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Gulbenkian apresenta primeira retrospetiva do pintor e artista plástico José Escada

Imagem Baldaquino | José Escada | Igreja de Santo António de Moscavide, Lisboa | D.R.

Gulbenkian apresenta primeira retrospetiva do pintor e artista plástico José Escada

A Fundação Gulbenkian, em Lisboa, apresenta, a partir de sábado, a primeira exposição retrospetiva dedicada ao pintor José Escada (1934-1980), «dando a conhecer um artista que desenvolveu uma obra intensa, abundante e com uma forte dimensão experimental».

Nascido em Lisboa, José Escada iniciou o seu percurso na década de 50 no contexto do MRAR (Movimento de Renovação da Arte Religiosa). Ao longo da carreira recorreu «a diferentes meios e técnicas - o desenho, a ilustração, as colagens, os relevos recortados, entre outros géneros artísticos», atividade que manteve a par da «colaboração com artistas, arquitetos e escritores», refere a instituição.

«José Escada converte-se em 1954, o [arquiteto] Nuno Portas é o seu padrinho de Batismo. Ele é um convertido mas é alguém que, desde logo, entra de uma maneira muito intensa e muito ativa nos meios católicos. Por exemplo, ele escreve para jornais das Juventudes Escolar e Universitária Católica, faz crítica de arte e de cinema», explica a curadora da exposição, Rita Fabiana, à Renascença.

Em entrevista que vai para o ar esta sexta-feira, às 23h00, no programa de cultura "Ensaio geral", a responsável realça que no «movimento católico dos anos 50 há figuras extraordinárias, como Bénard da Costa, Pedro Tamen, Sophia de Mello Breyner, Francisco de Sousa Tavares e Nuno Teotónio Pereira, figuras maiores da cultura portuguesa. São todos muito jovens».

«O Nuno Teotónio Pereira, que era o mais velho e um arquiteto já com obra, convida, em 1956, com o Bartolomeu Costa Cabral, o José Escada para fazer uma intervenção mural no edifício das Águas Livres [Lisboa]», refere a curadora à jornalista Maria João Costa.

Nesse projeto, com «uma linha muito sinuosa mas muito segura», José Escada «faz um mural muito bonito, um desenho inciso em betão, muito bem conseguido, que está em excelente companhia, com o Almada Negreiros, o Joaquim Vieira», obra que pode ser ligada a alguns trabalhos dos anos 50 integrados na exposição.

«Essa ligação vai continuar; temos, por exemplo, em 1956, a participação do José Escada na igreja de Santo António de Moscavide», com um baldaquino sobre o altar-mor: «Há quem considere que é a primeira obra do MRAR, enquanto outros pensam que ainda não o integra, mas já faz parte, com o arquiteto João de Almeida, de um conjunto de intelectuais e arquitetos ligados ao movimento ou que estão sensibilizados por ele», assinala Rita Fabiana.

Nesse período inicial da sua obra, José Escada «é um jovem artista, e é extraordinário o seu sentido muito apurado de escala e de arquitetura, que lhe permite responder com assertividade aos desafios da arte pública. Também para a igreja de Moscavide faz um cartão de vitral, que será executado só nos anos 80», acrescenta.

Rita Fabiana salienta também outra obra de José Escada, menos conhecida: «O conjunto de intervenções na capela de S. Bernardo, no hospital de Setúbal. Ele tem um fresco, no altar, e uma série de 12 painéis a esgrafito. Trata-se de painéis historiados sobre a vida de S. Bernardo».

«O que é extraordinário é que o Escada, com o seu trabalho do desenho inciso, que é uma técnica de retirar matéria, com a linha a descobrir-se na segunda camada do mural, interpela-nos em relação aos recortes, essa linha de contorno que é fundamental nos anos 50, e que já deixa entrever vai acontecer nos recortes tridimensionais de 1965, por exemplo», declara a curadora.

Intitulada "Eu não evoluo, viajo", a mostra na Gulbenkian, que percorre um itinerário com origem na génese do trabalho de José Escada até ao seu universo íntimo e autobiográfico, apresenta 170 obras, «algumas inéditas, a larga maioria proveniente de coleções privadas, distribuídas em cinco núcleos temáticos que seguem uma orientação cronológica, entre 1955 e 1980, e que abarcam diferentes fases criativas», refere a página da fundação.

Pintor e artista plástico, José Escada colaborou em livros, revistas e jornais, «quer como ilustrador, quer através da produção de textos críticos sobre a arte moderna e o ensino artístico em Portugal, uma produção que permaneceu esquecida e que é agora publicada no catálogo que acompanha a exposição».

Entre 1961 e 1962, em Paris, para onde foi estudar graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, Escada intensificou «as suas pesquisas em torno da abstração, colaborando no grupo KWY, com os artistas Lourdes Castro, René Bértholo, Costa Pinheiro, João Vieira, Gonçalo Duarte, Christo e Jan Voss».

«O período parisiense que se prolonga até 1971, um dos maiores e mais ativos, é o palco para a criação de um universo singular e complexo de figuras antropomórficas recortadas. Estes anos ficam igualmente ligados a uma pesquisa em torno do espaço, das propriedades plásticas da superfície da pintura e da tridimensionalidade», assinala a Fundação Gulbenkian.

Na década de 1970 surge «uma nova representação, as "cordas" ou as "amarras", que acompanha uma produção em torno da representação do corpo – acometido, oprimido e, por fim, libertado –, um corpo político que faz corpo com a história de um país que, em 1974, se liberta de um regime ditatorial».

«Nas vésperas da sua morte prematura, aos 46 anos, a obra de José Escada centra-se em trabalhos mais figurativos e autobiográficos, representando um mundo que tenderá a ser de proximidade: o bairro do Alto de Santo Amaro em Lisboa, a casa da mãe, o seu quarto-ateliê, a sua janela.»

 

Entrevista: Maria João Costa / Renascença
Dados sobre a exposição: Fundação Calouste Gulbenkian
Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 07.07.2016

 

 

 
Imagem Baldaquino | José Escada | Igreja de Santo António de Moscavide, Lisboa | D.R.
Intitulada "Eu não evoluo, viajo", a mostra na Gulbenkian, que percorre um itinerário com origem na génese do trabalho de José Escada até ao seu universo íntimo e autobiográfico, apresenta 170 obras, «algumas inéditas, a larga maioria proveniente de coleções privadas, distribuídas em cinco núcleos temáticos
Entre 1961 e 1962, em Paris, para onde foi estudar graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, Escada intensificou «as suas pesquisas em torno da abstração, colaborando no grupo KWY, com os artistas Lourdes Castro, René Bértholo, Costa Pinheiro, João Vieira, Gonçalo Duarte, Christo e Jan Voss»
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