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Humildade: Da cruz para o mundo

Humildade: Da cruz para o mundo

Imagem "Exodus" (det.) | Marc Chagall | D.R.

Porque é que Jesus se apresenta tão humilde, indefeso, e por isso tão perdedor neste mundo? Decerto por um motivo ascético: Jesus sabe que o orgulho arruinou e homem e por isso ele tem de ser refeito passando pela via da humildade. Há também um motivo salvífico: Jesus oferece-se a si mesmo com amor pela salvação do homem caído por causa da soberba. Mas há também um motivo teológico: deste modo Jesus faz-nos compreender alguma coisa da Trindade.

Por isso as religiões que exaltam o sucesso mundano não conseguem admitir a ideia do Deus trinitário. Por seu lado, a humildade de Jesus abre-nos algumas fissuras para intuir alguma coisa da Trindade, onde, como sabemos, na medida em que tal se possa exprimir com palavras humanas, cada pessoa divina está totalmente em relação com outra. Nenhuma se fecha em si, mas todas se dão à outra. É a atitude que nós humanamente chamamos amor: sair de si próprio para se dar totalmente ao outro. É humildade, esvaziamento de si mesmo, para que o outro seja. Por isso, Deus-Amor é melhor representado por Jesus humilhado, pobre, sofredor, crucificado. O crucifixo é perfeita revelação do Pai e da Trindade.

Isto, certamente, dizemo-lo um pouco com palavras retóricas. Mas a vida cristã é penetrar, na oração e na experiência concreta, nesta verdade. Se isto é verdadeiro, a humildade de Jesus é portanto porta da Trindade. Daí deriva também um novo motivo antropológico do agir de Jesus, aquele que o Vaticano II exprime com as palavras que depois serão retomadas por João Paulo II na sua primeira encíclica, "O Redentor do homem": o homem realiza-se no dom de si. Não no vencer, colocando-se ao centro, mas no espoliar-se pelos outros, no dom de si aos outros. Consequentemente, humildade e sacrifício são o caminho para a verdadeira humanidade e para a verdadeira paz. Daí obtém também aquela verdade política expressa tão incisivamente por João Paulo II com as palavras: «Não há paz sem justiça» e «não há justiça sem perdão». Estamos, respetivamente, no âmbito da justiça da criação e no âmbito da justiça evangélica.



O Espírito Santo tem de nos iluminar muito sobre o modo como nós, cristãos, podemos exprimir, precisamente a partir da nossa condição de minoria e de pobreza, estes valores. Embora também a comunidade cristã seja tentada, em situações de minoria, a fazer-se valer com a força do direito e, algumas vezes, com a força física para defender os seus privilégios



Somos chamados, decerto, a manter as duas justiças unidas. A justiça evangélica não frustra a justiça da criação, porque a situação do escravo é injusta. Hoje, dois mil anos depois, amadurecemos melhor esta perceção da dignidade humana. Portanto somos obrigados a honrá-la. Mas não a podemos honrar até ao fundo sem a conjugar com a justiça do Reino que é o perdão, que é a saída de si para que o outro seja, que é a gratuidade, que é o dom de si sem reservas e sem limites. A dificuldade contínua do agir cristão é precisamente a de manter sempre juntas justiça da criação e justiça do Reino. Justiça da criação, porque a cada um é dado o seu, e não é aceitável nem a exploração, nem a opressão, nenhuma destas realidades que humilham a dignidade humana. Mas por outro lado não é com meios de violência, de força, de destruição do inimigo que é ultrapassada esta situação, mas através do dom de si, segundo o espírito evangélico.

Isto introduz-nos certamente no coração do Novo Testamento, no coração do segredo da Palavra de Deus, no coração do discurso da montanha [Bem-aventuranças], e por isso requer grande graça do Espírito Santo. E também grande equilíbrio, enquanto se aceita antes de tudo o desequilíbrio da cruz, a loucura da cruz. Assim se relê a história do mundo como promoção verdadeira e profunda do homem e dos valores do homem, não através da via da força e também não da legitimidade do direito, mas através da via do perdão e da misericórdia.

Recordo que recentemente, sobretudo na última "Cátedra dos não crentes", em Milão, debatemos precisamente com Gustavo Zagrebelsky o tema da justiça e o seu livro muito belo sobre a democracia. Mostrava-se como a justiça que não tem em conta este valor evangélico se torna justiça injusta e não realiza a justiça que se propõe realizar. Estes temas estão hoje muito vivos. De resto, tudo o que se está a viver neste país está totalmente ligado a tal problemática. Conseguiremos derrotar o terrorismo simplesmente com a violência, a força, a opressão? Ou criaremos desse modo novas formas de agressão e de terrorismo?

Este é o grande dilema. Por isso é precisamente aí que se joga também este "nó político". O Espírito Santo tem de nos iluminar muito sobre o modo como nós, cristãos, podemos exprimir, precisamente a partir da nossa condição de minoria e de pobreza, estes valores. Embora também a comunidade cristã seja tentada, em situações de minoria, a fazer-se valer com a força do direito e, algumas vezes, com a força física para defender os seus privilégios. Isso pode ser também importante, mas deve ter em conta como uma comunidade cristã adquire o seu valor de mensagem cristã, e não simplesmente de proteção de um clã, de um grupo social que se defende dando cargas de ombro à direita e à esquerda e procurando fazer valer-se.



 

Card. Carlo Maria Martini (1927-2012)
In "Avvenire"
Publicado em 26.05.2017

 

 
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