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Franciscanos em Portugal: Oito séculos de espiritualidade, cultura e ação social

A Ordem dos Frades Menores, fundada por São Francisco de Assis, foi aprovada em 1209 pelo papa Inocêncio III e não tardou a espalhar-se pela Europa.

As tradições sobre a vinda de São Francisco a Portugal em 1214, por ocasião de uma eventual peregrinação a Compostela, não são confirmadas por fontes medievais seguras.

Seja como for, os Franciscanos estabeleceram-se no país em 1217, depois de o capítulo geral desse ano ter enviado os primeiros irmãos para fora da Itália, organizados no que se poderiam chamar «províncias pessoais», isto é, grupos de frades colocados sob a obediência de um «ministro».

O capítulo geral de 1219 reforçou a organização provincial com a criação formal de províncias territoriais. Uma delas era a de Espanha (ou as Espanhas) que abrangia os cinco reinos cristãos da Península Ibérica.

Os primeiros conventos, simples ermitérios, foram os de Alenquer, Guimarães, Lisboa (todos de 1217) e Coimbra (que já existia em 1220). Ficaram na história os nomes de dois fundadores: em Alenquer, Frei Zacarias de Roma, e, em Guimarães, Frei Guálter, que a tradição popular vimaranense canonizou e ainda hoje celebra nas Festas Gualterianas.

Foi no Ermitério de Santo Antão dos Olivais, em Coimbra, que Santo António de Lisboa passou os primeiros meses da sua vida franciscana antes de embarcar para Marrocos como missionário em fins de 1220.

 

Desdobramento da Província de Espanha e desmembramento da custódia portuguesa

Entre 1232 e 1239 a Província de Espanha desdobrou-se em três: Aragão, Castela e Santiago. Esta incluía o território português e por isso também aparece muitas vezes designada como Província de Portugal.

Os conventos portugueses, como era frequente em províncias mais extensas, formavam a custódia de Portugal (ou de Lisboa). O capítulo provincial de 1272 desmembrou a custódia portuguesa em duas: a de Lisboa com sete conventos (Alenquer, Estremoz, Évora, Leiria, Lisboa, Portalegre e Santarém) e a de Coimbra com seis (Coimbra, Covilhã, Guarda, Guimarães, Lamego e Porto). O de Bragança, com existência documentada desde 1271, ficou na custódia de Orense devido à proximidade geográfica.

O capítulo provincial de 1330, celebrado em Coimbra, formou uma terceira custódia, a de Évora, com as seis casas então existentes a sul do Tejo (Beja, Estremoz, Évora, Loulé, Portalegre e Tavira).

As religiosas inspiradas no carisma de S. Francisco - que este artigo não aborda - instalaram-se em Portugal, através das Clarissas, em Lamego, no ano de 1258. Até 1834 foram fundados dezenas de mosteiros da Ordem de Santa Clara. A restauração, após a política anticongreganista, ocorre em 1925, com a compra do mosteiro do Louriçal. Ao longo dos séculos XIX e XX floreceram diversas congregações femininas franciscanas, algumas de fundação portuguesa.



Imagem Biblioteca do convento de Mafra | D.R.

 

Consequências do Cisma do Ocidente

O enquadramento jurídico dos franciscanos portugueses conheceu nova e decisiva alteração com o Cisma do Ocidente (1378-1415).

As cinco custódias espanholas da Província de Santiago aderiram ao papa de Avinhão, alinhando nessa matéria com a política oficial do reino de Castela, definida em maio de 1381. As três custódias portuguesas mantiveram-se fiéis ao papa de Roma.

A partir de 1382 a província compostelana desdobra-se praticamente em duas com ministros provinciais próprios: um em Santiago, ligado a Avinhão, e outro em Lisboa, de obediência romana. A guerra entre Portugal e Castela, de 1384 a 1387, veio acentuar a rutura.

A legalização canónica da nova Província de Portugal terá sido formalizada no capítulo geral de 1418 ou no de 1421. Frei Gil Lobo de Tavira foi o primeiro ministro provincial.

 

Atividades dos Franciscanos

A principal atividade externa dos frades nos primeiros tempos foi o ministério pastoral da pregação e da celebração dos sacramentos.

Alguns conventos não tardaram, porém, a abrir escolas públicas de gramática, filosofia e teologia. As de Lisboa e Santarém estão documentadas desde 1261. Depois há notícia de mais seis: Alenquer, Beja, Coimbra, Évora, Guimarães e Porto. Quase todas viriam provavelmente do século XIII.

A escola de teologia de Lisboa foi a que ganhou maior projeção: o capítulo geral de Assis de 1340 elevou-a a estudo geral da ordem e em 1453 o papa Nicolau V incorporou-a na Universidade de Lisboa.

 

Conventualismo e observância

Entretanto, desde meados do século XIV, dcfrontavam-se duas tendências na ordem: o conventualismo (ou a Claustra, como se dizia em Portugal) e a observância.

Os conventos da Claustra eram normalmente desenhados com amplidão, privilegiavam a disciplina regular da vida comum de estilo monástico, praticavam a regra com dispensas pontifícias, em matéria de pobreza, estavam geralmente localizados em centros urbanos e bastantes mantinham escolas públicas. Em geral, era este o perfil dos conventos portugueses em meados do século XIV.

A vida quotidiana, marcada pela regularidade dos ofícios litúrgicos e das lições escolares, assumira um ritmo quase monacal, diferente da itinerância e da espontaneidade das primeiras gerações franciscanas.



Imagem Convento do Varatojo | D.R.

O movimento da observância apareceu na Itália e pouco depois na França e na Espanha. Os seus defensores insistiam na observância integral da regra, praticavam a austeridade e a pobreza na simplicidade dos edifícios e no passadio quotidiano, privilegiavam a oração mental e a pregação popular e localizaram-se geralmente em sítios ermos ou em meios rurais.

Os estudos, descurados pelos iniciadores, foram retomados na segunda geração da observância, em princípios do século XV, sob o impulso de São Bernardino de Sena.

Data igualmente deste período o regressso progressivo aos centros urbanos sem abandono das implantações eremíticas.

A observância entrou em Portugal em 1392 com Frei Diogo Arias, Frei Gonçalo Marino e outros frades da Província de Santiago. Nesse ano abriram cinco ermitérios no Norte; quatro na zona de Entre Minho e Lima, que então pertencia à diocese galega de Tui, e o outro em São Clemente das Penhas, nos arredores de Leça da Palmeira.

No século XV fundaram-se mais de uma dezena de conventos observantes no país. O mais importante viria a ser o de Varatojo (Torres Vedras), construído por D. Afonso V e inaugurado em 1474.

Como noutros países da Europa, os observantes de Portugal, ao certo desde 1447 e porventura já no decénio de 1420, organizaram-se em vigariaria autónoma no seio da única província franciscana do reino. (...)

 

Os Franciscanos e os Descobrimentos

Os Franciscanos integraram-se nas expedições dos Descobrimentos que rasgaram horizontes mais largos à tradicional vocação missionária da ordem.

A presença de um franciscano entre as figuras do Monumento dos Descobrimentos, em Belém, exprime essa realidade histórica em vigorosa linguagem plástica.

Antes de 1460 havia já cinco conventos em África e nas ilhas: um em Ceuta, dois na Madeira (no Funchal e em Câmara de Lobos) e dois nos Açores (o primeiro na ilha de Santa Maria e o outro em Angra, na Terceira).

 

Divisão da Ordem

O papa Leão X em 1517 decretou a divisão da ordem em duas: a dos Frades Menores da Regular Observância (ou simplesmente Frades Menores) e a dos Frades Menores Conventuais.

Na sequência desta decisão pontifícia também entre nós surgiram duas províncias nesse mesmo ano: a Província de Portugal da Regular Observância (com 27 casas e sede no Convento de São Francisco da Cidade em Lisboa) e a Província de Portugal dos Claustrais ou Conventuais (com 22 casas e sede no Convento de São Francisco do Porto). As três casas da Madeira ficaram para os Observantes e as cinco dos Açores para os Claustrais.

A pedido do cardeal D. Henrique, então regente do reino, os Conventuais foram suprimidos e integrados na província observante de Portugal por breve do papa São Pio V de 30 de outubro de 1567, executado no ano seguinte. Na Espanha aconteceu o mesmo nesta ocasião por influência de Filipe II. Os Franciscanos Conventuais voltariam a Portugal quatro séculos mais tarde, em 1967.

A outra Ordem Franciscana, a dos Capuchinhos apareceu na Itália em 1525 e foi aprovada em 1528 pelo papa Clemente VII.



Imagem Convento da Arrábida | D.R.

 

Províncias, custódias e seminários

Os Franciscanos Observantes (que passaram a ser conhecidos simplesmente por Franciscanos) desenvolveram-se muito nos séculos XVI e XVII e organizaram-se em dois grupos de províncias e custódias.

O primeiro grupo entroncava historicamente na corrente principal da observância, iniciada no século XIV, e constituía o que então se chamou a Regular Observância. Limitamo-nos a referir o nome e a localização das entidades deste grupo e a indicar entre parênteses as datas da criação jurídica e da implantação efetiva, que só coincidiram no primeiro caso.

Três províncias: Portugal (1517), Àlgarves (1532 e 1533), formada pelos conventos da anterior situados a sul do Tejo e por mais quatro da Estremadura, entre eles o de Varatojo, e, nos Açores, a de São João Evangelista (1639 e 1640), desmembrada da Província dos Algarves. Duas custódias: a de São Tiago Menor (1683 e 1702), separada da Província de Portugal e constituída pelos quatro conventos então existentes na Madeira, e a da Conceição (1715 e 1717), com os sete conventos das ilhas de Santa Maria e de São Miguel, que para o efeito se desvincularam da Província de São João Evangelista.

O segundo grupo cultivava o regime de vida mais austero da Estrita Observância (ou da «mais estreita e regular Observância», como então se dizia) e veio a ter cinco províncias (assinalamos também entre parênteses duas datas quando a criação e a implantação se deram em anos diferentes): Piedade (1517 e 1518), Arrábida (1560), Santo António (1568), Soledade (1673) e Conceição (1705 e 1706). (...)

Além destas oito províncias e duas custódias, apareceram ainda cinco seminários autónomos de missionários apostólicos. Estas casas uniam uma austera disciplina conventual a intensa atividade exterior de pregação de missões populares. (...)

Entre as atividades dos Franciscanos neste período destaca-se a sua presença no ensino. Nos Açores todo o ensino à população foi ministrado pelos Franciscanos até à fundação dos colégios jesuítas de Angra em 1570 e de Ponta Delgada em 1592.

Posteriormente, a Companhia de Jesus obteve o monopólio do ensino secundário e os Franciscanos e os Gracianos continuaram a lecionar as primeiras letras em todas as ilhas (exceto no Corvo onde não existiam conventos) e também a habilitar candidatos para o estado eclesiástico.

Em Coimbra, de novo cidade universitária desde 1537, quatro províncias (Portugal, Algarves, Santo António e Conceição) fundaram colégios universitários próprios que foram incorporados na universidade. Além disso, nesta funcionou uma cadeira sobre o teólogo franciscano Beato João Duns Escoto desde 1537 até à reforma de Pombal em 1772.



Imagem Igreja de S. Francisco | Évora | D.R.

A Província da Arrábida abriu estudos próprios de filosofia e teologia em 1619 no Convento de São José de Ribamar em Algés.

Os núcleos geográficos de maior implantação de conventos situavam-se na região de Coimbra* (15 casas), no Patriarcado de Lisboa (com 10 conventos e cinco hospícios só na capital) e na zona de Évora e Vila Viçosa (11 casas). O elevado número de conventos do Alto Alentejo devia-se à proteção concedida pela Casa de Bragança à província capucha da Piedade. Todas as províncias do continente possuíam pelo menos uma casa em Lisboa.

Os conventos da Província da Arrábida (que chegaram a ser 31, incluindo hospícios e enfermarias) encontravam-se todos no território do patriarcado, exceto o de Leiria.

Em Coimbra havia seis conventos, quatro dos quais eram os supramencionados colégios universitários.

No período de maior expansão, os conventos e hospícios das províncias, custódias e seminários apostólicos do continente e das ilhas adjacentes chegaram a perto de 200.

Quanto ao número de religiosos, segundo as cuidadosas estatísticas publicadas em 1740 por Frei Apolinário da Conceição, no ano anterior existiam em Portugal 4499 frades. Este quantitativo era provavelmente superior ao conjunto de todos os outros religiosos do país. (...)

Anotemos, finalmente, que durante este período a ordem teve dois ministros gerais portugueses: Frei André Álvares ou da ínsua, da Província dos Algarves, de 1547 a 1553, e Frei Bernardino de Sena, da Província de Portugal, de 1625 a 1631, que a seguir foi nomeado bispo de Viseu.

Entretanto, a participação dos Franciscanos na expansão missionária prosseguiu em ritmo acentuado no século XVI. (...)









 

Decadência e supressão

O capítulo geral de Toledo de 1606 já tinha advertido que, por falso zelo de piedade, se criavam demasiados conventos na Península Ibérica.

A crise interna dos institutos religiosos em Portugal vinha de meados do século XVII e agravou-se na segunda metade do século XVIII. Nesta época são notórios e variados os sinais de decadência: recrutamento vocacional deficiente, infrações à disciplina regular, ociosidade, estagnação intelectual e quebra do ideal missionário.

A população conventual do país era excessiva. Este facto refletia-se no plano económico: dificuldades de subsistência, administração incompetente, acumulação de dívidas dos conventos, reclamações de credores junto do governo e da corte e conflitos entre províncias e casas mendicantes por causa dos peditórios.

O declínio dos institutos regulares acentuou-se no século XIX por influência de dois acontecimentos exteriores. Durante as Invasões Francesas (1807-1811) numerosos conventos estiveram ocupados por tropas nacionais e estrangeiras e não poucos religiosos participaram nas operações militares e de guerrilha contra as forças napoleónicas.

Mais tarde, a partir de 1820, as lutas políticas entre liberais e absolutistas e sobretudo a guerra civil de 1832-1834 introduziram também o desassossego na vida interna das comunidades religiosas.

A decadência não era geral. Mas atingia uma percentagem de religiosos e de situações suficiente para se repercutir com gravidade no conjunto. Por outro lado, os séculos XVIII-XIX apresentavam um ambiente externo desfavorável aos institutos religiosos.

A mentalidade regalista e iluminista do século XVIII nutria pouca consideração pelas ordens regulares. A inspiração racionalista do iluminismo não compreendia a dimensão contemplativa da vida religiosa. Os institutos religiosos eram rotulados de corpo social inútil e ocioso que direta ou indiretamente vivia à custa da sociedade e do Estado tanto sob a forma de mendicância como através de dotações do erário público.



Imagem Igreja de S. Francisco | Porto | D.R.

Para o liberalismo havia tal antinomia entre a liberdade do homem e os votos religiosos que os conventos, mais do que prisões, eram verdadeiros sepulcros.

Na esfera política, económica e social os homens do vintismo consideravam as corporações regulares incompatíveis com os ideais cívicos do Portugal novo que desejavam criar.

Os foros e outros direitos de bastantes mosteiros e conventos pertenciam à estrutura ultrapassada do Antigo Regime, oprimiam as populações e contrariavam a liberdade de propriedade e de iniciativa patrocinada pela economia liberal.

Outros fatores contribuíram também para a eliminação dos institutos religiosos: a animosidade anticongreganista de alguns setores da população, inclusive do clero secular; a orientação anticlerical e anticongreganista da Maçonaria; as necessidades do tesouro nacional que se tornariam mais prementes em 1834 devido aos empréstimos contraídos para financiar a guerra civil contra o regime absolutista.

A extinção das ordens religiosas constituiu o ponto culminante de uma série de medidas anticongreganistas anteriores. (...)

Os religiosos expulsos dos conventos receberam o nome de egressos. A história dos egressos franciscanos está ainda por fazer.

Alguns frades seguiram para conventos do estrangeiro. Os religiosos cansados da disciplina regular aproveitaram-se da lei civil para regressar à vida secular. A maioria recolheu a casa de familiares ou de amigos e conformou-se com a exclaustração imposta pelo governo.

Quanto aos sacerdotes, uns ocuparam-se no ministério pastoral em paróquias ou capelanias de mosteiros femininos e de casas de assistência; outros consagraram-se ao apostolado da pregação, do confessionário e da assistência a fraternidades da Ordem Terceira Franciscana sobretudo no Norte; outros, enfim, dedicaram-se ao ensino em estabelecimentos públicos e particulares.



Imagem Convento dos Capuchos | Sintra | D.R.

 

Ordem Terceira Regular

A Ordem Terceira Regular surgiu nos séculos XIII-XIV em vários países da Europa a partir de grupos de terceiros seculares que se agregaram em vida comum com votos religiosos. O papa Leão X, em 1521, unificou o movimento dando-lhe regra própria.

A província portuguesa da Ordem Terceira Regular já existia em 1439. Em 1568 foi colocada sob a dependência do ministro provincial da Província de Portugal da Regular Observância. Depois, talvez em 1586, passou à obediência imediata do ministro geral observante. A Santa Sé elevou-a a congregação autónoma em 1780.

Em 1739 tinha 17 conventos (um deles colégio universitário em Coimbra) e 478 religiosos em Portugal e um convento com 10 frades em Luanda.

Entre os membros da Ordem Terceira Regular destacou-se Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, figura insigne da cultura nacional no século XVMI. Depois da supressão de 1834 a Ordem Terceira Regular não foi restaurada cm Portugal.

 

Da restauração ao presente

Não era fácil restaurar a vida franciscana devido à proibição da lei civil e à hostilidade do ambiente político e social. Muitos egressos também se tinham acomodado às novas condições do seu apostolado e pensavam que era melhor continuar assim do que regressar à disciplina do convento.

A diversidade de costumes internos das províncias e sobretudo dos seminários apostólicos dificultava o reagrupamento de religiosos formados segundo modelos concretos diferentes.

Um pequeno resto originário de Varatojo, onde a disciplina regular e o dinamismo apostólico se mantiveram sempre em bom nível, conseguiu reabrir este convento. A 24 de dezembro de 1860 o ex-varatojano Frei Joaquim do Espírito Santo comprou-o, a título particular, e a 27 de janeiro de 1861 recomeçou aí a vida comunitária com outro antigo confrade.

Nos meses seguintes vieram mais egressos, um deles arrábido. Este retomar da vida franciscana contradizia as leis de 1833-1834. Para os restauradores do seminário a liberdade de consciência pessoal e o direito de organização das instituições da Igreja prevaleciam sobre tal legislação. A reabertura de Varatojo impôs-se como facto consumado. O próprio governo foi lá buscar Frei José Sebastião Neto para fazer dele bispo de Angola (1880-1883) e a seguir patriarca de Lisboa (1883-1907).



Imagem Convento de S. Francisco | Santarém | D.R.

O projeto dos varajotanos regressados visava apenas a continuação do seu próprio seminário apostólico autónomo. A visita canónica a Varatojo do ministro geral Frei Bernardino de Portogruaro (11 a 23 de maio de 1883) abriu perspetivas para a formação de uma província.

Erigiram-se mais três casas: São Bernardino (Peniche) em 1884 e Montariol (Braga) e Torre da Giesteira (Évora) em 1890. Nas duas primeiras estabeleceram-se os estudos eclesiásticos, dos preparatórios à teologia.

O número de religiosos (professos e noviços), também ia subindo: de oito no fim de 1861 passou a 23 em 1883 e a 56 em 1891. As principais atividades exteriores eram o ministério pastoral e o ensino, com escola primária gratuita nos quatro conventos.

O ministro geral Frei Luís de Parma procedeu à restauração da Província de Portugal por decreto de 18 de outubro de 1891, executado a 18 de novembro seguinte. Frei Domingos Sanches foi o primeiro ministro provincial.

 

História da atual província

De 1891 a 1910 fundaram-se seis casas: Brancanes (o antigo seminário apostólico, junto a Setúbal), Lisboa (duas casas), Necessidades (Barcelos), Vilarino (perto de Vigo, na Espanha) e Leiria. Os religiosos duplicaram (em 1907 eram 130) e continuaram a dedicar-se ao ministério pastoral e ao ensino primário.

Na pregação distinguiu-se Frei Manuel das Chagas, considerado o maior pregador popular do país no seu tempo.



Imagem Convento de Montariol | D.R.

Por iniciativa do ministro provincial Frei João da Santíssima Trindade abriram-se novos campos de ação: a imprensa*, com a revista "Voz de Santo António", e a obra assistencial Pão de Santo António em 1895, a associação de formação Juventude Antoniana em 1896 e sobretudo a missão de Moçambique, iniciada na Beira a 17 de julho de 1898.

Em abril de 1901 a maioria dos conventos foi encerrada pelas autoridades na sequência de um decreto de 10 de março, que urgia o cumprimento das leis anticongreganistas de 1833-1834.

A situação normalizou-se depois de os Franciscanos terem sido reconhecidos pelo governo como organização missionária (não como instituto religioso) sob o nome de Associação Missionária Portuguesa a 18 de outubro de 1901.

Em 1910 surgiram novas dificuldades: a suspensão da "Voz de Santo António" pela Santa Sé em maio, uma visita apostólica à província em setembro (após a qual foi reduzida a comissariado-geral a 7 de novembro) e a hostilidade da I República.

 

Dispersão e exílio

Proclamada a República a 5 de Outubro de 1910, logo a oito se decretou o restabelecimento das leis de 1833-1834 e a expulsão dos Jesuítas e dos religiosos estrangeiros. Os nacionais poderiam viver em grupos de três, no máximo, sem hábito religioso e comunicando o domicílio ao Ministério da Justiça.



Imagem Convento de Santo António dos Capuchos | Guimarães | D.R.

As casas de formação mudaram-se para a Galiza (Vilarino e Tui). Até 1916 fundaram-se 14 residências no país, a maioria no Norte. Entre 1911 e 1915 houve duas casas no Brasil. Os sacerdotes cultivaram muito a pregação. A imprensa continuou com o "Almanaque de Santo António" e o "Boletim Mensal", que tinham aparecido em 1898 e 1908, respetivamente. Em 1924 abriram-se oficinas de tipografia e encadernação em Braga.

Em Moçambique a atitude do governo começou a ser mais favorável às missões a partir de 1919. (...) Èm 1923 introduziu-se em Portugal o movimento de apoio às missões União Missionária Franciscana.

Entretanto, o estatuto canónico de província tinha sido restabelecido a 14 de setembro de 1915. O número de frades atingiu 170 em 1928.

 

Expansão na metrópole e no ultramar

No seguimento do Decreto n.° 12 485 de 13 de outubro de 1926, em que o regime político implantado a 28 de maio desse ano reconhecia e subsidiava as missões católicas, as casas de formação voltaram a Portugal: seminário menor e teologia em 1928 e noviciado e filosofia em 1940.

Graças à Concordata e ao Acordo Missionário de 1940 a província foi reconhecida pelo governo como corporação religiosa missionária por portaria de 29 de abril de 1941. (...)

Em Portugal a principal atividade exterior continuou a ser a pastoral com relevo para a pregação. Na imprensa registaram-se inovações: em 1933 deu-se a transferência das oficinas gráficas para Montariol; em 1954-1955 a transformação destas em Editorial Franciscana com livraria no Porto e delegação em Lisboa e lançamento do jornal "Missões Franciscanas" em 1937, da revista de cultura "Coletânea de Estudos" em 1946 e, em 1955, das revistas "Alma" e "Itinerarium", derivadas do "Boletim Mensal" e da "Coletânea de Estudos", respetivamente.

Criaram-se duas instituições: a Obra da Imaculada Conceição e Santo António para acolhimento de crianças pobres (Caneças, 1952) e, reatando a tradição escolar suspensa em 1910, o Externato da Luz para ensino primário e secundário (Lisboa, 1958). (...) O número máximo de religiosos foi atingido a 15 de agosto de 1963 com 398 professos e noviços.

Em 1967 o capítulo geral da ordem reformou as constituições gerais no espírito do II Concílio do Vaticano (1962-1965) e encerraram-se os estudos eclesiásticos internos da província. No ultramar a expansão continuou até à revolução de 25 de Abril de 1974 (...)



Imagem Igreja matriz de Orgens, pertencente ao antigo convento de S. Francisco | Viseu | D.R.

Ao longo dos anos 70, acentua-se a diminuição dos religiosos por abandono de professos e escassez de candidatos.

Em 1967 o curso fílosófico-teológico passa a ser frequentado no Centro de Estudos Eclesiásticos dos Religiosos, em Lisboa, e, em 1969 na Faculdade de Teologia de Lisboa da Universidade Católica Portuguesa. Docentes franciscanos ensinam nesta universidade desde 1968.

A pastoral mantém-se como primeira atividade exterior. Com o regresso de missionários aceitaram-se mais paróquias (...).

As famílias dos Franciscanos em Portugal estão presentes na imprensa (por exemplo, Editorial Franciscana, "Almanaque de Santo António", revistas "Itinerarium", "Mensageiro de Santo António", "Bíblica" e jornal "Missões Franciscanas"), no ensino (Externato da Luz, Lisboa) e na ação social.

A Ordem dos Frades Menores tem sede em Lisboa, onde também estão instalados quatro conventos. Está também presente em Angra do Heroísmo, Coimbra, Faro, Funchal, Lamego, Leiria, Montariol, Penafiel, Porto, Varatojo e Vila Real.

Os Franciscanos Capuchinhos, dinamizadores do movimento bíblico, têm fraternidades em Baixa da Banheira, Barcelos, Fátima, Gondomar, Lisboa, Pínzio e Porto. Em Fátima têm um centro e um jardim bíblico, bem como o Museu do Presépio.

Os Frades Menores Conventuais assumem paróquias em Coimbra e Lisboa.

 

Oito séculos da presença franciscana em Portugal – Memória e Vivência

De 25 a 28 de abril decorrem as atividades de encerramento das comemorações dos “Oito séculos da presença franciscana em Portugal – Memória e Vivência”, coorganizadas pela Província Portuguesa da Ordem Franciscana, pela Delegação de Portugal da Ordem dos Frades Menores Conventuais, pela Província Portuguesa dos Padres Missionários Capuchinhos, pela Ordem Franciscana Secular e pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.





 



António Montes Moreira
In Dicionário da História Religiosa de Portugal, ed. Círculo de Leitores
Edição: SNPC
Imagem: Igreja de Santa Maria dos Olivais, Coimbra | D.R.
Publicado em 24.04.2018

 

 
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