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O ícone da Dormição da Mãe de Deus: Arte e espiritualidade do Oriente

A 15 de agosto, a Igreja bizantina celebra a festa da Dormição da Mãe de Deus. As narrativas da dormição fazem parte dos escritos apócrifos do Novo Testamento, que constituem uma literatura florescente nos primeiros séculos da Igreja. O desenvolvimento destes relatos sobre a morte da Mãe de Deus deve-se ao concílio de Éfeso (431), que fixou a atenção sobre a eminente dignidade da Virgem Maria, chamada “Théotokos”.

O relato geral sobre o destino final de Maria é frequentemente semelhante nos textos apócrifos, apesar de certas variações. Maria recebe o anúncio da sua morte, pelo arcanjo Gabriel, que lhe dá uma palma. Ela prepara então tudo o que é necessário e profere a sua última oração. Os apóstolos e discípulos são milagrosamente transportados pelas nuvens. Os doentes reúnem-se perto da casa de Maria em Jerusalém, onde muitas maravilhas se manifestam. Jesus aparece para acolher a sua mãe, acompanhada de tropas angélicas. Recebe então a alma de Maria. Os apóstolos depõem o corpo num féretro e transportam-no. Mas um judeu, chamado Jefonias em algumas narrativas, tenta profanar o corpo: então um anjo corta-lhe as mãos, que ficam suspensas no ar, perto da cama. Após uma invocação à Santíssima Virgem, recuperá-las-á. Os apóstolos depõem o corpo num novo sepulcro no Getsémani, local da agonia de Jesus antes de ser preso, condenado e morto.

Alguns textos apócrifos relatam a chegada tardia de Tomé, muito ocupado com o seu ministério apostólico na Índia. Elevado também ele numa nuvem em direção a Jerusalém, encontrou nas alturas a Mãe de Deus que subia corporalmente aos céus. Tomé pede-lhe para o abençoar, e ela oferece-lhe o cinto. Chegado a Jerusalém três dias depois, pede para ver o túmulo da Virgem Maria, que os apóstolos abrem, encontrando-o vazio. Tomé mostra então o cinturão que a Mãe de Deus lhe dera e narra como a viu subir ao céu.



O ícone confere destaque aos rostos: percebe-se a tristeza misturada com uma doce esperança em todos os personagens representados. Esta mistura de tristeza e certeza é um sinal distintivo dos crentes que vivem na expectativa da ressurreição



O ícone que apresentamos pertence à escola de Aleppo. Foi pintado por Girgis Al-Musawwer pela segunda metade do século XVIII. Conservado no arcebispado grego melquita católico Beirute, mede 70 cm de comprimento e 35,5 cm de largura. Uma longa inscrição árabe na parte inferior menciona os nomes dos doadores e refere que o ícone foi oferecido à catedral melquita do Profeta Elias - Beirute em 1883.

Diante de um fundo que ilustra os edifícios de Jerusalém, Maria aparece reclinada numa cama cerimonial no meio dos apóstolos. As mãos dela estão cruzadas sobre o peito e a cabeça com halo está pousada sobre uma pequena almofada. Há duas velas junto da cama. A alma da Virgem é representada na forma de uma figura infantil, que acaba de nascer no Reino. Envolta em panos brancos e coroadas por um halo, repousa sobre os braços de Cristo, ladeado por dois anjos. Como Maria levou ao colo Jesus envolto em faixas, Jesus transporta a alma da sua mãe. A sua morte é o seu nascimento no céu. Cristo está rodeado de uma mandorla luminosa (figura com formato semelhante ao de uma amêndoa que corresponde à intersecção de dois círculos com o mesmo raio), coroada por um serafim, flanqueado por dois anjos.

O apóstolo Pedro está inclinado sobre a cama, em atitude de lamentação; sendo o principal dos apóstolos, preside à cerimónia mortuária e agita o incensário. Aos pés de Maria, o apóstolo Paulo parece também estar a chorar e faz contraponto com Pedro. Quatro bispos (Timóteo, primeiro bispo de Éfeso; Tiago, irmão do Senhor, primeiro bispo de Jerusalém; Dionísio, o aeropagita e Hieroteu, bispo de Atenas) participam igualmente no funeral da Mãe de Deus. Algumas mulheres que lamentam a morte aparecem na parte de trás da assembleia. Em frente à cama vê-se o incidente do judeu incrédulo, em pequenas dimensões. A parte superior do ícone ilustra duas cenas: a chegada dos apóstolos às nuvens, em dois grupos, e a do reencontro de Maria com Tomé.



«Vinde, todos os confins da Terra, cantemos o bem-aventurado trânsito da Mãe de Deus: entre as mãos do seu Filho ela entregou a sua alma sem pecado; pela sua santa Dormição o mundo é de novo vivificado»



O ícone confere destaque aos rostos: percebe-se a tristeza misturada com uma doce esperança em todos os personagens representados. Esta mistura de tristeza e certeza é um sinal distintivo dos crentes que vivem na expectativa da ressurreição.

O ofício litúrgico da Dormição está repleto de alegre esperança. Jesus, que tanto amava a sua mãe, veio do céu para a acompanhar, a fim de que interceda por nós. A liturgia da festa não se limita a assinalar a morte de Maria, ultrapassando essa dimensão ao celebrar a passagem de Maria ao céu em corpo e alma. Isso está claramente representado no ícone da Dormição. Maria pode ser considerada como o tipo acabado de uma morte santa, ela é o nosso modelo na prova da morte. A passagem de Maria, em corpo e alma, para o céu é uma antecipação da ressurreição geral. É a festa da natureza humana: todo o crente deve tomar Maria como modelo para alcançar a deificação.

«Vinde, todos os confins da Terra, cantemos o bem-aventurado trânsito da Mãe de Deus: entre as mãos do seu Filho ela entregou a sua alma sem pecado; pela sua santa Dormição o mundo é de novo vivificado, e é com salmos, hinos e cânticos espirituais que com os anjos e os apóstolos ele a celebra na alegria» (oração proferida aquando da procissão com o ícone da Dormição ao anoitecer de 14 de agosto nas Igrejas do Oriente).


 

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