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«A Igreja não é uma equipa de futebol que procura adeptos», afirma papa

«A Igreja não é uma equipa de futebol que procura adeptos», afirma papa

Imagem Papa Francisco | neneo/Bigstock.com

«A Igreja não é uma equipa de futebol que procura adeptos». Responde assim o papa Franisco a uma pergunta de Stefania Falasca, editorialista do diário italiano “Avvenire”, da Igreja católica, na longa e articulada entrevista que é hoje publicada, poucas horas antes do encerramento do jubileu extraordinário da misericórdia, muito centrada no ecumenismo. O texto integral está disponível, à hora em que redigimos este artigo, na página do jornal, mediante pagamento.

Bergoglio liga determinadas «réplicas» à exortação pós-sinodal “A alegria do amor” (“Amoris laetitia”) à difícil e ainda não realizada receção do Concílio Vaticano II (1962-1965). Como é sabido, é destes dias a publicação de uma carta de quatro cardeais ao papa, contendo dúvidas sobre o documento dedicado à família, com data de 19 de março deste ano.

 

Amoris laetitia e o «legalismo»

«A Igreja só existe como instrumento para comunicar aos homens o desígnio misericordioso de Deus. No Concílio a Igreja sentiu a responsabilidade de estar no mundo como sinal vido do amor do Pai. Com a “Lumen gentium” [um dos mais importantes documentos do Vaticano II, dedicado à identidade e missão da Igreja] voltou às fontes da sua natureza, ao Evangelho. Isto desloca o eixo da conceção cristã de um certo legalismo, que pode ser ideológico, para a Pessoa de Deus que se fez misericórdia na incarnação do Filho. Alguns – pense-se em certas réplica à “Amoris laetitia” – continuam a não compreender, ou branco ou preto, ainda que seja no fluxo da vida que se deve discernir. O Concílio disse-nos isto, os historiadores, no entanto, dizem que um Concílio, para ser bem absorvido pelo corpo da Igreja, precisa de um século… Estamos a metade.»



Santa Teresa de Lisieux, que é doutora da Igreja, na sua «pequena via» para Deus indica o abandono da criança, que adormece sem reservas entre os braços do seu pai e recorda que a caridade não pode permanecer fechada no fundo. Amor de Deus e amor do próximo são dois amores inseparáveis



Um Ano Santo sem «grandes gestos»

«Quem descobre que é muito amado começa a sair da má solidão, da separação que conduz a odiar os outros e a si mesmo. Espero que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas por Jesus e se tenham deixado abraçar por Ele. A misericórdia é o nome de Deus e é também a sua fraqueza, o seu ponto fraco. A sua misericórdia condu-lo sempre ao perdão, a esquecer-se dos nossos pecados. A mim agrada-me pensar que o Omnipotente tem má memória. Um vez que te perdoa, esquece. Porque é feliz por perdoar. Para mim isso basta (…). Jesus não pede grandes gestos, mas só o abandono e o reconhecimento. Santa Teresa de Lisieux, que é doutora da Igreja, na sua «pequena via» para Deus indica o abandono da criança, que adormece sem reservas entre os braços do seu pai e recorda que a caridade não pode permanecer fechada no fundo. Amor de Deus e amor do próximo são dois amores inseparáveis.»

 

Para o Jubileu «não fiz um plano»

«Não fiz um plano. Fiz simplesmente aquilo que me inspirava o Espírito Santo. As coisas aconteceram. Deixei-me conduzir pelo Espirito. Tratava-se só de ser dócil ao Espírito Santo, de deixar que Ele fizesse. A Igreja é o Evangelho, é obra de Jesus Cristo. Não é um caminho de ideias, um instrumento para as afirmar. E na Igreja as coisas entram no tempo quando o tempo está maduro, quando se oferece.»



Em Lesbos, enquanto juntos saudávamos todos, havia uma criança para a qual eu me tinha inclinado. Mas eu não lhe interessava, porque ela que olhava para trás de mim. Voltei-me e vi porquê: Bartolomeu tinha os bolsos cheios de doces e estava a dá-los às crianças, todo contente



A aceleração dos encontros ecuménicos

«É o caminho do Concílio que segue em frente, que se intensifica. Mas é o caminho, não sou eu. Este caminho é o caminho da Igreja. Eu encontrei-me com os primazes e os responsáveis, é verdade, mas também os outros meus predecessores tiveram os seus encontros com estes ou outros responsáveis. Não dei nenhuma aceleração. À medida que seguimos em frente o caminho parece andar mais veloz, é o “motus in fine velocior” [intensificação de uma ação quando se aproxima do fim], para o dizer segundo o processo expresso na física aristotélica.»

 

Os doces do patriarca Bartolomeu

«Em Lesbos, enquanto juntos saudávamos todos, havia uma criança para a qual eu me tinha inclinado. Mas eu não lhe interessava, porque ela que olhava para trás de mim. Voltei-me e vi porquê: Bartolomeu tinha os bolsos cheios de doces e estava a dá-los às crianças, todo contente. Este é Bartolomeu, um homem capaz de levar por diante, entre muitas dificuldades, o Grande Concílio ortodoxo, de falar de teologia a alto nível, e de estar simplesmente com as crianças. Quando vinha a Roma ocupava na Casa de Santa Marta o quarto onde eu estou agora. A única crítica que me fez é que eu devia mudá-lo.»



Penso no trabalho que após o encontro de Lund podem fazer juntas a Cáritas e as organizações caritativas luteranas. Não é uma instituição, é um caminho. Certas formas de contrapor as “coisas da doutrina” às “coisas da caridade pastoral”, ao contrário, não são segundo o Evangelho e criam confusão



A acusação de “protestantizar” a Igreja (após a viagem a Lund, Suécia, 31/10/2016)

«Não me tira o sono. Prossigo no caminho de quem me precedeu, sigo o Concílio. Quanto às opiniões, é preciso distinguir sempre o espírito com que são ditas. Quando não há um espírito mau, ajudam inclusive a caminhar. Outras vezes vê-se logo que as críticas servem, aqui e ali, para justificar uma posição já assumida, não são honestas, são feitas com espírito mau para fomentar divisão. Vê-se logo que certos rigorismos nascem de uma carência, do querer esconder dentro de uma armadura a própria triste insatisfação. Se se vir o filme “A festa de Babette” vê-se este comportamento rígido.»

 

O ecumenismo prático e as disputas teológicas

«Não se trata de colocar alguma coisa de lado. Servir os pobres quer dizer servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo. E se servimos os pobres juntos, quer dizer que nós, cristãos, nos encontramos unidos no tocar as chagas de Cristo. Penso no trabalho que após o encontro de Lund podem fazer juntas a Cáritas e as organizações caritativas luteranas. Não é uma instituição, é um caminho. Certas formas de contrapor as “coisas da doutrina” às “coisas da caridade pastoral”, ao contrário, não são segundo o Evangelho e criam confusão.»



Na reação de Lutero estava também isto: a recusa de uma imagem de Igreja como uma organização que podia seguir em frente dispensando a graça do Senhor, ou considerando-a como uma posse dada por certa, garantida “a priori”. E esta tentação de construir uma Igreja autorreferencial, que conduz à contraposição e, por isso, à divisão, regressa sempre



A unidade entre os cristãos é um caminho

«A unidade não se faz porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus. E caminhando, por obra daquele que seguimos, podemos descobrir-nos unidos. É um caminhar atrás de Cristo que une. Converter-se significa deixar que o Senhor viva e opere em nós. Assim descobrirmos que nos encontramos unidos também na nossa missão comum de anunciar o Evangelho. Caminhando e trabalhando juntos, damo-nos conta de que somos já unidos no nome do Senhor e que portanto a unidade não somos nós que a criamos. Damo-nos conta de que é o Espírito que nos impele e nos leva em frente. Se tu és dócil ao Espírito, será Ele a dizer-te o passo que podes dar, o resto fará Ele. Não se pode andar atrás de Cristo se não te leva, se não te impele o Espírito com a sua força. Por isso é o Espírito o artífice da unidade entre os cristãos. É por isso que eu digo que a unidade faz-se em caminho, porque a unidade é uma graça que se deve pedir, e também porque repito que todo o proselitismo entre cristãos é pecaminoso. A Igreja nunca cresce por proselitismo, mas “por atração”, como escreveu Bento XVI. O proselitismo entre cristãos, portanto, é em si mesmo um pecado grave porque contradiz a própria dinâmica de como se torna e se permanece cristão. A Igreja não é uma equipa de futebol que procura adeptos.»

 

A chave do ecumenismo

«Fazer processos em vez de ocupar espaços é também a chave do caminho ecuménico. Neste momento histórico a unidade faz-se em três vias: caminhar juntos com as obras de caridade, orar juntos, e depois reconhecer a confissão comum tal como se exprime no comum martírio recebido no nome de Cristo, no ecumenismo do sangue. Aí se vê que o próprio Inimigo reconhece a nossa unidade, a unidade dos batizados. O Inimigo, nisto, não erra. E estas são todas expressões de unidade visível. Rezar juntos é visível. Realizar obras de caridade juntos é visível. O martírio partilhado no nome de Cristo é visível.»



Quando a Igreja, em vez de olhar para Cristo, olha demasiadamente para si mesma vêm também as divisões. Foi o que aconteceu após o primeiro milénio. Olhar Cristo liberta-nos deste hábito, e também da tentação do triunfalismo e do rigorismo



O «cancro» na Igreja

«Continuo a pensar que o cancro na Igreja é o dar-se glória um ao outro. Se alguém não sabe quem é Jesus, ou nunca o encontro, pode sempre encontra-lo; mas se alguém está na Igreja, e se move nela porque precisamente no âmbito da Igreja cultiva e alimenta a sua fome de domínio e afirmação de si, tem uma doença espiritual, acredita que a Igreja é uma realidade humana autossuficiente, onde tudo se move segundo lógicas de ambição e poder. Na reação de Lutero estava também isto: a recusa de uma imagem de Igreja como uma organização que podia seguir em frente dispensando a graça do Senhor, ou considerando-a como uma posse dada por certa, garantida “a priori”. E esta tentação de construir uma Igreja autorreferencial, que conduz à contraposição e, por isso, à divisão, regressa sempre.»

 

Os ortodoxos e a unidade do primeiro milénio

«Devemos olhar para o primeiro milénio, pode sempre inspirar-nos. Não se trata de voltar atrás de maneira mecânica, não é simplesmente fazer marcha-atrás: nele há tesouros válidos ainda hoje (…). Os Padres da Igreja dos primeiros séculos tinham claro que a Igreja vive, instante por instante, da graça de Cristo. Por isso – já o disse outras vezes – diziam que a Igreja não tem luz própria, e chamavam-na “mysterium lunae”, o mistério da lua. Porque a Igreja dá luz, mas não brilha pela luz própria. E quando a Igreja, em vez de olhar para Cristo, olha demasiadamente para si mesma vêm também as divisões. Foi o que aconteceu após o primeiro milénio. Olhar Cristo liberta-nos deste hábito, e também da tentação do triunfalismo e do rigorismo. E faz-nos caminhar juntos no caminho da docilidade ao Espírito Santo, que conduz à unidade.»



 

Andrea Tornielli
In Vatican Insider
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.11.2016

 

 
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