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Há outro Natal, mais simples, mas também mais duro

Há outro Natal, mais simples, mas também mais duro

Imagem Faisalabad, Paquistão | D.R.

O sol ainda não se tinha levantado no horizonte e as forças de segurança já estavam espalhadas no adro da catedral. Faltava todo um dia para a vigília da meia-noite, e desde os telhados em redor podia observar-se o formigar das divisas negras, com as armas apontadas a escrutinar as ruas.

Há um outro Natal no mundo, muito diferente daquele a que estamos habituados a conhecer, a preparar e a viver, acostumados a celebrá-lo na tranquilidade da nossa cintilante confortável harmonia, com frequência mais sujeitos ao fútil e ao consumismo dos presentes e das ceias, decorações e luminárias.

Há um outro Natal, mais simples, mais pobre, mas também mais sinal de hostilidade e intolerância. É o Natal dos cristãos que vivem a sua fé rodeados pela insegurança, pelas ameaças, pelo fanatismo e pelo medo. Sob o jugo de quem utiliza a religião como arma de ofensa.

Para chegar a esse Natal é preciso ultrapassar postos de controlo, homens armados, barreiras de cimento erguidas para deter, quase nunca sem o conseguir, os efeitos devastadores dos carros-bomba, percorrer corredores obrigatórios que acabam todos no funil dos detetores de metais, armas e homens-bomba, ser revistado, inclusive dentro das roupas brancas de pureza de inocentes recém-nascidos aos braços das suas jovens mães.



É um Natal onde o medo vai ao teu encontro ainda antes de chegar ao teu lugar de oração, e permanece junto de ti o tempo todo, colado aos teus ombros como um símio



O ódio despreza a vida, a malvadez é fértil de crueldade. É um Natal onde o medo vai ao teu encontro ainda antes de chegar ao teu lugar de oração, e permanece junto de ti o tempo todo, colado aos teus ombros como um símio. Mesmo quando estiveres ajoelhado em devoção diante de um altar no meio de muita gente, e talvez ao lado de quem meditou no seu projeto mortífero e ataca à traição.

Eram muitos, naquela véspera de Natal, os polícias à paisana, misturados na massa dos fiéis que se aglomerava na praça da catedral dedicada aos santos Pedro e Paulo em Faisalabad, diocese paquistanesa de 35 mil km2, com 31 milhões de habitantes, quase todos seguidores de Maomé e de Alá, dos quais se deduzem 175 mil fiéis católicos, um punhado de crentes dispersa em pequenos e sufocados enclaves de pobreza onde se vive, na maior parte dos casos, da recolha de lixo.

Hospedava-nos o bispo, D. Joseph Coutts, hoje arcebispo de Carachi e presidente da Conferência Episcopal do Paquistão. D. Coutts, barba grisalha, a cada palavra pronunciada sabia oferecer um sorriso, mesmo quando te explicava que «nós, cristãos do Paquistão, somos símbolos de paz, não obstante o fervor integralista tenha feito de nós um objetivo fácil».



Apesar da ameaça de possíveis ações violentas, o perfume do Natal era algo que inebriava a energia daquela pobre gente, que esperava as palavras de D. Coutts, “Jesus paida hua hai”, Jesus nasceu



O Natal, no passado, contava, tinha sido sempre festa de alegria, as pessoas chegavam dos seus vilarejos em carroças ornamentadas e puxadas por bois. A alegria das crianças acendia o coração das famílias e os cantos religiosos entoavam-se até tarde. «Hoje as autoridades convidam-nos a ter um baixo perfil, não façais isto, cuidado ao fazerem aquilo. E desta forma tornaram-se raros e mais contidos os momentos de alegria partilhada.» E o que se passa com Asia Bibi, há mais de 2700 dias na prisão, é sintoma desta tensão.

Faisalabad também tinha o seu pequeno mercado de Natal, e as bancas, na maior parte dos casos, expunham objetos da fé, crucifixos, rosários, Evangelhos em língua urdu, livros religiosos, discos de música natalícia, DVD sobre a vida de Jesus. “Os dez mandamentos”, de Cecil B. DeMille, ou o “Quo vadis”, de M. LeRoy, e o máximo do consumismo eram caramelos e doces. Enquanto as crianças seguiam o carro dos gelados empurrado à mão, os irmãos mais velhos, com a roupa de festa “made in China” rivalizavam uns com outros para atrair um tímido olhar das raparigas.

E no entanto, apesar da ameaça de possíveis ações violentas, o perfume do Natal era algo que inebriava a energia daquela pobre gente, que esperava as palavras de D. Coutts, “Jesus paida hua hai”, Jesus nasceu.



 

Claudio Monici
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 23.12.2016

 

 
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