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Livro: Francisco, o argentino

Imagem Capa | D.R.

Livro: Francisco, o argentino

“Francisco, o argentino”, recentemente publicado pela editora Guerra & Paz, propõe um retrato do papa Bergoglio contado «pelos que o conhecem melhor e há mais tempo: os seus próximos, entre família, amigos e namorada de infância».

O jornalista suíço Arnaud Bédat viajou até Buenos Aires e recolheu depoimentos que ajudam a perceber a personalidade do papa Francisco e a direção que ele propõe dar à Igreja.

No excerto que oferecemos, cortesia da editora, apresentamos o testemunho dos dois principais responsáveis pelo Canal 21, a estação de televisão da arquidiocese de Buenos Aires criada pelo cardeal Bergoglio, desde o lançamento do projeto até ao reencontro em Roma.

«Nunca estive muito perto da Igreja; não sei se ele tinha conhecimento de que eu não era crente, mas devo confessar-lhe que foi o contacto com ele que acabou por fazer com que o fosse, não tenho dúvidas», confessa Sílvia Tuozzo, vice-presidente do canal.

Por seu lado, Júlio Rimoldi, diretor da estação, lembra o temperamento de Francisco: «Era alguém muito humano, que por vezes se enganava – mas que o reconhecia – e que com frequência também se zangava. Quando me chamava Julio, Salame ou Che sabia que estava tudo bem. Mas quando me dizia: “Anda cá, meu filho”, sabia que tínhamos sarilho...».

 

Francisco, o argentino
Arnaud Bédat
Capítulo XI – Canal Bergoglio

Pouca gente o sabe, mas o cardeal de Buenos Aires tinha criado o seu próprio canal de televisão. O canal 21, como aqui se diz, era, na televisão por cabo argentina, o canal oficial do arcebispo. Se as audiências sempre foram reduzidas, o canal tinha, no entanto, um público fiel e, como é natural, predominantemente católico e crente. Depois, evidentemente, as audiências subiram em flecha. Jorge Mario Bergoglio aparecia com frequência, dialogando com o seu amigo rabi Skorka, que publicou, aliás, um livro onde se encontram também diálogos com interlocutores de outras religiões.

Os arquivos do Canal 21, de uma grande riqueza, e hoje em dia únicos, constituem, sem qualquer dúvida, a mais importante massa documental do mundo sobre um pontífice. Não é verdade que contêm centenas e centenas de horas de gravações que se estendem por mais de dez anos? Não é, pois, por acaso que o Centro Televisivo Arquidiocesano CTA Canal 21 se encontra hoje ligado ao Centro de Televisão do Vaticano (CTV), a cadeia oficial da Santa Sé!

Diplomada pela Escola de Cinema de Buenos Aires, Sílvia Tuozzo é a vice-presidente do Canal 21. Esta mulher jovem e dinâmica, cheia de vida, não mudaria de profissão por nada deste mundo. Fala do seu chefe, Jorge Mario Bergoglio, com um brilho caloroso no olhar. «Foi ele que me nomeou», recorda, «numa altura em que estávamos à conversa num pequeno restaurante perto da catedral. Para mim, é um luxo inexplicável ter sido nomeada por ele. Trabalhava para ele como responsável pela produção na Igreja, o que, tem de se confessar, é uma função bastante rara.» Sorri, bem-disposta. «Nunca estive muito perto da Igreja; não sei se ele tinha conhecimento de que eu não era crente, mas devo confessar-lhe que foi o contacto com ele que acabou por fazer com que o fosse, não tenho dúvidas. Para mim, o seu catecismo é fundamental. Dá-nos uma visão completamente diferente da Igreja. É um pastor com um calor humano incrível, de tal maneira tem as ideias claras. Quando penso nele, recordo sobretudo a sua voz – “Bom dia, Silvia, é o padre Bergoglio” – uma voz muito baixa, muito calorosa, cheia de inteligência...»

Recorda hoje a sua eleição com uma verdadeira emoção: «Estava convencida de que ele não tinha a mínima hipótese. Lá no escritório andávamos todos a fazer apostas e eu apostara no cardeal Scola. Quando o protodiácono Jean-Louis Tauran apareceu no balcão e ouvimos pronunciar o seu primeiro nome em latim, “Jorgium Marium”, demos todos um grito, era como se a nossa equipa de futebol tivesse marcado um golo! Quando ele apareceu no balcão, ficámos de respiração suspensa, a pensar: “Mas que irá ele fazer, como vai conseguir aguentar tudo o que o espera?” Foi uma loucura, uma verdadeira loucura.»

«Devíamos, no entanto, ter desconfiado que ele tinha uma hipótese», continua. Dois dias antes, na segunda-feira, tínhamos recebido um telefonema de uma televisão alemã, a ZDF, acho eu, que queria comprar-nos arquivos de Bergoglio. Preparámos à pressa uma montagem e, antes de lha enviar, perguntei à minha interlocutora: “Mas para que é que querem estas imagens?” E ela respondeu-me: “Porque o nosso director está convencido de que Bergoglio vai ser o novo papa.” Foi de tal forma que, quando ele foi eleito e todas as cadeias televisivas nos caíram em cima, acabámos por enviar a toda a gente a mesma montagem. Mas a minha cabeça de produtora dizia-me: “Mas que idiota me saíste, não preparaste nada, para o caso de...”

O que mais me impressiona quando o vejo hoje é que não conservara dele a imagem de uma pessoa sorridente. Ora, hoje em dia, em Roma, vemo-lo sempre a sorrir... Em Janeiro, dois meses antes da sua partida para o Vaticano, estávamos todos um pouco preocupados. Achávamo-lo muito cansado. E agora vamos dar com ele todo satisfeito, feliz e em plena forma. É impressionante, parece outro homem.»

Chefe supremo do Canal 21, Jorge Mario Bergoglio estava ao corrente de todos os pormenores da sua pequena empresa, «mesmo os mais insignificantes». Detinha por vezes a sua produtora no corredor. «Diga-me lá, Silvia, aquele problema foi bem resolvido?» Todos os dias ia aos gabinetes cumprimentar pessoalmente os que lá trabalhavam. «Sabia bem que os nossos dias de trabalho eram muito longos», explica. Todos os anos, pelo Natal, oferecia também um presépio a toda a equipa. «O meu gabinete está cheio de presépios! », exclama, divertida frente ao seu cafecito – a sua chávena de café –, recordando, com o mesmo ar divertido, o seu patrão, que não gostava nada das câmaras televisivas, mas tinha de esforçar-se para superar esse desagrado quando era mesmo preciso que o filmassem.

Como produtora, Silvia Tuozzo assistiu, evidentemente, a todas as gravações do cardeal Bergoglio para o Canal 21. «Fui testemunha de diálogos surrealistas», conta-nos, «como o que teve com o rabi Skorka, que lhe confessou ter medo da morte. Em meia dúzia de frases conseguiu fazê-lo mudar de opinião.» Antes de a câmara começar a gravar, Jorge Mario Bergoglio rezava sempre durante uns segundos.

Quando realizou com ele a série A Bíblia, um diálogo atual, o olhar experiente de Silvia verificou que o arcebispo tinha uma mecha de cabelos fora do sítio e queria que ele a pusesse no devido lugar. «Foi preciso penteá-lo, coisa a que tinha um verdadeiro horror. Nunca pudemos tão-pouco maquilhá-lo, ele não queria e era verdadeiramente teimoso.» Mas antes de tudo o mais «era genial, nada mais do que isso: genial».

No seu espaçoso gabinete de director do Centro Televisivo Arquidiocesano CTA Canal 21, Julio Rimoldi não diz o contrário. Também ele foi indelevelmente marcado pelo seu chefe supremo, Jorge Mario Bergoglio. «Foi a partir de 2004 que passámos a ser muito chegados», testemunha o big boss, há trinta e cinco anos ao serviço do arcebispado. Nessa altura, o cardeal quis criar um canal de televisão. Vivi com ele uma experiência muito longa e muito rica. Quando Bergoglio delega um trabalho, está a entregar sobretudo a sua confiança. Todos os que trabalharam com ele mais de perto guardam a lembrança de uma relação que se estendia além do trabalho. Com ele tudo ia sempre mais longe.»

Julio Rimoldi lembra-se que, logo que o futuro papa foi nomeado cardeal de Buenos Aires e primaz da Argentina, a criação do canal televisivo era o projecto que mais o entusiasmava, «talvez porque era o único que não existia antes da sua nomeação». «Amou e acompanhou esse projecto desde o início porque era destinado aos leigos e não tinha intermediários», sublinha.

«Quando lançámos o projecto, disse-me: “A Conferência Episcopal vai dar-nos uma ajuda, mas temos de apresentar um projecto sólido e, se for aprovado, temos de fazer bem o nosso trabalho neste canal.” Perguntou--me de quanto tempo precisava para organizar o dossiê. Fiz os meus cálculos mentais e disse-lhe: “Dois meses.” E ele respondeu-me: “Então faça-o em duas semanas.” Trabalhámos dia e noite, sem parar. Estávamos convencidos de que aquilo não ia dar resultado, mas conseguimos por fim apresentar-lhe o projecto. Leu-o e aprovou-o imediatamente. Gostava de pôr Deus à prova lançando-lhe estes desafios.»

O canal começou a emitir em 2006, por via hertziana. Em 2008, já era transmitido para todo o país e chegava a cinco milhões de lares. Dois anos depois começa as emissões por satélite, 24 horas por dia, e através da Internet. Passara a ter 20 funcionários permanentes. «Mas hoje em dia, desde que Bergoglio é pontífice, tudo mudou», explica Julio Rimoldi. «Dantes ninguém nos ligava nenhuma, agora somos o canal do papa!

O projecto esteve muitas vezes prestes a falhar, sempre pelas razões erradas, mas nunca por falta de dinheiro. De cada vez que precisávamos de qualquer coisa surgia sempre uma solução, faziam-se milagres. Uma vez tivemos necessidade urgente de 75 000 dólares para mudar a nossa tecnologia. E apenas um prazo de cinco dias para encontrar essa soma, sob pena de sermos obrigados a fechar. No dia seguinte, uma senhora toca-nos à porta e diz-me: “Gosto muito das vossas emissões, sou natural da província de Córdoba, mas nunca venho a Buenos Aires. Como estava aqui perto, pensei vir cumprimentar-vos e saber se precisais de alguma coisa.” Falámos durante duas horas e não me atrevia a pedir-lhe auxílio. Ela olhou para mim e disse de repente: “Está com ar de quem quer pedir-me qualquer coisa.” Acabei por reunir coragem e confessei-lhe que precisávamos de 75 000 dólares. Ela não disse uma palavra e foi-se embora. Nessa
altura pensei que a senhora não era, obviamente, enviada pelo Espírito Santo. Mas no dia seguinte voltou e disse: “Tive de fazer uma operação no meu banco num montante de 75 063 dólares, isto é, exactamente a soma de que o senhor precisava.” Guardou 63 dólares para si e deu-me os restantes 75 000.»

«Durante os últimos dez anos, tive uma relação muito directa com Bergoglio», continua a contar. «Tínhamos um contacto quotidiano, mesmo durante o fim-de-semana. Por exemplo: toda a gente sabe que ele não tinha carro e que se deslocava sempre de transportes públicos. Assim, era eu, muitas vezes, que o levava de carro. Dizia que eram esses os melhores momentos para falarmos.

Hoje diria que mantinha com ele uma relação filial. Mas devo também confessar que discutimos muitas vezes porque era frequente termos de tomar decisões estratégicas importantes. Um dia, no fim de 2011, discutimos de uma forma um tanto ou quanto acalorada. Acontece que ele tinha de se ir embora para dar a extrema-unção a uma senhora. Não me senti bem quando o vi sair deixando entre nós um mal-entendido. Fiquei sozinho no meu gabinete quando o vi reaparecer algumas horas depois, brandindo-me na cara pequenos frascos de líquido e exclamando: “Trouxe isto para te dar a extrema-unção no caso de morreres.” Percebera muito bem que eu tinha ficado mal e voltara para me ver. Podíamos discutir, mas ele nunca queria que nos separássemos zangados. Era alguém muito humano, que por vezes se enganava – mas que o reconhecia – e que com frequência também se zangava. Quando me chamava Julio, Salame ou Che sabia que estava tudo bem. Mas quando me dizia: “Anda cá, meu filho”, sabia que tínhamos sarilho...»

«Em 2009, tive um grave problema de saúde, uma pneumonia que me perfurou um pulmão, e estive quase a morrer», continua Julio Rimoldi. «Pois bem: Bergoglio vinha visitar-me todos os dias ao hospital, telefonava para saber notícias minhas, ou enviava alguém. Como a nossa médica é a mesma, chegava a telefonar-lhe para saber se eu não faltava às consultas e eu fazia o mesmo com ele. Houve uma vez em que faltámos ambos à consulta. Ele disse-me: “Não foste à médica.” E eu respondi-lhe: “E o senhor tão-pouco!”

Bergoglio adora pregar partidas, mas, curiosamente, não sabe contar histórias engraçadas. Certa vez contou-me uma, mas eu não me ri. Contou-me outra e eu tão-pouco me ri. Perguntou-me: “Não tem graça? As minhas histórias não te fazem rir? Conto-as em todo o lado e as pessoas fartam-se de rir.” Digo-lhe eu: “O senhor é cardeal, pode contar seja o que for que toda a gente vai desatar a rir. Mas é meu dever dizer-lhe a verdade: é muito mau a contar anedotas.” Torceu-se todo a rir durante uma meia hora.»

«Todas as pessoas que entravam no seu gabinete para uma audiência saíam de lá subjugadas», conta ainda Rimoldi. «Ele irradiava qualquer coisa, as pessoas ficavam encantadas. É um grande sedutor. Quando abre a boca, vai directamente ao nosso coração. É uma coisa difícil de entender, mas é um homem completamente despojado de tudo. Toda a sua vida cabe numa pequena mala. Quando aqui estava, teria talvez três pares de calças, três camisas e dois pares de sapatos, mais nada.»

Paradoxalmente, Jorge Mario Bergoglio nunca via televisão. Criou, pois, um canal e nunca o viu. «Mas sabia que os meios de comunicação eram fundamentais para a evangelização.» Um dia, Julio quis oferecer-lhe um leitor de DVD. Bergoglio perguntou-lhe: «Quantos botões tem o teu aparelho?» Tudo o que tivesse mais de dois botões o cardeal não conseguia dominar. Contentava-se com o seu pequeno rádio de funcionamento rudimentar. Recusou portanto a oferta dizendo: «Ouve uma coisa, Julio. Prefiro antes ir ter contigo quando quiser ver um filme...»

Foi assim que os dois homens passaram imensas tarde de sábado, sempre no gabinete do director, a ver longas-metragens. «De cada vez que o fazíamos dizia-me: “Eu trago chocolates e vemos um filme”», lembra-se Julio, apontando com a mão a pilha de DVD que devoraram juntos. Filmes argentinos dos anos 1940-1950, longas-metragens italianas como A Vida É Bela, de Roberto Benigni, A Festa de Babette, de Gabriel Axel... «O último filme que tínhamos para ver era Habemus Papam, que lhe tinham oferecido, mas ele não teve tempo de o ver. Partiu para Roma e, como sabe, não regressou…»

«Quando foi eleito papa, o meu coração dividiu-se em duas partes», confessa Julio. «Por um lado, foi uma grande felicidade, mas, por outro, uma grande tristeza porque senti que o meu pai se tinha ido embora. Estive com ele na véspera da sua partida para o conclave. Tínhamos connosco a agenda a fim de preparamos todos os nossos afazeres quando ele voltasse de Roma. De repente, disse-lhe: “Mas para quê perdermos tempo com estas coisas uma vez que o senhor não vai voltar?” Começámos a discutir em jeito de brincadeira, como se fosse um jogo. “Não, Julio. Vou voltar, vou”, disse. E eu respondi-lhe: “Não senhor, não vai nada voltar.” E por aí adiante. Depois disse-me: “Olha para mim: sou um velho, a minha saúde não é boa, há gente muito mais competente do que eu.” Cravei-lhe então o prego final: “Seja como for, o senhor vai ser papa.” Nessa altura olhou para mim fixamente e respondeu lentamente: “Se eu for papa, tu vais ser o primeiro cardeal laico da história da humanidade.” E desatámos os dois a rir perdidamente...»

Incansável, sempre de bom humor, Julio continua a desfiar as suas memórias. Sente-se feliz por poder contá-las como nunca o fizera antes.

«No dia 13 de Março, estava na rua – regressava de um encontro – entrei no carro e ouvi na rádio que saíra fumo branco da Capela Sistina. Regressei rapidamente a casa. Pelo caminho houve imensa gente que me telefonou a perguntar-me quem seria o papa; respondia sempre na brincadeira: Bergoglio, é claro! Quando ouvi o nome dele, não consegui reagir. Ouvira o seu nome, mas não percebera bem. A minha mulher percebeu-o muito antes de mim. Tenho um cão muito grande, está a ver, que estava sentado ao meu lado. Uma vez passada a surpresa inicial, abracei-o e beijei-o com tanta força que quase o estrangulava!»

«Quando o papa era João Paulo II ou Bento XVI, pensávamos: muito bem, temos um papa. E a imagem desse papa estava num carimbo, em moedas, em cartazes. Mas de repente apercebemo-nos de que o papa é um amigo nosso, o tipo com quem falávamos, com quem víamos DVD ao sábado, no gabinete... E nessa altura pensamos: o que é que vou fazer? O meu pai não morreu, mas partiu e nunca mais voltarei a vê-lo da mesma maneira que o via dantes. É muito perturbador...»

Julio Rimoldi passa então por momentos de solidão e de grande depressão. Procura dar um novo sentido à sua vida. Mas a vida quotidiana já não tem o mesmo sabor. E vê-se finalmente obrigado a admitir: tem umas saudades enormes de Bergoglio. Escreve--lhe, mas o papa não lhe responde. Julio convence-se de que o esqueceu. Um amigo telefona-lhe e, no final da conversa, diz-lhe como se nada fosse: «Ah, é verdade, Francisco espera-te em Roma no dia 25, para passar contigo o teu aniversário.» Brincalhão como sempre, Jorge quisera ampliar o efeito do seu comportamento.

Os seus amigos cotizaram-se e ofereceram-lhe um bilhete de avião para o Vaticano. «Era a primeira vez que via o papa», conta. «Tinha-me preparado, mas não sabia bem como iria sentir-me. Pensei: vai ser como sempre foi, só que vai estar vestido de branco. Mas enganei-me. Foi um verdadeiro choque. Fiquei muito comovido, verti algumas lágrimas, e ele brincou comigo como era seu hábito: “Vá lá, aqui não podes fazer tolices!” Levou-me então para os seus aposentos e disse: “Olha bem para mim. Sou a mesma pessoa; estou vestido de branco, mas sou o mesmo!”

O seu quarto é muito modesto. Por ocasião do conclave tinha um quarto mais pequeno e queria ficar com ele, mas não foi possível por motivos de segurança. Os aposentos que hoje ocupa têm, pois, um vestíbulo de recepção. À direita há uma cama e a casa de banho e à esquerda um gabinete. Tendo recuperado um pouco o à-vontade, disse-lhe: “Aqui há qualquer coisa de errado: uma televisão!” E Bergoglio respondeu-me que nunca a liga. “Então porque a tem no quarto?” “Para me lembrar de ti, Julio! Cada vez que passo à frente dela penso em ti!”

Almoçámos depois no refeitório de Santa Marta, onde toda a gente se reunia. As pessoas olhavam-nos com alguma insistência. Bombardeei-o, literalmente, de perguntas. Ele já sabia que eu estava a submeter-me a uma terapia. Quando me perguntou como estava, disse-lhe que estava zangado com ele, que me sentia um pouco órfão. Ele riu-se: “Diz isso ao teu psiquiatra!”

Bergoglio é um fenómeno, está a ver? De repente atirei-lhe: “Mas como é que uma pessoa tão austera e tão modesta como o senhor aceita ser o indivíduo mais conhecido deste mundo?” Voltou a sorrir e depois respondeu: “Estou completamente em paz comigo mesmo.” Percebi que me dizia que Deus assim o quisera. E acrescentei: “Em Buenos Aires era quase preciso bater-lhe para o senhor sorrir e aqui está sempre satisfeito da vida!” “Isso faz parte da paz que encontrei. Sabes, sinto-me bem aqui, gosto deste sítio, estou rodeado de pessoas de quem gosto.” Acho que só quando aceitou este seu inexorável destino de ser papa é que ele conseguiu encontrar essa imensa paz espiritual.»

 

Arnaud Bédat
In Francisco, o argentino, ed. Guerra & Paz
Publicado em 03.10.2014

 

Título: Francisco, o argentino - O papa íntimo contado pelos seus próximos
Autor: Arnaud Bédat
Editora: Guerra & Paz
Páginas: 208
Preço: 13,05 €
ISBN: 978-989-702-114-5

 

 
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Preparámos à pressa uma montagem e, antes de lha enviar, perguntei à minha interlocutora: “Mas para que é que querem estas imagens?” E ela respondeu-me: “Porque o nosso director está convencido de que Bergoglio vai ser o novo papa.”
«Nunca pudemos tão-pouco maquilhá-lo, ele não queria e era verdadeiramente teimoso.» Mas antes de tudo o mais «era genial, nada mais do que isso: genial»
«Todas as pessoas que entravam no seu gabinete para uma audiência saíam de lá subjugadas», conta ainda Rimoldi. «Ele irradiava qualquer coisa, as pessoas ficavam encantadas. É um grande sedutor. Quando abre a boca, vai directamente ao nosso coração
Paradoxalmente, Jorge Mario Bergoglio nunca via televisão. Criou, pois, um canal e nunca o viu. «Mas sabia que os meios de comunicação eram fundamentais para a evangelização.» Um dia, Julio quis oferecer-lhe um leitor de DVD. Bergoglio perguntou-lhe: «Quantos botões tem o teu aparelho?»
O último filme que tínhamos para ver era "Habemus Papam", que lhe tinham oferecido, mas ele não teve tempo de o ver. Partiu para Roma e, como sabe, não regressou…
Fiquei muito comovido, verti algumas lágrimas, e ele brincou comigo como era seu hábito: “Vá lá, aqui não podes fazer tolices!” Levou-me então para os seus aposentos e disse: “Olha bem para mim. Sou a mesma pessoa; estou vestido de branco, mas sou o mesmo!”
Tendo recuperado um pouco o à-vontade, disse-lhe: “Aqui há qualquer coisa de errado: uma televisão!” E Bergoglio respondeu-me que nunca a liga. “Então porque a tem no quarto?” “Para me lembrar de ti, Julio! Cada vez que passo à frente dela penso em ti!”
“Mas como é que uma pessoa tão austera e tão modesta como o senhor aceita ser o indivíduo mais conhecido deste mundo?” Voltou a sorrir e depois respondeu: “Estou completamente em paz comigo mesmo.”
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