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Leitura: "Francisco, de Roma a Jerusalém"

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Leitura: "Francisco, de Roma a Jerusalém"

“Francisco, de Roma a Jerusalém – Em viagem pela paz, lado a lado com o Papa”, de Henrique Cymerman e Jorge Reis-Sá, foi o livro de não ficção mais vendido em Portugal entre 13 e 19 de outubro, entrando diretamente para o primeiro lugar da tabela publicada pelo semanário “Expresso”.

«Tudo pare­cia indicar» que a primeira viagem do papa à Terra Santa «não fosse possível»; Henrique Cymerman foi decisivo a desbloquear alguns obstáculos e a visita aconteceu, recorda a nota de apresentação do volume, editado pelo Clube do Livro SIC e a editora Guerra & Paz.

O livro nasce dos encontros entre o papa e os autores, que acompanharam Francisco nos três dias de peregrinação à Jordânia, Palestina e Israel, entre 24 e 26 de maio de 2014, e estiveram com ele no Vaticano.

«Vamos, pois, ser peregrinos ao seu lado: quando pousa a mão no Muro das Lamentações, estamos lá; quando reza na margem do rio Jordão, estamos lá; quando cruza as fronteiras, quando foge ao protocolo e para no muro em Belém, estamos lá; quando beija a mão dos sobreviventes do Holocausto, quan­do vai até ao campo de refugiados, quando finalmente consegue realizar a «Invoca­ção pela Paz», no regresso a Roma — nós estamos sempre com ele.»

A obra inclui «fotografias e reproduções de documentos inéditos, as homilias e os discur­sos do papa, os testemunhos exclusivos dos que com ele viajaram e de dos seus dois grandes amigos, Alicia Barrios e Abraham Skorka».

Henrique Cymerman (Porto, 1959) licenciou-se em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidade de Telavive, onde fez o mes­trado em Ciências Sociais. É correspon­dente no Médio Oriente da SIC, da Globo News do Brasil, da Univision dos EUA, da Telecinco de Espanha e Channel 2 israeli­ta, bem como dos jornais “La Vanguardia”e “Expresso”.

Jorge Reis-Sá (Famalicão, 1977), é licenciado em Biologia; depois de quinze anos como editor, é agora consultor editorial. Como escritor, publicou prosa, poesia e crónicas.

No excerto que apresentamos, Henrique Cymerman relata o telefonema de Francisco, na véspera da viagem, pedindo-lhe que o ajudasse: «Só tu podes salvar agora a situação».

 

Degania, Telavive
Henrique Cymerman
In “Francisco, de Roma a Jerusalém”, eds. Clube do Livro SIC/Guerra & Paz

[ Estou no edifício do município, no centro de imprensa, assistindo à missa com um olho na televisão e outro na realidade. O Jorge está lá em baixo, tomando o pulso à multidão. E eu regresso, por momentos, ao que me trouxe aqui, aos últimos passos, ao que conseguimos e à forma como o conseguimos. ]

De início pensei que se tratasse de uma piada. Chegara a Roma para me juntar ao voo papal e acompanhar o Papa Francisco na sua histórica visita ao Médio Oriente e o telemóvel tocou. Do outro lado ouvi uma voz conhecida: «Henrique? Sou o Papa Francisco.» Estive quase a responder que eu era Napoleão, mas depressa percebi que era mesmo o papa. A sua máxima preocupação, 24 horas antes da partida para Amã, Belém e Jerusalém, era que o encontro de paz com os chefes de Estado de Israel e da Palestina, com o qual sonhava havia oito meses, estivesse prestes a eclipsar-se antes de ver a luz. E esteve. Quase.

Num dado momento da preparação da viagem, o papa exprimiu o sonho de fazer uma oração pela paz. Tinha falado comigo, por altura da minha primeira ida ao Vaticano, para que ajudasse como pudesse na organização da visita à Terra Santa, se se concretizasse. Dada a forma como consigo «cruzar as linhas», com mais de vinte anos a cobrir com o maior profissionalismo possível o conflito israelo-árabe, pensou que poderia ser de alguma ajuda. Quando começaram as diligências para esta sua nova ideia, para a qual pediu também o meu contributo, tudo parecia correr de feição. Os norte-americanos incentivavam o processo de paz mais intenso dos últimos anos, mas este, como tantos no passado, implodiu no final de Abril, menos de quatro semanas antes da viagem papal.

Encontrei-me então, a 27 de Abril, altura da canonização de dois dos papas anteriores, com o embaixador palestiniano na Santa Sé, Issa Kassissieh. Ele percebeu a importância do encontro, e tentou tudo para que acontecesse. O compromisso de Kassissieh e de Nadav Tamir, assessor diplomático do presidente de Israel, diz muito sobre a possibilidade de paz. Quando as pessoas se conhecem, todas as diferenças são valorizadas na sua devida importância, que é muito pouca quando comparada com o tanto que une dois homens de bem. E Kassissieh e Tamir tinham, por um acaso do destino, estudado em Harvard na mesma altura, pelo que são muito amigos. O rabino Abraham Skorka, um dos grandes amigos do papa, também ajudava em tudo o que podia. Assim como eu. E o próprio Papa Francisco estava tão atento que o informavam durante a canonização do que acontecia durante a reunião, no hotel Relais dei Papi, onde Skorka se costuma hospedar, um hotel mais pequeno exactamente para que ninguém a pudesse ver – um acto tão solene como aquele e o Papa Francisco a conseguir celebrar um dos momentos mais importantes dos últimos anos para a religião católica e, ao mesmo tempo, tentando precaver o futuro sombrio com a esperança da paz, atento.

A reunião correu bem e Kassissieh viajou então para Ramallah fazendo a pressão possível sobre Abbas para que o encontro se realizasse, mesmo contra todos os problemas que surgiam pela implosão do processo de paz. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, é visto como o moderado no seu governo, o que diz bem do Governo israelita, porque ele nunca foi visto como um dos políticos mais moderados de Israel; e Abbas fez o governo de unidade nacional entre a Fatah e o Hamas, que nem sequer reconhece a existência de Israel. Um descalabro. Então, eu e Nadav Tamir falámos com Shimon Peres e, do seu gabinete, com uma pessoa que fez muito por todo este processo, Ayelet Frish, no sentido de perceber que da parte israelita a vontade se mantinha.

O papa escrevera uma carta particular a cada um dos presidentes, assinada «Francisco», com aquela letra miudinha que se lhe conhece. E Peres respondera que sim, mas Abbas mantinha-se em silêncio. Não podia dizer que não, mas não via como possível dizer que sim. E foi neste contexto que chegámos à véspera da viagem, sem o acordo feito, mas com o papa com a mesma vontade férrea de que acontecesse. E foi então que recebo o telefonema e ouço: «só tu podes salvar agora a situação». Comecei a fazer chamadas, uma pressão enorme, uma coisa terrível pela responsabilidade que sentia em cima dos ombros. Do lado palestiniano diziam-me «o Presidente não está», «o Presidente está a rezar, hoje é sexta-feira», «não sabemos se vem ao escritório». Sexta-feira é como se fosse fim-de-semana em Ramalhah, e se no começo ainda me atendiam o telemóvel, depois começaram a evitar até fazer isso.

O que me valeu foi o contacto que tenho dentro da Mukata, a sede do Governo, em Ramallah. Uma pessoa que também queria muito que a oração acontecesse, que percebia a importância histórica de tudo isto, disse-me onde estava Abbas. Consegui então falar com o seu ajudante, que me respondeu: «Vou imediatamente avisar o Presidente que o Cymerman está a ligar em nome do Papa Francisco.» Passaram uns minutos e tocou outra vez o telefone. Era Saeb Erekat, ministro-chefe da equipa negociadora palestiniana, que me diz: «Henrique, ajuda-nos a não dizer que não ao papa, não lhe podemos dizer que não.» Eu respondi: «Ajudem-me também e não diremos que não ao papa – não podemos.» Porque este tinha dito uma frase-chave que é bem o tema da oração: «em qualquer lugar, em qualquer momento». Mas onde e como, que o tempo escasseava?

Os serviços secretos israelitas tinham dito que não a Belém. O agregado militar de Peres, Hason Hason, um druso, tinha dito que não podia ser aí, que haveria em Belém células muito perigosas e que se temia um atentado. «E então Jericó?», perguntei. Poderia ser. Mas o lado palestiniano vetou: não queriam que Abbas pudesse sofrer uma humilhação por ter de passar check-points israelitas para lá chegar. Também por esta razão, já Jerusalém tinha sido descartada, aquela que era a primeira opção do Papa Francisco. Surgiu então o monte Nebo como hipótese, que seria simbólico porque foi onde Moisés viu a Terra Prometida – a metáfora da paz. Só que, sendo na Jordânia, o papa estaria lá no sábado, e Peres não pode viajar ao sábado. Embora, diga-se, Abbas também tivesse vetado entretanto a Jordânia, certamente por razões políticas.

Mas o papa não atirou a toalha ao chão. E, na sexta-feira à noite, ocorreu-lhe a ideia de ser no Vaticano. O lado palestiniano também não via objecções. E eu falei então com Frei Yoaniss Lahzi Gaid, que é, com Fabián Pedacchio, um dos secretários pessoais do papa – um egípcio copta que fala inglês e árabe e que cuida do papa como um filho cuida de um pai. Tenho por ele um grande carinho.

O tempo passava e tudo se tentava oficializar. O Papa Francisco não poderia convidar os presidentes sem antes saber que o convite seria aceite, como é habitual nestas circunstâncias. Foi durante o voo, quando veio cumprimentar os jornalistas da comitiva – entre eles o jovem palestiniano Imad Freij, que se sentara mesmo ao meu lado – que falámos. Em pé, no corredor do avião, apenas com jornalistas em volta, tirando fotos e gravando. E nenhum deles, como seria de imaginar, sabia da situação. Perguntavam-se o que estaria o papa a falar comigo. Eu tentava ser discreto, falar-lhe perto do ouvido, mas ele respondia sem qualquer pejo, alto, dizendo que poderia ser uma boa ideia a vinda ao Vaticano. Saiu então da minha beira, cumprimentou o resto da comitiva e, na volta, disse:

– Muito bem. Tens carta branca para organizar isso. Vamos lá.

E eu fui.

O anúncio foi feito pouco antes do fim da missa, em Belém. Abbas tinha dito que sim. Peres confirmara oficialmente naquele momento e eu liguei a um assessor do papa que se encontrava junto ao altar. Ele falou com o padre que estava ao lado do papa e este inclinou-se para ele, informando-o que tudo estava tratado e perguntando-lhe quando queria anunciar. E eu vi, na televisão, o papa dizendo: «ahora, ahora». Senti-me parte da História.

Mas, ainda assim, com medo. Só daí a 24 horas poderia fazer o mesmo convite oficial a Peres, na sua residência oficial, e em 24 horas dá para boicotar muita coisa. E então ele foi mais uma vez surpreendente. Eu tinha muito receio da reacção de Netanyahu, que não sabia deste convite e poderia ficar agastado. Mas eis que, mal o papa chegou ao aeroporto, convidou imediatamente o presidente Shimon Peres, em italiano. Netanyahu ouviu sem pestanejar um convite que nem os próprios tradutores conheciam e que nem sequer passou nas legendas da televisão. Ainda assim, as palavras Abbas, Peres e Vaticano ouviram-se com clareza.

Eu tinha percebido, na primeira visita que fizera ao Vaticano, meses antes, que o Papa Francisco era ser humano especial. À parte de ser papa, de ser o guia de milhões de católicos, era um ser humano especial. Mas que tinha um sonho, como todas as pessoas normais: ele sonhava ir à Terra Santa, abraçar no Muro das Lamentações o seu grande amigo rabino Abraham Skorka. E sonhava com isto poder lançar a semente para mais gestos, pequenos e grandes gestos, de que a oração pela paz é o exemplo mais significativo.

Quando o percebi dizer «ahora, ahora», e depois ouvi o primeiro convite, na Praça da Manjedoura, no fim de uma celebração que lhe terá dito tanto, percebi uma coisa: o processo de paz pode, a certas alturas, parecer apenas um processo. Mas já morreu tantas vezes e já ressuscitou tantas outras, que tenho a certeza que com a ajuda do Papa Francisco ele ressuscitará novamente. Não fosse ele um dos que mais crêem que tudo o que morre ressuscita logo a seguir.

 

Publicado em 03.11.2014

 

Francisco, de Roma a Jerusalém
Autor: Henrique Cymerman, Jorge Reis-Sá
Editoras: Clube do Livro SIC, Guerra & Paz
Páginas: 240
Preço: 13,49 €
ISBN: 978-989-702-120-6

 

 
Imagem Capa | D.R.
De início pensei que se tratasse de uma piada. Chegara a Roma para me juntar ao voo papal e acompanhar o Papa Francisco na sua histórica visita ao Médio Oriente e o telemóvel tocou. Do outro lado ouvi uma voz conhecida: «Henrique? Sou o Papa Francisco.» Estive quase a responder que eu era Napoleão, mas depressa percebi que era mesmo o papa
O papa escrevera uma carta particular a cada um dos presidentes, assinada «Francisco», com aquela letra miudinha que se lhe conhece. E Peres respondera que sim, mas Abbas mantinha-se em silêncio. Não podia dizer que não, mas não via como possível dizer que sim
E foi então que recebo o telefonema e ouço: «só tu podes salvar agora a situação». Comecei a fazer chamadas, uma pressão enorme, uma coisa terrível pela responsabilidade que sentia em cima dos ombros
O que me valeu foi o contacto que tenho dentro da Mukata, a sede do Governo, em Ramallah. Uma pessoa que também queria muito que a oração acontecesse, que percebia a importância histórica de tudo isto, disse-me onde estava Abbas. Consegui então falar com o seu ajudante, que me respondeu: «Vou imediatamente avisar o Presidente que o Cymerman está a ligar em nome do Papa Francisco»
O Papa Francisco não poderia convidar os presidentes sem antes saber que o convite seria aceite, como é habitual nestas circunstâncias. Foi durante o voo, quando veio cumprimentar os jornalistas da comitiva – entre eles o jovem palestiniano Imad Freij, que se sentara mesmo ao meu lado – que falámos
Eu tinha percebido, na primeira visita que fizera ao Vaticano, meses antes, que o Papa Francisco era ser humano especial. À parte de ser papa, de ser o guia de milhões de católicos, era um ser humano especial. Mas que tinha um sonho, como todas as pessoas normais: ele sonhava ir à Terra Santa, abraçar no Muro das Lamentações o seu grande amigo rabino Abraham Skorka
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