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Igreja analisa efeitos da inteligência artificial na qualidade e objetivos de vida

Igreja analisa efeitos da inteligência artificial na qualidade e objetivos de vida

Imagem studiostoks/Bigstock.com

A Igreja católica está a analisar, em Roma, as implicações éticas e económicas da emergência da inteligência artificial e da robótica, a par das consequências que estas terão para a própria compreensão do ser humano.

“Futuro da humanidade – Novos desafios à antropologia” é o tema escolhido pelo Conselho Pontifício da Cultura para a sua assembleia plenária, reunindo para o efeito especialistas em filosofia, psicologia e inteligência artificial, assim como responsáveis de empresas ligadas à investigação científica.

Os intervenientes, bem como os membros e consultores do Conselho Pontifício da Cultura, procurarão estabelecer os parâmetros para decidir que orientação deve ter a pesquisa «sem basear-se exclusivamente em critérios técnicos ou económicos», como é sublinhado na introdução do documento de enquadramento da assembleia, que reproduzimos seguidamente. 

«Vivemos uma era de profundas mudanças sociais e culturais, que as anteriores assembleias plenárias [do Conselho Pontifício da Cultura] procuraram analisar e estudar: as novas linguagens e as novas gramáticas da comunicação (2010), o universo juvenil e as novas culturas emergentes (2013), as novas formas de protagonismo das mulheres na cultura (2015). No entanto, as mudanças mais profundas não têm a ver com este ou aquele aspeto da sociedade, estando antes em jogo questões antropológicas fundamentais, está o próprio ser humano. A Igreja, para anunciar o Evangelho ao homem de hoje e apresentar uma proposta compreensível e credível, não pode dispensar-se de entrar neste debate.



Num nível mais profundo, pretende-se entender as finalidades, os objetivos e as motivações de quem promove a investigação científica



Por isso, o objetivo geral da Assembleia é abrir um diálogo sobre o futuro da humanidade, detendo-se em particular em algumas questões fundamentais, tais como o conceito de natureza humana, a relação entre mente e corpo, o papel da pessoa numa sociedade de máquinas pensantes. Estes são apenas alguns temas que consideramos ser mais urgente focalizar a atenção. Com efeito, as últimas décadas viram, entre outras coisas, extraordinários avanços científicos que têm um impacto direto na autocompreensão do homem, em particular no campo da genética, das neurociências e da inteligência artificial. Estes avanços têm potencialmente a capacidade de transformar radicalmente muitos aspetos da vida humana e obrigam-nos a repensar o modo como compreendemos a saúde humana e o bem-estar, físico e psicológico; a repensar também a nossa compreensão da responsabilidade humana e do livre arbítrio; e a considerar a aparição de máquinas capazes de exibir formas de inteligência, capacidades linguísticas e de raciocínio, que no passado se consideravam como exclusivas dos seres humanos. Estes avanços exigem não apenas uma apreciação moral, mas, mas radicalmente, impõem-nos a tarefa de rever as categorias antropológicas e éticas tradicionalmente usadas para expressar tais juízos de valor.

Mais concretamente, o objetivo da Assembleia é compreender melhor os contextos culturais em que se estão a verificar aqueles progressos. Para esse fim, prevê-se apresentar, por um lado, o estado atual das investigações científicas relativas àqueles problemas, e delinear as possíveis aplicações das recentes descobertas científicas e das inovações tecnológicas, atendendo ao seu provável impacto em setores como a medicina e a saúde, a economia e o comércio, a política e a sociedade.



As perguntas sobre o futuro da humanidade e o impacto da ciência e da tecnologia precisam de receber a atenção de um público mais amplo e não podem ser cedidas exclusivamente aos cientistas e aos tecnólogos



Por outro lado, num nível mais profundo, pretende-se entender as finalidades, os objetivos e as motivações de quem promove a investigação científica. É necessário dialogar com eles para debater as questões que têm a ver com os pressupostos antropológicos e filosóficos, detendo-se na sua compreensão do que significa ser “humano” e na conceção da vida humana e da sociedade que está a influenciar a direção da sua investigação. Isto é particularmente importante num mundo onde a investigação científica está globalizada, embora nem todos partilhem as mesmas tradições culturais e éticas implicadas. Estas suposições e conceções são muitas vezes implícitas e não explícitas, e todavia são as premissas fundamentais que, reconhecidas ou não, na realidade determinam os critérios éticos. Se não se examinam estas convicções profundas e se não se submetem a uma reflexão crítica, grande parte do nosso discurso ético está destinado a restar superficial e improvável para buscar um consenso e um acordo.

Um segundo objetivo particular da Assembleia é animar a diversidade de critérios de investigação, e portanto uma síntese interdisciplinar, em que diversos pontos de vistas sobre estes problemas possam iluminar-se mutuamente. Trata-se de promover a consciência de que as perguntas sobre o futuro da humanidade e o impacto da ciência e da tecnologia precisam de receber a atenção de um público mais amplo e não podem ser cedidas exclusivamente aos cientistas e aos tecnólogos. Com efeito, não se trata apenas de julgar os avanços da investigação científica, mas de estabelecer os critérios para decidir que orientação deve ter, sem basear-se exclusivamente em critérios técnicos ou económicos. Tal aproximação interdisciplinar ajudar-nos-ia a evitar o que o papa Francisco, na “Laudato si’”, chama o paradigma tecnocrático, que considera o método e as finalidades da ciência e da tecnologia o critérios epistemológico exclusivo que modela a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Tal paradigma gera uma aproximação reducionista ou unidimensional da vida e deve ser integrado com as intuições e outras formas de saber. Isto implica uma aproximação cultural que possa favorecer «um olhar distinto, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade» (“Laudato si’”, 111).



Quem determinará o que é eticamente discutível ou não, nas diferentes formas de investigação e experimentação?



Com esta aproximação, que é simultaneamente de análise, de avaliação crítica e de proposta pastoral, colocam-se as condições para que os crentes possam sentir-se plenamente legitimados e animados a oferecer a sua própria contribuição a partir da visão de fé pessoal para a inculturar nos novos contextos culturais: «Espera-se ainda o desenvolvimento de uma nova síntese que supere falsas dialéticas dos últimos séculos. O mesmo cristianismo, mantendo-se fiel à sua identidade e ao tesouro de verdade que recebeu de Jesus Cristo, repensa-se sempre e expressa-se de novo no diálogo com as novas situações históricas, deixando brotar assim a sua eterna novidade» (“Laudato si’”, 121).

Estas seriam algumas questões importantes que se devem debater: como estabelecer que o progresso respeite igualmente a dignidade humana? Quem determinará o que é eticamente discutível ou não, nas diferentes formas de investigação e experimentação? Como se financiará a investigação e de quem serão os direitos de propriedade intelectual e económicas das novas aplicações? Estas e outras perguntas semelhantes estão a receber a devida atenção por parte dos meios de comunicação, de escritores, de cineastas, de operadores culturais, e consequentemente, impuseram-se como temas na cultura popular. Espera-se abrir, no contexto da Assembleia, um diálogo profundo e amplo em torno a estas perguntas e poder debater questões mais profundas respeitantes à identidade humana, a qualidade e o objetivo da vida, estudadas já por filósofos e teólogos, para oferecer um contributo ao debate público.»



 

In Conselho Pontifício da Cultura
Trad.: SNPC
Publicado em 18.11.2017

 

 

 
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