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Humanizar as estradas: Em cada automóvel, um bom samaritano ao volante

É um facto que, apesar das campanhas das autoridades, do endurecimento das sanções e da introdução da carta de condução por pontos, os números de acidentes, mortes e feridos ainda são muito altos. Isso obriga-nos a refletir sobre essa praga do nosso tempo, que, com a colaboração de todos, autoridades, condutores e peões, devemos tentar reduzir.

Nas últimas décadas, o aumento do tráfego de mercadorias e o movimento de pessoas tem sido vertiginoso, algo que é um bem, já que é sinal de progresso humano e social. No entanto, o progresso envolve muitas vezes trágicas contrapartidas. Há mais de 30 anos, o papa Paulo VI dizia-nos estas palavras: «Demasiado é o sangue que se derrama todos os dias numa luta absurda contra a velocidade e o tempo; é doloroso pensar como, em todo o mundo, inumeráveis ​​vidas humanas continuam a sacrificar-se a cada dia a esse destino inadmissível». Assim é, com efeito. Basta citar duas estatísticas impressionantes: ao longo do século XX, 35 milhões de pessoas morreram na estrada, com 1,5 milhões de feridos; e só em 2016 houve 1.200.000 mortos, com cerca de 50 milhões de feridos nas estradas de todo o mundo. Estes números arrepiantes representam um grande desafio para a sociedade e para a Igreja, mestra em humanidade.

O mais grave deste drama é que a maior parte dos acidentes poderia ser evitada. Na estrada afloram com demasiada frequência instintos e comportamentos mais primitivos: a prepotência, a arrogância, a má educação, que se manifesta em gestos e palavras ofensivos, o abuso de álcool, as drogas, o desejo de ostentação das habilidades próprias ou do veículo, o frenesim de velocidade, que cativa muitos jovens condutores, e a falta de respeito pelas regras de trânsito. São muitos os condutores que se comportam à margem das normas éticas mais elementares, e que, sem o confessar abertamente, desprezam o dom sagrado da vida.



Não é demais recordar todos que em qualquer pessoa, peões, condutores e muito especialmente nas vítimas de acidentes, está o Senhor, que se identifica misteriosamente com os nossos irmãos, especialmente com os pobres e com os que sofrem



Por tudo isso, convido todos os utilizadores de veículos (…) a refletir sobre este problema e, acima de tudo, a observar as atitudes que deve ter um bom condutor: domínio de si mesmo, prudência, cortesia, temperança, espírito de serviço e conhecimento e respeito pelas regras de circulação, algo a que aos cristãos nos é exigido por razões religiosas e morais. Obriga-nos a isso a nossa fé no Senhor da vida e o quinto mandamento do Decálogo – «não matarás» –, que exige não pôr em risco a própria vida ou a dos outros, e cuja transgressão é não só uma ofensa às possíveis vítimas, mas também a Deus, autor da vida.

«Não matarás.» Este preceito grave e taxativo dos Mandamentos da Lei de Deus pede de nós, cristãos e todos os homens e mulheres de boa vontade, fazer tudo o que está nas nossas mãos para que a estrada seja um instrumento de comunhão entre as pessoas, e não de dano mortal; que a boa educação, a correção e a prudência nos ajudem a superar os imprevistos; que auxiliemos aqueles que transitam pelas nossas estradas se precisarem de apoio, especialmente se forem vítimas de acidentes; que o automóvel não seja expressão de poder e domínio, nem ocasião de pecado; que convençamos os jovens e os não tão jovens a não pegarem no volante se não estiverem em condições de o fazer; que apoiemos as famílias das vítimas de acidentes; que sejamos mediadores entre a vítima e o condutor agressor, para que possam viver a experiência libertadora do perdão; que na estrada protejamos o mais fraco; e que nos sentimos sempre responsáveis ​​pelos outros.

Não é demais recordar todos que em qualquer pessoa, peões, condutores e muito especialmente nas vítimas de acidentes, está o Senhor, que se identifica misteriosamente com os nossos irmãos, especialmente com os pobres e com os que sofrem. Também não será demais recomendar que oreis ao empreender a viagem. Que bom seria se, no trajeto, rezássemos o Terço, como fazem muitas famílias cristãs, para sentir a presença da Virgem e encomendar-se à sua proteção. É uma forma magnífica de humanizar e impregnar as nossas viagens de espírito cristão.

Para aqueles que já estão começaram o descanso de verão, desejo-lhes umas férias felizes e gozosas. Que o Senhor vos acompanhe no vosso caminho e que o descubrais junto aos vossos na praia, na montanha ou nos vossos lugares de origem.



 

D. Juan José Asenjo
Arcebispo de Sevilha, Espanha
In Servicio de Información Católica
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: evgeniykleymenov/Bigstock.com
Publicado em 10.08.2018

 

 
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