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Homilia e humildade: Antes de falar é preciso escutar muito

Homilia e humildade: Antes de falar é preciso escutar muito

Imagem Kamila Koziol/Bigstock.com

Antes de falar na homilia é necessário escutar muito. Dirijo-me agora àqueles que ensinam homilética. Às vezes transformamos esta disciplina num mundo de técnicas e sofisticação. Alguns chegam a pedir aos seus seminaristas que façam um vídeo enquanto pregam, para que toda a turma os possa avaliar: «Mexe a cabeça muitas vezes. Não lamba os lábios. Olhe para a esquerda, depois para a direita e comece!». Tudo isto pode ser importante, mas é preciso recordar que o pregador deve proclamar a Palavra de Deus; melhor ainda, deve comentar a vida das pessoas à luz da Palavra de Deus. Esta é a definição da homilia. Nós não fazemos um comentário exegético da Palavra, mas um comentário da vida do povo à luz da Palavra de Deus. Para realizar isso, quem prega deve dedicar-se a uma grande escuta.

Técnicas à parte, os formadores de seminaristas e sacerdotes em homilética devem prestar atenção a este aspeto. Devem ter sensibilidade para notar se os seminaristas escutaram a palavra de Deus, se a fizeram própria, e se se imergiram na vida das pessoas. Quando eu era reitor, vi uma vez um seminarista que no coração da noite se preparava para a lição de homilética. Perguntei-lhe: «O que vai dizer para a festa da Anunciação?» Respondeu-me: «Se tiver tempo, padre, mostrar-lhe-ei. Após o anúncio do Evangelho desaparecerei, depois reaparecerei com asas e direi às pessoas que sou o anjo Gabriel». Disse-lhe: "Vê, tu serás designado para a catedral, onde a cada hora há uma nova missa, e não terás tempo para mudar a indumentária. A homilia não é uma questão de roupa. Além disso, não te pareces com um anjo, nem... muito menos com a Santíssima Virgem».

A preparação remota da homilia é uma escuta intensa. Segundo Francisco, maneira certa para pregar é a de uma mãe que fala aos seus filhos. Uma mãe que toca o coração, como um pai pode fazer. A razão de ser da homilia é acender o fogo no coração das pessoas, como aconteceu com a samaritana no poço: «Sim, é verdade, Ele estava a falar comigo!». A Palavra de Deus que fala às situações de qualquer pessoa. Isto requer muita escuta e também estudo. Por isso perguntava aos sacerdotes: «Quando foi a última vez que conseguiste terminar um livro?». Muitas vezes, a partir dos exemplos dados numa homilia, entende-se do que é que o pregador está imbuído: se menciona apenas filmes e telenovelas, dará a impressão de passar o tempo à frente da televisão. Por que não ir ao encontro das pessoas? Por que não visitar as casas, ir aos bairros desfavorecidos e tomar emprestadas as histórias dos moradores das favelas? Em vez de tomar histórias concebidas por argumentistas. Então chamamos inculturação ao fenómeno daqueles que não se encontram com as pessoas e se servem das histórias de uma telenovela? A verdade é que não queres ir ao encontro das pessoas e confias-te a histórias fictícias pensadas para a publicidade. Quando não é realmente possível ir ter com as pessoas, pelo menos pode ler-se, pode documentar-se nas múltiplas correntes de pensamento que influenciam os nossos jovens.

Por fim há a necessidade, segundo o Santo Padre, de identificar as tentações dos operadores pastorais. Tentações de que todos nós, ordenados e leigos empenhados na pastoral, experimentamos (cf. “A alegria do Evangelho”, 76-109). Trata-se de vícios como a acídia [incapacidade de cumprir deveres de culto ou aproximação a Deus] egoísta, essa preguiça espiritual que se manifesta em dizer, por exemplo: «Já passei nove anos de minha vida a estudar a Bíblia, por isso não vejo a necessidade de aprofundar ainda mais o seu conhecimento. Já não preciso de preparar as minhas homilias porque as transcrevi nos últimos anos». Há padres que conservam as notas das suas homilias. Quando completaram os ciclos litúrgicos A, B e C e recomeçam com o ano A, pensam: «Já tenho tudo pronto. Já não preciso de rezar e refletir, já preguei sobre isso». Preguiça espiritual. Em relação a esses sacerdotes digo muitas vezes uma piada sobre a necessidade de transferi-los a cada três anos, porque os fiéis já os ouviram pregar nos ciclos A, B e C. Ao invés de deixar a comunidade ouvir outra rodada dos mesmos sermões, é melhor transferi-los. Tentem imaginar se um desses sacerdotes permanece numa paróquia durante 30 anos: no final os fiéis terão ouvido as mesmas pregações 10 vezes, por causa da preguiça espiritual do sacerdote.

Outra tentação é o pessimismo. Já o papa João XXIII, no discurso de abertura do Concílio Vaticano II, afirmou: «Parece-nos que estamos decididamente em desacordo com esses profetas de infortúnio, que proclamam sempre o pior, quase como se o fim do mundo se aproximasse». O pessimismo vê perigos em todo o lado, mas não considera as oportunidades da presença de Deus, como se a Páscoa não tivesse acontecido. Alguns cristãos pessimistas têm sempre uma cara de funeral - nenhuma alegria, nenhuma esperança. A eles proclamamos: «Jesus ressuscitou!».

A mundanidade espiritual é outra tentação, que explora as coisas espirituais para obter ganhos mundanos. Esta estranha expressão, «mundanismo espiritual», não é nova. Foi sempre uma tentação para muitos na Igreja. (…) Não uses o teu papel na Igreja para acumular riqueza.



 

Card. Luis Antonio G. Tagle
Arcebispo de Manila, Filipinas
In "Il rischio della speranza. Come raccontare Dio ai nostri giorni", EMI, 2017 | Citado in L'Osservatore Romano
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 20.12.2017

 

 
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