabem para onde ir
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