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Frei Manuel do Cenáculo: Livros, cartas e diálogos reformaram cultura portuguesa

Frei Manuel do Cenáculo viveu em pleno século das Luzes, convivendo com as novas ideias que circulavam na Europa, transformando-se em pouco tempo «num dos principais doutos portugueses da sua época». Teve uma longa vida, nasceu em Lisboa em 1724 e faleceu em Évora, em 1814. Durante os seus anos de vida, ocorreram, a nível europeu, muitas transformações no que respeita à organização de poder, do conhecimento e do ensino. Revelava-se uma nova inteligibilidade, que pretendia submeter às exigências do entendimento e da razão as coisas que são da natureza humana: a ordem religiosa, política e jurídica.

O prelado distinguiu-se pela qualidade dos cargos públicos que exerceu, mencionem-se os lugares estratégicos que desempenhou, como são exemplo, o de Deputado (1768) e Presidente da Mesa Censória (1770), tendo em mãos matéria tão importante como a do controle dos livros e manuscritos que circulavam; Preceptor do Príncipe D. José (1770), sendo encarregue da educação do Delfim Real; Presidente da Junta do Subsídio Literário (1771), organismo vocacionado para a angariação de fundos para apoiar as reformas das escolas; a par de outras funções, afetas à esfera religiosa e eclesiástica, como a de capelão das Armadas Reais e Definidor da sua Província (1766), Provincial da Ordem Terceira (1768), Bispo de Beja (eleito em 1770) e Arcebispo de Évora (eleito em 1802).

A atividade que desenvolveu no âmbito das diferentes funções não foi esporádica. Fomentou o estudo das línguas orientais, introduziu melhorias no campo pedagógico, com a criação de novos métodos e programas de estudo e impulsionou os trabalhos com fontes auxiliares da História. Promoveu a organização de bibliotecas e museus, que encarou como instrumentos fundamentais para uma efetiva implementação das reformas que ambicionava.

A rede de relações do prelado colocou em evidência que Frei Manuel do Cenáculo, constituindo-se como uma figura cimeira do Iluminismo português, revela alguns traços comuns a outras personalidades ilustradas e bibliófilos da época.

A análise da permuta epistolar que manteve com outros eruditos, nacionais ou estrangeiros, nomeadamente do país vizinho, demonstra que as relações culturais entre Portugal e Espanha, na Época Moderna, foram manifestamente alimentadas pelo intercâmbio e circulação de livros, por conselhos pessoais, por partilhas de leituras e até por empréstimos''. A existência dessas afinidades, contactos e partilha de objetivos, evidenciados num forte intercâmbio de livros e conhecimento, não inviabiliza que se encontrem elementos que diferenciam, em determinados, aspetos estas personalidades.

Como se sabe, o movimento da Ilustração foi um "exercício" polimorfo e supranacional na Áustria, Suécia, Rússia, Itália, na Inglaterra, na França, teve características próprias que não são transponíveis para outros países. Estas diferenças entre países, associadas à especificidade do movimento transnacional da Ilustração, possibilitaram que este se revelasse, também de forma diferenciada, em muitas personalidades e comunidades distintas. Apresentou-se com características próprias decorrentes da região em análise, mas não só. Também se evidenciou de forma desigual pelo modo como os contactos de determinada personalidade, o seu percurso formativo e intelectual apreenderam e irradiaram as ideias que circulavam, perante circunstâncias concretas da sua trajetória.

A ilustração conheceu em vários países europeus, inclusive Espanha e Portugal, avanços e muitos recuos. Viu o espírito "anti-ilustrado" vencer batalhas decisivas, mas existiu "desde sempre" um movimento ideológico, que poderia ser débil e minoritário, que desde os bastidores marcou a História desses países.

 Em Portugal existiu um percurso análogo, no qual Frei Manuel do Cenáculo parece ter desempenhado o tal papel dos bastidores, que, de certa forma, acabou por marcar a História do país. As "Luzes" de Cenáculo, a forma com trabalhou arduamente para as espalhar, quer através das reformas de ensino, quer através das diligências em prol dos livros e das bibliotecas, devem, de alguma forma, ter contribuído para que outras personalidade absorvessem, interpretassem e irradiassem de forma distinta esse ideário iluminista. Assim, teriam aberto caminho às transformações político-culturais mais profundas que se vieram a verificar, ainda que algumas dessas metamorfoses, nomeadamente as que ocorreram na esfera política, não fizesse, parte dos propósitos que Frei Manuel do Cenáculo pretendia alcançar.

O prelado integra-se numa elite eclesiástica que consegue, por via das funções que desempenhou, nomeadamente durante o consulado pombalino, dedicar-se de forma assertiva a atuar em campos cruciais para atingir a reforma cultural da sociedade. Os livros assumem, nessa perspetiva, um lugar central, uma vez que por seu intermédio e da sua disponibilização, se conseguiria alcançar a transformação desejada.

Os contactos epistolares que desenvolveu constituíram-se como uma rede de permuta de informações e de partilha de ideias, objetivos e informações literárias e biblioteconómicas que permitiram ao bispo conhecer e dar a conhecer caminhos e soluções para alcançar as mudanças sugeridas. (...)

Frei Manuel do Cenáculo que, num primeiro momento, toma a iniciativa para a reformação pedagógica e modernização dos estudos entre os franciscanos, colaborando também nas reformas pombalinas dos estudos, passa, numa segunda fase, para o terreno. Larga os gabinetes, colocando em prática muitas das suas ideias, quer cumprindo aquilo que considera como suas atribuições religiosas, quer encarando a necessidade de instrução numa perspetiva de "utilitarismo". Essa atitude tem propósitos políticos evidentes, de controlo e endoutrinamento da sociedade no quadro político vigente, constituindo-se similarmente, como uma tentativa de modernizar a sociedade e instituições, promovendo uma rutura com a pedagogia tradicional. A obsessão pelo registo que patenteia65 parece querer deixar, para memória futura, esta obra de "engenharia social" em que se ocupou afincadamente.

O exame das relações epistolares que o Bispo de Beja estabeleceu, permite fazer uma aproximação à valoração que realizou a muitos livros ou outros escritos. Essa avaliação não se cingiu à componente material da edição e sua riqueza, averiguando paralelamente a valia do conteúdo da obra e do seu autor. Constitui-se como uma apreciação que ia muito para além do valor em réis de determinada edição ou coleção, ajuizando também sobre o contributo que esta poderia trazer em termos do progresso social que se aspirava. Frei Manuel do Cenáculo surge assim como alguém muito preocupado com a utilidade dos livros, e com o progresso social que estes ajudariam a construir, partilhando, com outros intelectuais coevos, a mesma crença na utilidade destes instrumentos.

Essa valoração do livro relembra-nos uma proposta de definição deste instrumento, onde encontramos a seguinte reflexão:

«Um livro é mais que uma estrutura verbal, ou que uma série de estruturas verbais; é o diálogo que estabelece com o seu leitor, a entoação que impõe à sua voz, as imagens cambiáveis e duráveis que deixa na sua memória. Esse diálogo é infinito; as palavras amica silentia lunae significam agora lua íntima, silenciosa e luminosa, e na Eneida significaram o interlúnio, a obscuridade que permitiu aos gregos entrar na cidade de Tróia ... A literatura não é esgotável. Pela suficiente e simples razão de que um só livro não o é. O livro não é um ente incomunicável: é uma relação, é um eixo de inumeráveis relações.»

A forma como Cenáculo, juntamente com outros ilustrados, encara os livros, apontando-os como instrumentos ao serviço da instrução, coaduna-se com esta definição do livro enquanto objeto de diálogo. É através desse diálogo infinito que o livro cumpre as suas funções. É por não ser esgotável, por criar um eixo incontável de relações que se torna útil, capaz de dialogar com o seu leitor e dessa forma contribuir para a vertente formativa que representa, no pensamento dos ilustrados, a utilidade dos livros.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

 

Márcia Oliveira
Centro de Investigação Transdisciplinar "Cultura, Espaço e Memória"
In Lusitania Sacra (janeiro-junho 2013)
06.01.14

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