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Questões de fé para quem crê e não crê: A história na Bíblia, lenda ou símbolo?

Imagem Travessia do Mar Vermelho (det.) | Nicolas Poussin | D.R.

Questões de fé para quem crê e não crê: A história na Bíblia, lenda ou símbolo?

As narrativas do Antigo Testamento têm um núcleo de verdade histórica ou será preciso recebê-las como narrações simbólicas e teológicas? Podem encontrar-se racionalmente fundamentos historiográficos ou deveremos abordar essas narrações como parábolas a compreender com a ingenuidade da adesão de fé (sem qualquer falta de consideração por essa ingenuidade que se aparenta como o amor a uma forma de conhecimento)?

História ou imagem? Ingenuidade ou racionalismo? O dilema colocado pelo nosso interlocutor está bem construído, não deixando nenhuma saída de emergência.

Muitos optam por uma das duas opções sem hesitação. Assim, de um lado estão os apologistas puros e duros para quem as narrações bíblicas (Antigo e Novo Testamento) são rigorosamente autênticas, não só no seu núcleo mas em todos os mínimos detalhes. Do outro lado, os especialistas infligem golpes historiográficos nos conteúdos bíblicos, reduzindo-os a simples metáforas teológicas e, muitas vezes, a simples lendas.

Sem desejar encontrar um improvável justo equilíbrio exegético nem ligar os impossíveis, é necessário ainda assim, por respeito ao dado bíblico, considerar estes dois extremos como dois polos de uma tensão necessária mas fecunda, como a tensão entre positivo e negativo com a corrente elétrica.

Há duas premissas indispensáveis. Antes de tudo, a conceção da história do Israel antigo não tem nada a ver com a nossa historiografia moderna. Não é possível utilizar os dados bíblicos segundo o ângulo de testemunhos históricos irrepreensíveis, de investigações realizadas com os critérios científicos atuais.

Por outro lado, todo o texto é sempre uma reconstrução de um acontecimento que ocorreu, e não se pode pôr de lado o sujeito que reelabora os dados, avalia e seleciona os testemunhos, recompõe o fio do acontecimento. O Antigo Testamento deixa aparecer sem hesitar o seu rosto através de todas as suas páginas.

Tomemos um exemplo significativo que remete para o "Credo histórico" de Israel, citado sob diversas formas e em várias ocasiões (cf. Deuteronómio 26, 5-9; Josué 24, 1-13; Salmo 136).

A Bíblia afirma neste Credo que Deus se revela no interior da história: a narração dos patriarcas, o êxodo da escravatura do Egito, a conquista da Terra Prometida e diversos acontecimentos apresentados como etapas da história nacional; estes acontecimentos não são uma hagiografia [relato da vida de pessoas consideradas santas], mas foram contados de forma profética.

Contrariamente à imagem popular, o profeta bíblico não é aquele que adivinha um futuro hipotético; ele interpreta a história passada e recente, nela descobrindo os sinais de um outro ator para além do ser humano e percebendo os desenvolvimentos transcendentes.

Em termos mais rigorosos, o autor bíblico deve respeitar o dado histórico porque a sua fé afirma que Deus não se revela tanto nos céus cristalinos da transcendência, mas sobretudo no intrincado dos acontecimentos humanos.

Por um lado, o interesse do autor ultrapassa o narrar, o ordenar ou documentar historicamente esses acontecimentos; ele deseja realçar uma espessura secreta, um valor superior, uma interpretação de qualidade outra.

Se a questão histórica do êxodo do Egito fosse o ponto central da narração, a Bíblia deveria ter em consideração todos os elementos cronológicos, as ligações, as verificações exteriores, as coerências internas e assim por diante, como pode fazer um historiador.

Mas o objetivo último da narração bíblica era tomar daqui e dali elementos do passado, por vezes divergentes (os especialistas falam de dois êxodos distintos), recompondo-os no interior de um quadro teológico geral. Como canta o Salmo 78 (77), «os nossos antepassados transmitiram-nos, [...] tudo contaremos às gerações vindouras [...] para que ponham em Deus a sua confiança e não esqueçam as suas obras (3-4.7).

A história é fonte de fé, descoberta das «obras de Deus», «história de salvação». Pode por isso afirmar-se que as narrações históricas do Antigo Testamento são históricas, de acordo com a época e o meio, e simbólicas: o acontecimento não é sumariamente evocado para uma reconstrução historiográfica mas para valorizar o sentido teológico, o valor superior, o sentido salvífico.

É efetivamente possível recorrer às páginas bíblicas para estabelecer uma "história de Israel" de maneira científica, como procuram fazer muitas obras. Não é por isso surpreendente que alguns especialistas reordenem drasticamente os documentos bíblicos que não resistem a um exame rigoroso, ou que privilegiem determinadas páginas do Antigo Testamento e excluam outras.

Seja como for, a Bíblia oferece uma história profética, uma história contada em função do seu valor de sinal, uma história fortemente interpretada. Só com esta tomada de consciência se pode evitar a ingenuidade apologética e o desdém racionalista.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Biblista, presidente do Pontifício Conselho da Cultura
In "150 questions à la foi", ed. Mame
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 25.01.2015

 

 
Imagem Travessia do Mar Vermelho (det.) | Nicolas Poussin | D.R
Todo o texto é sempre uma reconstrução de um acontecimento que ocorreu, e não se pôr de lado o sujeito que reelabora os dados, avalia e seleciona os testemunhos, recompõe o fio do acontecimento
A história é fonte de fé, descoberta das «obras de Deus», «história de salvação». Pode por isso afirmar-se que as narrações históricas do Antigo Testamento são históricas, de acordo com a época e o meio, e simbólicas
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