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Leitura: "Gente feliz com fé"

Leitura: "Gente feliz com fé"

Imagem Capa | D.R.

«Há pessoas assim!...» Pessoas como estas de que se fala, e falam neste livro: pessoas que gostam de pessoas e com elas fazem caminho; pessoas de olhos lavados sobre os outros e as suas circunstâncias; pessoas de coração aberto e um grande banco onde descansam conversas ou se alimenta o futuro; pessoas sem megafone, mas de palavra vivida; pessoas capazes da festa no meio das dificuldades; pessoas que purificam a vida e desafiam a vivê-la em esperança; pessoas que nas suas expressões usam a gramática dos dias normais e, nos seus ritmos, vivem o desejo de semear, nos sítios onde estão ou aonde vão, o bem, a bondade e a beleza Falar de pessoas assim e ouvir pessoas assim faz bem à vida, à nossa vida, tantas vezes pessimista e descrente da humanidade e do seu futuro.»

As palavras são do Cón. João Aguiar Campos, jornalista, anterior presidente do Conselho de Gerência da Renascença, no «antefácio» ao livro "Gente feliz com fé - Conversas na rádio", da também jornalista Ângela Roque, especialista em assuntos religiosos da emissora católica.

O volume, apresentado esta terça-feira na Feira do Livro de Lisboa pela Paulinas Editora, transcreve algumas das conversas transmitidas na Rádio Renascença em espaços pelas quais a autora foi responsável editorial, de janeiro de 2014 até à atualidade.

«As pessoas sempre me fascinaram. Para mim, se há privilégio no jornalismo, é este de podermos conhecer gente especial. E não me refiro às figuras públicas, por serem políticos ou artistas. Falo dos que podem ser desconhecidos para muitos, alguns até anónimos, mas que nos esmagam pelo exemplo de generosidade, empenho e dedicação aos outros», sublinha Ângela Roque na introdução.

As entrevistas pretendem «mostrar como a fé, que para muitos deve ser coisa privada, se revela, afinal, na ajuda concreta que tantos dão, todos os dias, em tantas e tão diferentes áreas. Gente que não se conforma com a injustiça, que luta para que a vida dos outros possa melhorar. Gente que vai às periferias existenciais, que ajuda os presos, as vítimas de exploração e violência, os que o terrorismo obrigou a fugir, ou os que sofrem de doença mental. Gente que olha e pensa o mundo e a vida à luz dessa fé em Deus. Gente que não tem vergonha nem medo de se assumir crente».

Entre os convidados (a lista completa encontra-se no fim do artigo) podem ler-se Kiko Martins, Rão Kyao, Tolentino Mendonça, Tiago Cavaco, D. João Marcos, João Só, Júlia Bacelar, António Rego, Tony Neves, Bento Domingues, Irene Guia, João Gonçalves , Inês Leitão e Daniela Leitão. Nas conversas transparecem as palavras finais do pastor protestante Tiago Cavaco: «A história do cristianismo ao longo de dois mil anos é saber viver quando a cultura parece que nos ajuda, e saber viver quando a cultura parece que não nos ajuda».

Apresentamos, de seguida, excertos de três das entrevistas.

 

Kiko Martins
Chef

O Kiko e a sua mulher, a Maria, passaram o primeiro ano de casados em missão em Moçambique. O que é vos levou a avançar para esta aventura?
Acho que isto começa com a educação que os meus pais me transmitiram em casa, a mim, e, no caso da minha mulher, os meus sogros transmitiram à Maria esta educação, esta vontade de querer sair de nós próprios para nos dedicarmos aos outros. Madre Teresa de Calcutá dizia que «tudo aquilo que não se dá, perde-se», e acho que esta foi uma frase que os meus pais sempre me tentaram incutir desde pequenino. Eu venho de uma família com oito irmãos, em que percebemos a importância do outro, de sairmos do nosso umbigo e olharmos além, darmos atenção ao outro. Nós, no nosso primeiro ano de casados, dedicámos a nossa vida aos outros, mas isto era algo que já fazíamos um bocadinho no dia a dia.

Já faziam voluntariado?
Sempre fizemos voluntariado. Eu já tinha trabalhado com idosos, tinha trabalhado na prisão de Caxias. Aliás, eu sou cozinheiro porque distribuía comida à noite com a Comunidade Vida e Paz, e foi através desse contacto, daquilo que a comida nos possibilita, de chegarmos aos outros, de olharmos nos olhos das outras pessoas, que percebi o que queria ser. Porque a magia da cozinha não está apenas em manipular ingredientes, agarrar numas bochechas de porco, sabê-las cozinhar muito bem com vinho tinto, com orégãos, com cebola, com cenoura, mas está muito mais em sabermos fazer um prato saboroso para nos conseguirmos relacionar. A comida permite-nos estar uns com os outros, olharmos para nós próprios, rirmos uns dos outros, brincarmos. Todos nós, portugueses, adoramos estar à mesa, isto faz parte da nossa cultura.

E para quem é cristão também tem um significado especial?
Acho que tem um significado muito grande, porque Deus despede-se de nós e faz o seu momento mais importante à mesa, com os seus amigos. É engraçado ver a quantidade de traços na Bíblia, no Novo Testamento, em que conseguimos facilmente perceber que Jesus era alguém que gostava de vivenciar este momento da mesa com os outros. Mas, como dizia há pouco, quando me casei com a Maria, nós tínhamos de fazer algo radical com as nossas vidas, tínhamos de dedicar pelo menos o nosso primeiro ano de vida de casados aos outros, foi por isso que partimos com uma organização, que são os Leigos para o Desenvolvimento. (...)

Portanto, aproveitaram as vossas mais-valias, que cada um de vocês tinha, os vossos conhecimentos, e puseram-nos ao dispor desse projeto?
Exatamente. Eu acho que quando se parte, parte-se sem expectativas. É muito importante isto, partir de forma desinteressada, mas sempre com um compromisso muito grande. Eu acho que o voluntariado não pode ser algo frágil, algo que hoje me apetece e sou alguém disponível, amanhã já acordo mais maldisposto e já não estou disponível.

Tem de haver uma entrega maior, mais completa.
Tem de haver um critério de compromisso, porque senão vivemos isto ao ritmo do Sol, que às vezes brilha, outras vezes não. E por isso é preciso nós estarmos sempre conscientes de que a outra pessoa, se nós nos disponibilizámos para ela, então temos de objetivamente estar disponíveis para ela.

Foi uma missão de um ano. Como casal esta experiência marcou-vos de que forma?
Como casal foi uma experiência brutal. Foi o primeiro ano de casados, acho que foi algo muito importante para nós. Sair de Lisboa, sair da nossa vida diária, eu enquanto cozinheiro, a Maria enquanto profissional da comunicação social, de uma vida atarefada, cheia de compromissos, e de repente passarmos para uma realidade em que tudo funciona a uma velocidade muito mais lenta... o clima é diferente, a humidade é diferente, as próprias condições sociais são muito diferentes. Objetivamente, a pobreza, a miséria profunda é algo que nos toca a todos os níveis. Dá uma tristeza muito profunda, e é muito difícil de traduzir isto por palavras.

E o que é que essa experiência vos deu?
Deu-nos talvez uma capacidade muito maior de valorizar o que temos. Eu sinto-me, sem dúvida nenhuma, um felizardo.

E com vontade de mudar alguma coisa?
Com vontade de mudar alguma coisa, acho que sim. Nós podemos sempre mudar pequenas coisas. Aquilo que nós fazemos, se for feito para uma ou duas pessoas, já é importante. Nós não temos de fazer coisas enormes, nós temos a capacidade de fazer grandes coisas a pequenas pessoas, e isso são coisas muito importantes. Há uma frase engraçada que nós temos como lema, no nosso restaurante, que é «quem parte e reparte e dá a melhor parte, vive a vida com mais arte», e eu acho que isto é que é importante. O ditado tradicional diz que «quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte». Eu, pelo contrário, acho que aqui «quem parte e reparte e dá a melhor parte...» ao outro, vive a vida com muito mais arte. A sabedoria das mães, quando uma galinha vem para a mesa, e pedem para ficar com a asa, porque dizem que é o mais saboroso, objetivamente elas não fazem isto porque é o mais saboroso, mas porque querem dar o peito ou a perna aos filhos, e acho que isto, no fundo, faz-nos sentir melhores pessoas, faz-nos sair das nossas vaidades, dos nossos egoísmos e olhar para o outro. Acho que isso é o que nos constrói enquanto humanos.

Li também no seu sítio que um dos seus princípios é «quem não vive para servir, não serve para viver». É um lema de vida?
É um lema de vida, que vamos tendo de nos lembrar dele, diariamente. Eu acho que o ser humano tem a capacidade de se esquecer daquilo que é, muitas vezes, o mais óbvio, e nós precisamos de ser relembrados, muitas vezes pelas pessoas que mais nos amam, e que estão ao nosso lado. Mas é isto, esta vida é para nós nos servirmos uns aos outros. A experiência de poder dar é algo que nos enriquece, é algo que dá sentido àquilo que nós fazemos.

A fé continua a ter muita importância na sua vida?
A fé é a única gasolina da minha vida, não é!? As outras são pequenas forças diárias, agora, a fé... é uma gasolina, é motor, é aquilo que dá sentido, é aquilo que me faz viver. Há uma frase que diz «de que vale ao homem ganhar o mundo, se perder a sua alma?» Eu tenho de me entregar a alguma coisa, e fiz um compromisso comigo mesmo: quero-me entregar àquilo que faz sentido.

 

Rão Kyao
Músico

Como é que surgiu esta parceria com o seminário de Almada, que já resultou em dois CD ["Sopro de Vida – Ao ritmo da Liturgia", "Sopro de Vida – Maria"]?
Concordámos que chamaríamos "Sopro de Vida"ao projeto. O primeiro disco foi "Ao ritmo da Liturgia", uma série de temas que, no fundo, celebravam, desde o Advento até ao Pentecostes, todas as épocas do ano, daí esse nome. Todos os temas são de autores portugueses, na sua maioria padres, e há também temas de origem popular. Há realmente uma riqueza extraordinária na composição da música litúrgica portuguesa. (...)

O primeiro CD, o "Sopro de Vida – Ao ritmo da Liturgia", foi um trabalho recentemente elogiado pelo papa Francisco. Esse trabalho foi-lhe enviado por ocasião do primeiro aniversário da sua eleição, e a resposta chegou recentemente, e com este elogio. Como é que foi, receber esta mensagem do papa Francisco?
Bom, eu que sou fã do papa Francisco, pela sua posição como Chefe da Igreja, e ao mesmo tempo pelas suas características pessoais, é realmente uma pessoa que nos encheu e por quem a gente sente uma simpatia muito especial, e uma profundidade espiritual muito grande. Estou muito orgulhoso de ter recebido um elogio vindo do Papa. Isso para mim é, como deve calcular, uma gratificação muito grande.

Há quem considere o Rão Kyao um cruzado da música tradicional portuguesa, numa busca constante das ligações e das influências que as músicas de outras zonas do mundo tiveram na nossa música. A espiritualidade também marcou sempre o seu trabalho, mas houve nos últimos anos uma aproximação ao Catolicismo.
Sim, sim.

Podemos falar num processo de conversão?
Eu não diria assim. Deus fez sempre parte da minha vida, isso nunca esteve em questão, só que há alturas, momentos da vida, em que estamos mais perto do que noutras. O que é que acontece... isto tudo vem, não direi tudo, mas boa parte, do facto de eu tocar com este coro da igreja da Parede nas celebrações, na missa, portanto, vou e toco e canto com o coro.

Há quantos anos é que já faz isso?
Há uns 14 anos, talvez. Sabe, a música é uma coisa que tem muito mistério.

Ajuda a aproximar de Deus?
Ajuda, sem dúvida. Porque, repare, o próprio mundo que a gente chama do transcendente, que é necessário para a nossa vida, quer dizer, o homem sem transcendente é assim uma coisa um bocado seca e oca... a música, com todo o seu mistério, é talvez o melhor veículo para revelar o misterioso, aquelas verdades espirituais que muito dificilmente se podem pôr por palavras; só os grandes profetas, ou o Senhor Jesus, é que conseguem revelar estas verdades postas em palavras, porque é preciso ter uma profundidade muito especial para pôr o mundo espiritual  em palavras; e a música consegue realmente fazer isso. Portanto, é o maior veículo para a divulgação ou exteriorização do mundo espiritual.

 

João Só
Músico

O amor é um tema recorrente para muitos compositores, es critores e poetas, e marca também presença em muitas das tuas músicas, mas este disco "Até que a morte nos separe" tem uma importância especial para ti, porque foi feito a pensar no teu casamento que, como católico, valorizas muito e encaras como um sacramento.
Sim, este disco reflete um bocadinho o meu estado de espírito nos últimos tempos. Comecei a escrevê-lo a partir do momento em que percebi que ia casar, depois foi o pedido de casamento e as preparações para o casamento, e durante esse tempo todo as canções que eu escrevia tinham essa tónica. Então falei com a minha editora e decidimos fazer um disco sobre isso, também porque era uma coisa que não é muito comum. (...)

O casamento tem importância para ti como sacramento?
O casamento só tem importância para mim como sacramento. Acredito que possa haver vantagens fiscais, ou outras, com o casamento civil, mas para mim só me fez sentido casar com a Mafalda, que também é católica, por ser pela Igreja, e por ter toda uma preparação. E por ser um passo óbvio a seguir ao Batismo, à Comunhão e ao Crisma. Para mim não fazia sentido de outra maneira, o que fazia sentido era ser cristão casado. Enfim, trabalhando na música é sempre um bocadinho menos comum. Ainda ontem estava a ter uma conversa com outro artista católico, que é o Manuel Fúria, que me estava a dizer que há poucos casais com filhos e a fazer isto, e eu disse que se calhar havia mais do que nós achávamos, e acredito que haja...

Mas, há alguma vergonha de as pessoas se assumirem publicamente como católicas, de assumirem a sua fé?
Não é uma questão de as pessoas se assumirem ou não, é daquelas coisas de que não se ouve muito falar, mas eu gosto que as pessoas saibam. Os meus heróis todos, eu sempre soube como é que eles funcionavam. Por exemplo, mesmo não sendo católico, uma das coisas de que eu gostei sempre no Paul McCartney foi ele andar com a família atrás, e com professores para os filhos, e a dar concertos nos estádios e nas arenas, lá nos anos 70, nos Estados Unidos, e andava sempre com os filhos atrás...

Sobretudo a nível internacional, há muitas bandas que têm essa maneira de estar. Estou a lembrar-me também dos U2.
E o Bruce Springsteen, por exemplo. São pessoas que são idolatradas, com imensos fãs e imenso sucesso, criativamente muito interessantes, e por isso não acho que seja um impedimento. (...)

Sobre esta questão do exemplo, o papa Francisco tem dito várias vezes aos jovens para não terem medo do casamento, do compromisso, e que o exemplo dos casais que já existem é muito importante. Vocês sentem isso?
Sim, sim, e temos vários amigos casados há pouco tempo e que são ótimos exemplos para nós, e que nos inspiram a sermos um melhor casal. E tem piada, às vezes, quando estamos os dois sós, a pensar que se calhar a coisa não é assim tão diferente e que estarmos casados não é o que esperávamos, claro que é muito melhor do que esperávamos! É giro ver que, de fora, as pessoas reconhecem a importância de ter um casal novo num campo de férias com miúdos, para dar o exemplo, e eu acho que isso faz todo o sentido. E também não é só para verem «olha, aqueles casaram», é para verem que continuam pessoas iguais, e a fazerem piadas, e malucos e a tocar. Eu então, no campo de férias, tenho toda uma atitude "rock and roll", levo as roupas mais esquisitas que tenho e aproveito para estar ali dez dias em que ninguém está a ver. Este ano tive dois eventos a meio, tive de sair e voltar, mas mesmo assim consegui fazer a coisa o mais livremente possível.

Voltando ao teu disco. Posso concluir que a mensagem que deixas é que o amor é possível, e pode ser para sempre?
O amor é possível, e é possível ser para sempre. É preciso ser trabalhado, como em qualquer outra coisa, mas o amor é possível, e é possível ser católico e ser músico, ser católico e ser o que quer que seja. E sobretudo no meio artístico, mas também noutros em que as pessoas têm trabalhos, vamos dizer, mais «normais», é possível as pessoas lutarem por aquilo em que acreditam com fé. Eu sempre fiz isso, um bocadinho inconscientemente, e cada vez dou mais valor a essa atitude.

Tu estás em vários palcos, tocas em várias rádios. É importante este exemplo que dás? Nunca te sentiste incomodado, ou que te incomodassem ou olhassem para ti de maneira diferente, por seres católico?
Não. Nunca escondi que sou católico, tenho conversas interessantíssimas com amigos que não são católicos. Fiz  um programa de televisão com o Nuno Markl, durante um ano, e fartávamo-nos de falar disso, e era uma coisa normal. E tenho imensos amigos protestantes do "rock and roll", como o Samuel Úria ou o Tiago Guillul (Tiago Cavaco). Acho que é uma riqueza falar destas coisas e expor as nossas ideias. E picarmo-nos uns aos outros com as nossas canções, acho que isso também é importante. E as minhas canções, já nos outros discos, refletem um bocadinho este estado de ter fé e de ter esperança. E não é uma fé e uma esperança vãs, é uma fé e uma esperança que existem por eu ser católico. Faz parte de mim e da minha carreira, e não foi agora ao quarto disco que eu assumi que sou católico porque fiz um disco sobre o casamento. Há uma coerência no percurso.



Imagem Índice | D.R.

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Edição: SNPC
Publicado em 14.06.2017

 

Título: Gente feliz com fé - Conversas na rádio
Autora: Ângela Roque
Editora: Paulinas
Páginas: 288
Preço: 14,00 €

 

 
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