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Iconografias de Nossa Senhora

Iconografias de Nossa Senhora

Imagem Nossa Senhora da Humildade durante um concerto do Semibreve | D.R.

Foi remodelada, há pouco mais de um ano, a capela do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga. Já a visitei várias vezes e de cada vez descubro novas particularidades e novos sentidos nessa obra de arte de que a cidade se deve orgulhar. Queria, neste breve apontamento, referir-me apenas à imagem de Nossa Senhora da Humildade que nessa capela se encontra e que, segundo ouço dizer, tem provocado alguma polémica.

As invocações e iconografias de Nossa Senhora são espantosamente variadas, testemunhando o amor que o povo de Deus sempre lhe dedicou e, ao mesmo tempo, a arte admirável de tantos e tantos que, ao longo dos séculos, deixaram na escultura, na música, na pintura, na literatura, o testemunho da sua devoção e do seu saber artístico. Com razão disse o Senhor Arcebispo de Braga, na cerimónia da dedicação da nova capela, que a Igreja ofereceu à Humanidade as mais belas obras de arte.



Imagem D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, no ato de colocar a coroa nas mãos de Nossa Senhora da Humildade | D.R.

Vem a propósito lembrar que a Igreja não considera nenhuma escola artística como exclusiva sua. O que se pede para que uma obra de arte seja considerada arte sacra e, portanto, admitida na assembleia dos fiéis e nas celebrações litúrgicas, é que ajude o homem a contactar com Deus e manifeste, na medida do possível, ao menos um vislumbre da beleza divina. A revelação da beleza de Deus na arte e, ao mesmo tempo, a expressão da reacção do homem perante essa beleza tem-se feito, ao longo da História, das mais variadas maneiras. Ora mais abstracta, ora mais realista – se é que se pode ser realista na expressão do divino que os nossos olhos não viram nunca – toda a boa obra de arte sacra revela esta ou aquela faceta de Deus, esta ou aquela maneira de o homem conceber a divindade.

Acontece que a nossa sensibilidade se habitua a determinadas expressões artísticas e sente depois dificuldade em adaptar-se às novas formas e aos novos conteúdos que, juntamente com elas, nos são propostos. A primeira reacção será de rejeição, mas, pouco a pouco, vamos também deixando que a nova obra de arte se infiltre no nosso espírito e como que o reeduque, a ponto de sermos capazes de ver o que de bom ela nos propõe. Neste mundo da criação artística, devemos, por princípio, manter o espírito aberto, numa atitude de aceitação do que “os novos” têm para nos dizer. Não se trata de cedência, nem de relativismo, nem de laxismo. É a atitude inteligente de quem se dispõe a observar criticamente as manifestações sempre renovadas da vida e da arte.

Julgo que estas brevíssimas considerações ajudarão a compreender melhor a imagem de Nossa Senhora da Humildade, esculpida pelo escultor norueguês Asbjørn Andresen, e que se encontra, como já disse, na capela de Nossa Senhora da Conceição. Várias das suas características, na verdade, poderão contribuir para perturbar os nossos critérios artísticos e até, eventualmente, a nossa sensibilidade religiosa.



Imagem Particular de Nossa Senhora da Humildade | Maria, Mãe de Deus, obra da escola das províncias Úmbria-Marcas, da segunda metade do séc. XIV, adquirida pelo papa Paulo VI em 1978 e doada pelo papa Francisco à basílica de S. João de Latrão | D.R.

1. Em primeiro lugar, a sua colocação na capela. É mesmo o aspecto mais inovador e desafiante. Estamos habituadíssimos a encontrar as imagens de Cristo, de Nossa Senhora e dos santos num lugar alto, seja fora do templo, seja dentro, na capela-mor ou em capelas laterais. Essa colocação tem, desde logo, uma funcionalidade precisa que é a de tornar as imagens imediatamente visíveis a quem entra. Mas o significado profundo dessa colocação é o de que estamos perante representações de alguém que nos é superior.



Imagem Nossa Senhora da Humildade com manto da Escola Museu de bilros de Vila do Conde | Virgem de La Malena (séc. XI), Huesca, Espanha | D.R.

É impossível que o escultor da Senhora da Humildade não conhecesse tal significado. Portanto, ao decidir colocar a imagem ao mesmo nível dos fiéis, pretende dar-nos um novo sentido, que me parece óbvio. Está a acentuar que Nossa Senhora é um membro da Igreja como todos nós, crente com os crentes, escutando atentamente a palavra de Deus, como revelam os olhos bem abertos, e participante como todos nós nos mistérios sagrados. Nossa Senhora como que abdica da sua posição de superioridade para, humildemente, se afirmar como uma de entre nós e nos convidar também à prática dessa virtude. Justifica-se, portanto, perfeitamente, a invocação que lhe foi dada de Nossa Senhora da Humildade.

 

2. Iconograficamente, a posição de Nossa Senhora a que estamos mais habituados é talvez a posição apeada. Não deve, contudo, perturbar-nos a posição sentada que agora nos é proposta. Aliás, essa posição foi, durante muito tempo, a preferida da iconografia mariana. Só que Nossa Senhora era apresentada sentada num trono e não numa vulgar cadeira, igual à dos outros fiéis que a ladeiam. Sentar, escultoricamente, Nossa Senhora num trono significa que ela é pensada como Rainha ou Imperatriz. Sentá-la numa cadeira normal reforça a ideia de que ela faz parte da assembleia dos fiéis que a seu lado se sentam. É mais um sinal que se adequa à invocação de Senhora da Humildade.

Um outro pormenor nos chamará também a atenção: o facto de o pé direito se encontrar levemente virado para dentro. Interpreto essa característica como sinal de modéstia, de uma certa timidez, de respeito e humildade por parte de quem se encontra diante de Deus, participando nos mistérios que naquele espaço se celebram.

 

3. Um outro sinal importante dessa humildade é o facto de um dos atributos mais frequentes de Nossa senhora, que é a coroa, não só não estar colocada na cabeça, como nem sequer ser visível de longe. Só quem se aproximar verá que a imagem tem, na verdade, coroa, mas está nas mãos. Quer isto dizer que o escultor não nega o título de rainha à mãe de Deus, mas chama a atenção para a humildade de quem se definiu como serva do Senhor. E convém ainda lembrar que muitas imagens de Maria, ao longo da História da Arte, não apresentam coroa nem sequer nimbo. Desse ponto de vista, a imagem da Capela da Imaculada é até bastante conservadora.



Imagem Virgem negra de Rocamadour (séc. IX), França | Coroa de Nossa Senhora da Humildade | D.R.

4. Poderão também causar estranheza as roupas que a imagem enverga. Estamos habituados a ver Nossa Senhora com longas vestes caindo até aos pés e, por vezes, cobrindo-os completamente. Era a maneira como se vestiam as mulheres contemporâneas de Cristo e a maneira como se vestiram durante os séculos que se seguiram, até ao nosso tempo. Só muito recentemente, no ocidente e nas regiões influenciadas pela cultura ocidental, se começou a usar a saia curta, perto do joelho. Estou convencido de que, se Nossa Senhora tivesse vivido no nosso tempo, usaria uma roupa semelhante à da escultura.



Imagem Rosto de Nossa Senhora da Humildade | D.R.



Imagem Nossa Senhora dos Anjos (séc. XII), Villanúa, Espanha | Detalhe do rosto da Virgem com o Menino (segunda metade do séc. XII), Auvergne, França | D.R.

5. O mesmo se poderia dizer quanto ao penteado. Estamos habituados a ver as imagens da Senhora com o cabelo coberto por um véu ou de cabelos caindo em madeixas pelos ombros e costas. Aqui, o escultor optou por recolhê-los, no alto da cabeça, num puxo que tem um significado marcadamente popular. O puxo no alto da cabeça indicia uma mulher simples, uma mulher de trabalho, que não tem tempo ou posses para ir ao cabeleireiro. Se Nossa Senhora vivesse hoje, provavelmente pentear-se-ia desta maneira. Antigamente, cobrir a cabeça com um véu, significava que a mulher era casada. O facto de a imagem apresentar um véu sobre os ombros lembrará, uma vez mais, a humildade de quem poderia cobrir a cabeça em sinal de respeito, mas já o não faz porque a mulher contemporânea, pelo menos no ocidente, também já o não usa. E repare-se também no facto de a imagem não apresentar nem brincos, nem colares, nem anéis, ao contrário do que já aconteceu noutras épocas. É também um sinal de despojamento e de humildade.



Imagem Nossa Senhora da Humildade ladeada por Asbjørn Andresen (escultor) e António Ferreira Alves (prateiro que produziu a coroa) | D.R.

6. Uma palavra final sobre as feições da escultura. Não são feições que seduzam o olhar, habituados que estamos, já desde a escultura gótica, pelo menos, a rostos de grande delicadeza e perfeição técnica. No presente caso, vemos uma certa ingenuidade técnica, certamente intencional, manifestada no desbaste simples e rápido da madeira e numa pintura que não disfarça sequer nem as rugosidades nem as fissuras. Diríamos que o rosto anguloso e de uma certa dureza se afasta do que os nossos olhos se habituaram a ver em escultura da Senhora. Também neste particular se aproxima da ideia das mulheres comuns, talvez mesmo das mais pobres, despojada de ornamentos, de feições rudes e até disformes, marcadas pela dureza da vida.



Imagem Nossa Senhora da Boa Viagem, 1601-1650, Tesouro-Museu da Sé de Braga | 14. Santa Maria das Areias, sécs. XI-XII, Museu Pio XII, Braga | D.R.

Repare-se, no entanto, que a aparente fealdade das feições não é nova na iconografia mariana. Sobretudo na época românica e mesmo durante a gótica, podemos ver que os rostos de muitas imagens da Senhora estão longe da perfeição técnica e da graciosidade que posteriormente adquiriram. Nem por isso, contudo, deixavam de ser expressivas nem as pessoas de venerá-las.











 




Luís da Silva Pereira
Professor da Universidade Católica Portuguesa
Fonte: Igreja Viva, Diário do Minho, 9.03.2017
Fotografia: Joaquim Félix, Lisa Sigfridsson, Edmundo Correia, Semibreve, AA.VV.
Publicado em 13.03.2017

 

 
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